Promoção de saúde, reflexões de um geriatra

Promoção de saúde, reflexões de um geriatra

Eu acredito que é a missão, o desafio e a responsabilidade, de todos os profissionais da área da saúde, a luta pela conscientização e criação de cultura de promoção de saúde na população.


Quando o profissional de saúde encontra um paciente sem queixas, imediatamente deve vir em sua mente checar se este está atualizado com a promoção de saúde. Apesar do paciente não apresentar queixas isso não significa que sua saúde não pode melhorar. Neste momento o conceito de prevenção entra em cena, pois este é o segredo para o envelhecimento saudável.

É como diz o velho ditado “é melhor prevenir do que remediar”. E isto realmente é verdade ao analisarmos de vários pontos de vista. Pelo ponto de vista do paciente, este é o que mais se beneficia, pois tais medidas são capazes de impedir eventos que irão drenar sua reserva de saúde e vão permitir que este usufrua de sua qualidade de vida por mais tempo. Do ponto de vista financeiro, os gastos de saúde são muito mais exorbitantes para curar um agravo de saúde que para prevenir.

Podemos neste momento realizar alguns simples cálculos, uma cirurgia de prótese de colo de fêmur após fratura de cabeça de fêmur por queda da própria altura, ao se pesquisar em múltiplos sites no google se obtém relatos de valores entre 20.000,00 reais e 250.000,00 reais, como um serviço particular. Valores que podem ser superiores a depender de estrutura hospitalar, unidade de terapia intensiva e pagamento de equipe de saúde. Agora, ao analisarmos o preço do Alendronato, a medicação mais comumente utilizada para tratamento de osteoporose, em uma pesquisa rápida na rede encontra custos mensais entre 41 reais e 200 reais. Ao considerar o valor mais baixo da cirurgia encontrado a pessoa poderia realizar tratamento para prevenção de fraturas por até 40 anos. Esclareço que esta medicação não pode ser utilizada continuamente por tanto tempo e necessita de critérios adequados para ser introduzida, porém esta é uma simplificação para comparar a dimensão da economia que podem representar as medidas preventivas.

Os quatro pilares da promoção de saúde

Neste momento apresento a vocês os quatro pilares da promoção de saúde: exercício físico, vacinação, rastreamento e hábitos de vida. Existem recomendações específicas para quantidade e tipos de exercícios físicos de acordo com cada faixa etária. Temos vacinações recomendadas para cada faixa etária, além de vacinas recomendadas pelo Ministério da Saúde (Programa Nacional de Imunização) e adicionais recomendada por sociedades médicas. Rastreamento representa testes em uma população aparentemente saudável, de problema ou condição de saúde de impacto considerável, para que um tratamento ou intervenção precoce possa ser oferecido e, assim, reduzir a incidência e/ou mortalidade do problema ou condição de saúde na população. Quando citamos hábitos, estamos falando principalmente sobre dieta, tabagismo, etilismo e uso de outras substâncias recreativas (na linguagem popular chamado de “drogas”).

Nos próximos textos vou abordar com maior profundidade cada um destes temas.

Porém, na visão de um médico, é desconcertante o fato que a população brasileira, em sua grande maioria, não apresenta uma cultura voltada para promoção de saúde. Apesar de ouvirmos rotineiramente histórias de tragédias de saúde de pessoas em nossos círculos, como o conhecido que teve infarto, o vizinho que teve um derrame ou o pai de um amigo que diagnosticou um câncer já em fase muito avançada, frequentemente quando acometidos tais pacientes tinham pensamentos semelhantes a algo como “isto não vai acontecer comigo”. É compreensível, o ser humano evita pensar nas coisas que provocam medo. Mas ao mesmo tempo é curioso pois este pensamento não é aplicado principalmente no aspecto financeiro. É comum realizar investimentos e poupanças, devido ao medo de uma possível falta de dinheiro, são contratados convênios médicos com medo de possíveis gastos exorbitantes com internações ou tratamentos.

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É curioso o fato de que tal preocupação não é aplicada a promoção de saúde, pois na humilde opinião deste geriatra, a perda da saúde incapacita uma pessoa em muitos casos a se empenhar em melhorar todos os outros aspectos da vida. Um indivíduo saudável pode buscar elementos como educação e condições financeiras que lhe faltam, porém, a perda da saúde pode tirar sua chance de batalhar por tais melhorias, então por que não cuidar com mais zelo da saúde do seu bem mais precioso? O seu próprio corpo.

Na opinião deste profissional de saúde, acredito que somos seres que cada vez buscam mais a satisfação imediata, de maneira que muitas vezes falhamos em perceber o ganho da promoção da saúde de nosso próprio corpo. Chamo isto do ganho que não podemos enxergar, pois é o infarto ou derrame que foi evitado, a diabetes que foi diagnosticada e tratada precocemente e não necessitou de insulina. Ou seja, a catástrofe não se concretizou e nossa mente imediatista falha em perceber o quanto foi valioso investir em sua própria saúde. Eu acredito que é a missão, o desafio e a responsabilidade, de todos os profissionais da área da saúde, a luta pela conscientização e criação de cultura de promoção de saúde na população. Uma cultura que, se estabelecida, vai gerar transformações impactantes na situação de saúde deste país.

Referências

  1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Ten great public health achievements–United States, 1900-1999. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 1999; 48:241.
  2. Taksler GB, Keshner M, Fagerlin A, et al. Personalized estimates of benefit from preventive care guidelines: a proof of concept. Ann Intern Med 2013; 159:161.
  3. Boulware LE, Marinopoulos S, Phillips KA, et al. Systematic review: the value of the periodic health evaluation. Ann Intern Med 2007; 146:289.
  4. Atlas SJ, Grant RW, Ferris TG, et al. Patient-physician connectedness and quality of primary care. Ann Intern Med 2009; 150:325.
  5. Yoon PW, Bastian B, Anderson RN, et al. Potentially preventable deaths from the five leading causes of death–United States, 2008-2010. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2014; 63:369.

Foto destaque de Mehmet Turgut Kirkgoz/pexels.


Davi Wei Ming Wang

Médico pela Universidade Federal de São Paulo. Residência em Clínica Médica na (Unifesp/EPM). Programa de Residência Médica, Pós na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP): Programa de Residência em Geriatria, junto ao Departamento de Clínica Médica. Médico voluntário do Proter (Programa Terceira Idade do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Médico assistente nos hospitais: Hospital Israelita Albert Einstein/ Hospital Sírio Libanês/ Associação Beneficente Síria - Hospital do Coração (HCOR). Atua com os seguintes temas: Promoção de saúde e envelhecimento saudável; Tratamento de dores crônicas associadas a condições osteodegenerativas; e Queixas de memória. Instagram: https://www.instagram.com/dr.daviwang/

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Médico pela Universidade Federal de São Paulo. Residência em Clínica Médica na (Unifesp/EPM). Programa de Residência Médica, Pós na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP): Programa de Residência em Geriatria, junto ao Departamento de Clínica Médica. Médico voluntário do Proter (Programa Terceira Idade do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Médico assistente nos hospitais: Hospital Israelita Albert Einstein/ Hospital Sírio Libanês/ Associação Beneficente Síria - Hospital do Coração (HCOR). Atua com os seguintes temas: Promoção de saúde e envelhecimento saudável; Tratamento de dores crônicas associadas a condições osteodegenerativas; e Queixas de memória. Instagram: https://www.instagram.com/dr.daviwang/

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