A OMS reconhece o idadismo como um problema de saúde pública, capaz de influenciar políticas e práticas que afetam diretamente a qualidade de vida das pessoas idosas.
Por Fernanda Beatriz Silva, Gabriela Cristina Siqueira e Sabrina Aparecida da Silva (ABG) (*)
O idadismo, do termo inglês ageism, é definido pela Organização Mundial da Saúde como estereótipo, preconceito e discriminação contra alguém, ou contra si mesmo, devido à idade. Conforme mostra o “Relatório mundial sobre o idadismo” da Organização Pan-Americana da Saúde, divulgado em 2022, uma a cada duas pessoas apresenta atitudes idadistas. Esse dado evidencia a urgência de enfrentar esse preconceito que atravessa gerações e afeta diversas esferas da sociedade.
Essa discriminação pode surgir em múltiplos contextos, muitas vezes de forma sutil e despercebida. Um exemplo claro é a fala infantilizada direcionada às pessoas idosas, comportamento comum no âmbito familiar e na sociedade. Ao adotar uma postura excessivamente protetiva, tratando a pessoa idosa como incapaz de realizar tarefas do cotidiano, corre-se o risco de comprometer sua autonomia e independência, afetando diretamente a qualidade de vida e o bem-estar.
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Enraizado na sociedade, o idadismo exterioriza-se desde a infância. Através de discursos e atitudes discriminatórias relacionadas ao envelhecimento, as crianças constroem a sua percepção de velhice, influenciando a forma que elas enfrentarão o seu processo de envelhecimento. Em uma sociedade que cultua a juvenilidade e o corpo jovem, a velhice é temida e repugnada. Nesse sentido, a cultura “jovencêntrica” se mostra presente nas mídias e também nos desenhos, que retratam a bruxa como uma mulher velha e assustadora.
Neste contexto, o profissional gerontólogo desempenha um papel fundamental na educação para o envelhecimento, atuando para desconstruir estereótipos e a identificar práticas idadistas que muitas vezes passam despercebidas. Na prática, isso acontece por meio de capacitações para equipes de saúde, orientando sobre comunicação respeitosa, preservação da autonomia, escuta ativa e formas de evitar atitudes infantilizadoras que ainda são comuns em serviços de atenção à pessoa idosa.

Gerontólogo: mediador entre idosos, famílias, equipes e gestores
Com sua visão biopsicossocial, o gerontólogo atua entre diferentes níveis de atenção, desde a prática do cuidado até a macrogestão, contribuindo para a revisão de protocolos, fluxos de atendimento e campanhas institucionais, além de participar da formulação e implementação de políticas públicas relacionadas ao envelhecimento. Sua atuação não acontece de forma isolada: o gerontólogo atua como mediador entre idosos, famílias, equipes e gestores, fortalecendo uma cultura organizacional que respeita a diversidade do envelhecer.
Ao ampliar esse olhar e integrar diferentes áreas, o gerontólogo ajuda a construir ambientes mais inclusivos, éticos e preparados para todas as idades, abrindo caminho para uma sociedade que compreende o envelhecimento como parte natural e valiosa da vida humana. Para que isso se torne realidade, é preciso reconhecer que em nossa cultura, o envelhecimento ainda é frequentemente retratado de forma negativa, seja em conversas cotidianas, em campanhas publicitárias ou até em discursos profissionais. Essa visão limitada reduz a velhice a uma etapa de perdas, fragilidade e dependência, desconsiderando que o envelhecer é parte natural e contínua do desenvolvimento humano.
Julgamentos, atitudes e comportamentos
De acordo com a perspectiva do ciclo de vida (lifespan), cada fase traz ganhos e desafios, e a velhice não deve ser compreendida como o fim, mas como mais uma etapa de crescimento e aprendizado. Entretanto, estereótipos sobre a idade ainda são amplamente reproduzidos. Quando alguém afirma que “idoso é teimoso”, “velho não aprende mais” ou “já passou da idade para isso”, está expressando um julgamento baseado em preconceito e não em fatos. Esses julgamentos, quando se transformam em atitudes e comportamentos discriminatórios, recebem o nome de idadismo (ou etarismo). O termo vem do inglês ageism, junção de age (idade) com o sufixo -ism, usado para nomear formas de discriminação, como racismo e sexismo.
