Boa sorte, Leo Grande – conto de fadas ou manifesto feminista?

Boa sorte, Leo Grande – conto de fadas ou manifesto feminista?

O filme foi projetado para ser um “conto de fadas” para mulheres idosas? Ou um manifesto feminista com uma fórmula para o resgate da sexualidade plena?


A produção do filme “Boa sorte, Leo Grande”, investiu numa bem-sucedida campanha de divulgação, principalmente na mídia inglesa e americana. O filme foi lançado no Festival Internacional de Provincetown, onde ganhou como melhor filme e os atores Emma Thompson e Daryl McCormack esperam indicações para prêmios de interpretação. Um filme de orçamento modesto, foi realizado em apenas 19 dias. E praticamente todas as cenas se passam num quarto de hotel.

As entrevistas de promoção do filme com Emma Thompson e Daryl McCormack, buscam identificar identidades entre ambos, como atores e como personagens. Emma tem 63 anos e Daryl tem 30 anos na vida real. Na divulgação do filme, são apresentados com alguns anos a menos. As entrevistas nem sempre conseguem demonstrar as identidades.    

A diretora Sophie Hyde e a roteirista Katy Brand projetaram um “conto de fadas” para mulheres idosas? Ou um manifesto feminista com uma fórmula para o resgate da sexualidade plena nunca conseguida ao longo dos 31 anos de casamento de Nancy Stokes, a personagem de Emma Thompson?

As leitoras e leitores desta resenha não devem considerar como “spoiler”, a apresentação dos personagens, até porque grande parte da riqueza do filme se baseia nos ótimos diálogos criados por Katy Brand e pela direção “de mulher pra mulher” de Sophie Hyde. Exatamente por estes atributos, o filme deve ser visto também pelos homens. Como diria Freud, “…afinal, o que querem as mulheres?”

Nancy Stokes é uma professora de religião aposentada, viúva e mãe de um casal de filhos adultos que já não vivem com ela. Se não fosse a excelente interpretação da grande Emma Thompson, a história da personagem seria aborrecida. Uma mulher conservadora, que defende valores “morais”, atualmente em voga na onda neoconservadora que assola a sociedade.

Apesar de moralista, Nancy estabelece uma meta de conseguir se liberar sexualmente contratando um garoto de programa. Logo nas primeiras falas Nancy afirma que não quer sexo com os homens da sua idade, que a assediaram após a morte do marido, porque ela deseja um corpo jovem. Leo Grande, o garoto de programa, é interpretado pelo belo ator irlandês, Daryl McCormack.

O ator Daryl, a roteirista e a diretora fizeram entrevistas e conversas com profissionais do sexo e comentaram que foram surpreendidos por suas histórias. O que conhecemos sobre a vida e o trabalho dos profissionais do sexo, homens e mulheres, nos dá uma visão distinta do comportamento profissional do personagem Leo Grande.

O encantamento do roteiro surpreende pela delicadeza e gentileza de Leo Grande em procurar escutar, entender e incentivar Nancy a realizar os seus desejos. Este comportamento é a chave que conduz o roteiro e o desfecho do filme.   

A primeira impressão sobre o filme, a partir das resenhas e do material de divulgação, conduz a uma ideia de um conto de fadas para mulheres maduras. Conto de fadas porque a um clique num aplicativo, uma mulher pode conseguir ótimo sexo, ótima conversa, delicadeza e beleza. Esta impressão pode permanecer como a mensagem do filme?

Ou a mensagem do filme é a cena final com Nancy Stokes/Emma Thompson exibindo um nu frontal, feminista e libertador do corpo nu e desinibido de uma mulher idosa?

Ficha técnica
Direção: Sophie Hyde
Roteiro: Katy Brand
Atores: Emma Thompson, Daryl McCormack
Distribuidor: Paris Filmes
Ano de lançamento: 2022
País de origem: Reino Unido
Em exibição nos cinemas


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Maria do Carmo Guido

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós graduada em Gestão de Políticas Públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Pesquisadora e consultora nos temas da Economia do Envelhecimento. E-mail: [email protected]

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