Alimentação saudável e atividade física na prevenção de demências

A alimentação saudável é apontada como essencial para a prevenção de transtornos cognitivos maiores, e também de várias outras doenças crônicas.

Com colaboração de Tawane Carneiro e Millene Abrantes (*)


Demências ou transtornos cognitivos maiores, são um conjunto de afecções caracterizadas por serem progressivas e por comprometer várias funções do sistema nervoso central, tais como a memória, raciocínio, orientação, compreensão, capacidade de aprendizagem, linguagem, julgamento e cálculo. Entre os transtornos cognitivos maiores, a enfermidade mais comum é a Doença de Alzheimer, que inicia com sintomas leves como a dificuldade de lembrar de acontecimentos recentes e progride para dificuldade em se comunicar, alterações no comportamento, confusão e até mesmo dificuldade para engolir, andar, urinar e evacuar. Outros tipos destes transtornos incluem a demência vascular, doença de Parkinson, entre outras.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) há alguns fatores de risco que, quando presentes, poderiam favorecer o desencadeamento da Doença de Alzheimer e de outras síndromes demenciais. Dentre elas, o estilo de vida.

A alimentação saudável é apontada como essencial não só para a prevenção de transtornos cognitivos maiores, mas também de várias outras doenças crônicas tais como doenças cardíacas e diabetes. No caso dos transtornos cognitivos maiores, a presença tanto de obesidade quanto de desnutrição são fatores importantes associados ao seu desenvolvimento.

A obesidade é caracterizada como o excesso de gordura corporal em quantidade que determine prejuízos à saúde. Segundo a OMS, uma pessoa é considerada obesa quando o seu Índice de Massa Corporal (IMC) é maior ou igual a 30kg/m2. Cada vez mais estudos epidemiológicos evidenciam a relação entre um IMC alto durante a vida e aumento do risco para o desencadeamento de transtornos cognitivos maiores, especialmente o Alzheimer.

A obesidade crônica pode causar alterações morfológicas no cérebro, além de promover a resistência à insulina, o aumento dos níveis circulantes de glicocorticoide e de metabólitos no cérebro e a neuro inflamação. Além do que, como já mencionado em outras conversas aqui no Blog, pesquisas apontam que a microbiota intestinal pode afetar a fisiologia do cérebro de modo que as bactérias e os produtos bacterianos do intestino podem causar respostas inflamatórias crônicas no cérebro que levariam à formação de lesões neurodegenerativas semelhantes às observadas na Doença de Alzheimer.

Além da obesidade, um baixo IMC (igual ou maior que 18.5kg/m2) também está relacionado ao aumento do risco para demências. Estudo realizado com 2 milhões de pessoas moradoras na Inglaterra acompanhados por duas décadas encontrou que, das 45.507 pessoas diagnosticadas com transtornos cognitivos maiores, a presença de um IMC abaixo de 20kg/m2 entre os 40 e 55 anos de idade aumentou em 34% o risco de apresentar demências no futuro.

Isso ocorre porque o baixo peso pode indicar desnutrição, isto é, um desequilíbrio entre a ingesta e a exigência corporal de alimentos e nutrientes, condição que predispõe ao aparecimento de complicações graves resultantes de alterações no metabolismo. As deficiências na ingestão de vitaminas colaboram para o surgimento de alterações cognitivas: a vitamina B12 e C são indispensáveis para manter uma boa memória e, quando em falta, causam declínio da função cerebral.

Assim, em uma publicação realizada pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), tanto o baixo peso como o excesso de peso são fatores importantes para o desenvolvimento de transtornos cognitivos e de complicações associadas à Doença de Alzheimer.

Recomenda-se, portanto, evitar dietas ricas em gorduras saturadas e açúcares simples, que estão relacionadas ao prejuízo no aprendizado e na memória. Indica-se uma alimentação sem excesso de carboidratos, sal, ácidos graxos saturados e carnes vermelhas, porém rica em vegetais, frutas, cereais, peixes e produtos de soja. Esta dieta pode beneficiar o funcionamento cognitivo devido ao aumento dos níveis de corpos cetônicos, relacionados com melhor desempenho da memória.

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Além disso, alguns estudos recentes apontam que produtos lácteos fermentados e seus componentes, incluindo bactérias do ácido láctico, podem auxiliar na proteção contra a demência já que a microbiota intestinal afeta a fisiologia do cérebro principalmente quando a diversidade de micróbios no intestino é reduzida, indicando o uso de probióticos na alimentação.

Além da dieta, a atividade física também é aliada na prevenção da obesidade podendo ser, por si própria, protetora contra doenças neurodegenerativas. O exercício físico regular promove a saúde vascular, diminui a pressão arterial, melhora o perfil lipídico, reduz o estresse oxidativo, diminui os marcadores inflamatórios, melhora a função endotelial, além de promover uma maior circulação cerebral através de melhora do fluxo sanguíneo e suprimento de oxigênio. Possui também efeitos na plasticidade cerebral e reserva cognitiva, melhorando inclusive a neurogênese.

A OMS recomenda pelo menos cerca de 150 minutos de atividade física moderada por semana, o que equivale a 30 minutos de segunda a sexta. Para o idoso, é importante que essa prática seja orientada por profissionais de saúde capacitados.

Referências

GOMES, Clarissa Souza Hamad; CASTRO, João Pedro Chaves Luna Cavalcante.  O impacto das mudanças de estilo de vida na prevenção da Doença de Alzheimer. VI Congresso Internacional de Envelhecimento Humano.  2019. Disponível em <https://editorarealize.com.br/editora/anais/cieh/2019/TRABALHO_EV125_MD1_SA4_ID3670_10062019224919.pdf>.

SILVA, Maria Janaína Bernarda da; PALORO, Marcela; HAMASAKI, Mike Yoshio. Estado nutricional e risco de Doença de Alzheimer.Acta Portuguesa de Nutrição, v. 4, p. 24-27, 2016. Disponível em <https://actaportuguesadenutricao.pt/wp-content/uploads/2017/01/n04a05.pdf>.

REDAÇÃO PORTAL BOAS NOVAS. Atividade física regular pode reduzir risco de demência em 28%. 2020. Disponível em <https://www.portalboasnovas.com.br/noticia/723/atividade-fisica-regular-pode-reduzir-risco-de-demencia-em-28>.

(*) Tawane Carneiro e Millene Abrantes são graduandas do Centro Universitário São Camilo, estagiárias Programa Bolsa Talento.

Foto destaque de Kampus Production/Pexels


Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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