“Abre Alas” traz histórias de mulheres maduras que enfrentaram violências, preconceitos, solidão e invisibilidade, mas que hoje se permitem rir, amar e existir com plenitude.
O documentário “Abre Alas”, que estreia hoje em São Paulo, convida o público a mergulhar em um mosaico de vidas reais de mulheres envelhecidas que se cruzam em espelhos, revelações e renascimentos. Dirigido por Ursula Rösele, com produção de Sanar Produções e distribuição de Embaúba Filmes, emerge como um manifesto sobre a força e a complexidade da experiência feminina no Brasil contemporâneo. Mais do que um filme, é um convite à reflexão profunda sobre as múltiplas facetas do empoderamento, da resiliência e da luta das mulheres por reconhecimento em uma sociedade ainda marcada por profundas desigualdades.
A obra tece um mosaico íntimo e revelador, apresentando as histórias de sete mulheres de origens e histórias de vida diferentes, cujas vidas se entrelaçam para formar um panorama vívido dos desafios e triunfos femininos.
Entre lembranças e confissões, as personagens, já envelhecidas, performam suas próprias vivências, transformando o ato de falar em gesto e o trauma em arte. A obra parte de uma proposta simples: escutar. Em alguns momentos, escutar, inclusive, o silêncio. São mulheres que enfrentaram violências, preconceitos, solidão e invisibilidade, mas que hoje se permitem rir, amar e existir com plenitude.
O documentário mergulha nas temáticas cruciais que moldam a existência das mulheres brasileiras: a persistência da violência de gênero em suas diversas manifestações, a coragem de afirmar uma identidade trans em um contexto hostil, a batalha contra as desigualdades socioeconômicas que perpetuam ciclos de vulnerabilidade, o impacto avassalador do patriarcado nas escolhas e oportunidades, a pressão social para a perfeição e a força inabalável, e a urgente necessidade de cuidar da saúde mental em meio a tantas adversidades.
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“Abre Alas” não apenas expõe essas realidades, mas celebra a capacidade humana de superação e a busca incessante por dignidade e liberdade.

Vozes que abrem caminhos
Walkiria e Lorena: vivências trans em diálogo. A narrativa começa com Walkiria, mulher trans nascida no interior, que desde pequena trabalhou na lavoura e precisou se adequar a papéis masculinos até conquistar autonomia. Mesmo enfrentando preconceito, inclusive na família, ela se afirma inteira:“Eu me sinto tudo isso: mãe, pai, avó, avô… porque me chamam de tudo isso”.
Por outro lado, Lorena teve apoio familiar desde cedo e pôde viver sua identidade de forma mais livre. No entanto, as dificuldades financeiras a levaram à prostituição na juventude. Hoje, ela é respeitada em sua comunidade, onde construiu laços sólidos. “Não é exigir… é só querer respeito e viver feliz”, diz. “Depois de tudo que passei, estar aqui contando minha história já é uma felicidade completa”.
Silvana: entre trabalho precoce e reconstrução de si. Já Silvana cresceu em meio a desafios financeiros. Ao trabalhar como empregada doméstica na adolescência, viu seus estudos serem interrompidos por exigência da patroa. “Eu estava estudando à noite, e minha patroa falou: ‘Você não pode estudar’. E aí eu tive que parar.” Ainda assim, após anos de luta, ela encontrou seu próprio caminho e passou a se amar — algo que hoje considera uma conquista profunda.
Dora: ciclo de violência e afirmação da própria força. De maneira semelhante, Dora percebeu, já adulta, que havia repetido a história da mãe ao entrar em um casamento marcado por agressões e abandono. Entre cuidar da casa, dos filhos e do trabalho formal, vivia dias exaustivos que chegavam a 20 horas. No entanto, esse ciclo não definiu sua identidade. “Eu nunca tive carinho e, quando me dei conta disso, senti muita vergonha. Mas eu não sou apenas uma mulher, eu sou 100% mulher. Não sou um sexo frágil”, afirma.
Regina: entre a dor, o inesperado e o renascer. Regina também traz uma trajetória marcada por dores precoces nos maus-tratos sofridos com os pais adotivos. Já adulta, recebeu diagnóstico de câncer terminal. Ironicamente, foi esse limite que a conduziu à chance de renascer, quando o tumor regrediu inesperadamente. Desde então, vive intensamente: “Agora minha vida é feita de momentos! Eu estou aqui hoje, mas não sei amanhã. Então eu saio, tomo minha cerveja, se der pra dançar, eu danço.”
Sheila e Heloísa: luto, resistência e reconhecimento. Sheila enfrentou uma tragédia familiar que transformou sua vida. Apesar disso, encontrou força na própria capacidade de seguir e reafirma que toda mulher carrega uma potência interna para atravessar a dor.
Por fim, Heloísa compartilha a perda de uma filha para a depressão, refletindo sobre a cobrança constante de ser forte. Segundo ela, essa exigência a afastou de momentos importantes.“Mesmo que ela tenha ido embora cedo, ela foi ótima enquanto viveu.”

“Abre Alas” é mais do que um documentário; é um espelho que reflete as realidades de milhões de mulheres. Ao dar voz a essas sete mulheres, o filme não apenas honra suas jornadas individuais, mas também amplifica a mensagem de que, apesar das adversidades, a resiliência feminina é uma força inesgotável.
É um convite para que cada espectador se inspire, reflita e se junte a essa poderosa corrente de transformação, abrindo alas para um futuro mais justo e igualitário para todas, independente da idade.
Inspiração
A cineasta Rösele, doutora em Cinema pela UFMG e pesquisadora da performance documental, constrói um filme que se equilibra entre o real e o simbólico. Inspirada por autores como Eduardo Coutinho e pela ideia de que “escrever é sanar”, a diretora transforma o set de gravação em um espaço de cura e criação coletiva. “Todo renascimento precede uma morte”, reflete ela. “Para que mulheres possam expressar, desejar e criar, é preciso que toda uma estrutura vibre, ruindo e renascendo”.
Premiado com o Melhor Destaque Feminino no Femina 2025 – Festival Internacional de Cinema Feminino, ABRE ALAS é a escolha de Ursula por “uma rota do coração”, como define a própria diretora.
Fotos: Divulgação

Serviço
Filme Abre Alas
Data: 11 de dezembro de 2025
Horário: 19 horas
Local: Espaço Petrobrás de Cinema (Anexo) – Sala 4
Endereço: Rua Augusta, 1470 – Consolação
Sessão seguida de debate com a diretora Ursula Rösele