O idadismo é multifacetado e se manifesta de diferentes maneiras: no ambiente de trabalho, quando pessoas mais velhas são preteridas em seleções sob o argumento de que “não acompanham as mudanças”; nos serviços de saúde, quando profissionais não escutam a queixa do paciente idoso e respondem com frases como “é assim mesmo, é da idade”; ou ainda no cotidiano, quando alguém fala por uma pessoa idosa, tirando-lhe o direito de se expressar. Esses exemplos revelam o quanto as atitudes idadistas estão enraizadas e naturalizadas nas interações sociais.
De forma menos percebida, o idadismo também atinge jovens, quando sua opinião é desconsiderada por falta de “experiência”, ou duvida-se de sua competência profissional apenas pela idade. Isso mostra que o preconceito etário atravessa todas as gerações, criando uma barreira de desconfiança entre grupos etários e enfraquecendo o diálogo intergeracional, fundamental para sociedades mais inclusivas e solidárias.

O idadismo é um problema de saúde pública
As consequências do idadismo vão muito além do desconforto social. Diversos estudos indicam que o preconceito contra a idade pode comprometer a saúde física e mental, aumentar sentimentos de solidão e desvalorização, reduzir oportunidades de trabalho e, em casos extremos, culminar em violência, seja psicológica, financeira, física ou sexual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o idadismo como um problema de saúde pública, capaz de influenciar políticas e práticas que afetam diretamente a qualidade de vida das pessoas idosas.
Um exemplo recente de debate sobre esse tema ocorreu quando a OMS incluiu, em 2021, o termo “velhice” na Classificação Internacional de Doenças (CID). Após intensas críticas de pesquisadores e ativistas, o termo foi substituído por “envelhecimento associado a declínio na capacidade intrínseca”, justamente para evitar interpretações que reforçassem a visão da velhice como sinônimo de doença. Esse episódio mostra como a linguagem tem poder para construir ou desconstruir preconceitos.
Além disso, o idadismo é constantemente reforçado pela cultura “anti-aging”, expressão usada para designar práticas e produtos que prometem “apagar” os sinais do envelhecimento. Essa cultura reforça a ideia de que envelhecer é algo a ser combatido, e não vivido. As mulheres, em especial, sofrem mais com essas pressões: enquanto cabelos brancos e rugas são vistos como “charme” em homens, nelas são tratados como sinais de descuido ou decadência. Desde os contos infantis, a velhice feminina é associada a figuras negativas, como bruxas ou vilãs, o que contribui para uma visão distorcida e sexista do envelhecer.
Provocar reflexões e orientar práticas
O combate ao idadismo exige reconhecer que ele se manifesta em pequenas interações cotidianas que muitas vezes passam despercebidas. A mudança começa na escuta, na linguagem, na forma de lidar com quem envelhece e na maneira como cada um de nós imagina o próprio futuro. Nesse processo, o gerontólogo tem um papel essencial ao provocar reflexões, orientar práticas e contribuir para que instituições, famílias e comunidades enxerguem o envelhecimento com mais respeito e menos medo.
Essa transformação ganha força quando ultrapassa o campo profissional e alcança a sociedade como um todo. Reconhecer o envelhecer como parte legítima da experiência humana nos permite construir relações mais justas e acolhedoras entre gerações. Ao deixar para trás visões limitadas e estereotipadas, abrimos caminho para um país em que todas as fases da vida têm valor e onde cada pessoa, em qualquer idade, possa viver com dignidade e autonomia.
Referências
KALACHE, A. et al. Pequeno manual anti-idadista: uma obra do Coletivo Velhices Cidadãs. São Paulo: Faz Muito Bem, 2025. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/18mVWY9ddPHmJkanZ5tnZliRU31EX5OCc/view. Acesso em : 03 nov. 2025.
NAOME, L. Após pressão, OMS recua em classificar a velhice como doença. Jornal da USP, 2022. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/apos-pressao-oms-recua-em-classificar-a-velhice-como-doenca/. Acesso em: 03 nov. 2025.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Relatório mundial sobre o idadismo. Washington, D.C.: OPAS, 2022. Disponível em: https://iris.paho.org/handle/10665.2/55872. Acesso em: 03 nov. 2025.
SHARPE, R. et al. Characteristics of elderspeak communication in hospital dementia care. 2022. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0020748922000888. Acesso em: 03 nov. 2025.
(*) Fernanda Beatriz Silva – ABG 485 (UFSCar 012). E-mail: geronto.fernanda@gmail.com
Gabriela Cristina Siqueira – PBG 911 (USP 021). E-mail: gabrielasiqueira@usp.br
Sabrina Aparecida da Silva- PBG929 (USP 021). E-mail: sabrinageronto@gmail.com
Foto de Ron Lach/pexels.
