Aprender a ler aos 70: a história de dona Nelita

Aprender a ler aos 70: a história de dona Nelita

Falar de velhice é falar de direitos, trajetórias e possibilidades, a história de dona Nelita reafirma que envelhecer não é sinônimo de estagnação.


Aprender a ler costuma ser associado à infância, aos primeiros cadernos, às carteiras escolares pequenas, às letras traçadas com mãos ainda em formação. A história de Enelita Canuto Teles dos Santos, a dona Nelita, desmonta essa expectativa, mulher negra, trabalhadora, atravessada por décadas de exclusão, ela só teve acesso pleno à alfabetização aos 70 anos, ainda assim, quando o direito finalmente chegou, foi vivido com intensidade.

A trajetória de dona Nelita ganhou forma de livro pelas mãos da filha, Luana Tolentino, pesquisadora, escritora e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A obra Mamãe Aprendeu a Ler, lançada em 2025, nasce da experiência concreta da mãe ao frequentar a escola pela primeira vez na velhice e descobrir o mundo das palavras.

Um direito negado por toda a vida

Como tantas mulheres negras brasileiras, dona Nelita teve a vida marcada pelo trabalho precoce e pela ausência de oportunidades educacionais. A escola não se apresentou como possibilidade contínua,  o direito à educação foi sendo adiado, empurrado, até quase desaparecer do horizonte.

Esse cenário começou a mudar quando, já sendo uma, ela decidiu se matricular na escola aos 70 anos. A escolha não veio sem medos, aprender a ler depois de uma vida inteira sem escolarização formal exige coragem, mas também exige um ambiente que acolha, respeite e reconheça trajetórias marcadas por desigualdades estruturais.

Na reportagem publicada pela Marco Zero, Luana Tolentino reflete sobre o significado desse processo, para ela, a experiência da mãe escancara o poder transformador da educação e, ao mesmo tempo, a gravidade de quando esse direito é negado ao longo da vida.

Quando dona Nelita pôde, enfim, exercer esse direito em sua plenitude, algo se abriu: não apenas o acesso às letras, mas uma nova forma de estar no mundo.

A alfabetização tardia não aparece, nessa história, como exceção heroica, mas como denúncia silenciosa de um país que ainda falha em garantir educação para todas as idades. Dona Nelita não “superou” obstáculos individualmente, ela enfrentou um sistema que historicamente exclui pessoas negras, pobres e idosas do direito à escolarização.

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Um livro que nasce do luto e da memória

A decisão de transformar essa trajetória em livro veio após o falecimento de dona Nelita, ocorrido poucos meses depois de ela aprender a ler. A escrita foi atravessada pelo luto, mas também pela urgência de registrar uma história que não poderia se perder.

Mamãe Aprendeu a Ler é um livro infantil, mas não apenas para crianças com texto sensível e ilustrações delicadas, a obra convida leitores de todas as idades a refletirem sobre educação, envelhecimento, racismo estrutural e direito à dignidade, ao contar a história da mãe, Luana fala de muitas outras mulheres que seguem invisibilizadas.

O livro tem sido utilizado em espaços educativos e culturais, provocando conversas sobre alfabetização de adultos, memória familiar e a importância de políticas públicas que garantam acesso à educação ao longo de toda a vida.

Falar de velhice é falar de direitos, trajetórias e possibilidades, a história de dona Nelita reafirma que envelhecer não é sinônimo de estagnação, aprender, desejar, sonhar e descobrir continuam sendo verbos possíveis em qualquer idade desde que existam condições sociais para isso. Ao aprender a ler aos 70 anos, dona Nelita não recuperou o tempo que lhe foi roubado, mas mostrou a importância de exercer seu direito.

Créditos
Esta matéria é inspirada e baseada na reportagem Filha conta a história da mãe, mulher negra que aprendeu a ler aos 70 anos, de Jeniffer Oliveira, publicada na Marco Zero. A reescrita respeita o conteúdo original, com adaptação ao estilo editorial do Portal do Envelhecimento.

Foto de destaque: Divulgação/Fred Magno


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