O trabalho do psicólogo em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) configura-se como uma possibilidade alinhada à perspectiva do Acompanhamento Terapêutico.
Idealmente, uma ‘Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI)’ é o ambiente que “deve procurar ser uma residência, mostrando, tanto nos seus aspectos físicos quanto em toda a sua programação, detalhes que lembrem uma casa, uma moradia, a vida numa família” (Born & Boechat, 2002).
Portanto, em que pese o fato de se tratar de um ambiente institucionalizado, uma ILPI constitui, ao mesmo tempo, o ‘lar’ ou ‘território’ de seus residentes, não devendo, nesse sentido, ser confundido com os serviços de saúde tradicionais.
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Essa condição demanda, por parte do psicólogo, uma abordagem que se estende para além dos alcances que inerem à prática clínica tradicional. Como devemos pensar o serviço psicológico em uma ILPI?
No âmbito das ILPIs, é frequente a vivência de sentimentos negativos associados (i) à perda de liberdade, (ii) ao afastamento familiar e (iii) à monotonia da rotina. Estes são apenas alguns dos motivos pelos quais a atuação do psicólogo torna-se vital nesse espaço.
Tradicionalmente concebidas como locais de isolamento e ‘morte subjetiva’, há um movimento para transformá-las em campos de apoio social e assistência, focando no cuidado à saúde, acesso à segurança e na manutenção das relações sociais a partir da valorização do caráter terapêuticos dos encontros humanos.
A ANVISA, por exemplo, destaca a necessidade de que as ILPIs apresentem um caráter humano em sua atuação, proporcionando condições de liberdade, dignidade e cidadania.
A literatura destaca a necessidade de equipes multiprofissionais qualificadas para oferecer atenção integral, defendendo a dignidade e os direitos dos idosos, e promovendo a autonomia e qualidade de vida. A autonomia na velhice, contudo, é um ideal a ser atingido, uma conquista permanente que depende de múltiplas condições de saúde, estilo de vida, ambiente, renda e aspectos emocionais, como sensação de ser amado, respeito e liberdade (Peixeiro, 2015).
O Acompanhamento Terapêutico (AT), que surge no campo da saúde mental para enlaçar a loucura ao contexto social, tendo sido introduzido no Brasil com a Reforma Psiquiátrica, tem ampliado seu alcance para o campo do envelhecimento (Peixeiro, 2015): com efeito, loucura e velhice têm percursos que se articulam historicamente pela via da exclusão e asilamento.
Como prática oposta aos modelos asilares, o AT atua no dia a dia da pessoa, em seu ambiente, resgatando vínculos e promovendo a circulação social, subvertendo posicionamentos segregadores. Ele se diferencia do atendimento em consultório ao atuar no dia a dia do paciente, no seu ambiente, na rua ou em sua casa, resgatando vínculos e promovendo a circulação em espaços significativos.
Essa prática se mostra capaz de subverter as lógicas de exclusão (Peixeiro, 2015) e retirar a pessoa idosa do declínio e da decadência, devolvendo-lhe a palavra, a capacidade de pensar, de desejar e de ser sujeito (Maia et al., 2015).

O papel do psicólogo para além dos residentes
O suporte à família e aos cuidadores formais e informais, que também enfrentam altos níveis de estresse e sobrecarga, é uma dimensão crucial do cuidado no contexto da ILPI. As memórias, atreladas às histórias de vida, contribuem para a compreensão da identidade singular desses sujeitos, funcionando como um meio de socialização e um legado a ser valorizado.
Incluir as ILPIs no rol de cenários possíveis para práticas compatíveis com as premissas da clínica ampliada estimula uma visão crítica do cuidado em saúde, desafiando estereótipos de abandono e da falta de desenvolvimento na velhice. As ILPIs devem, para tanto, ser encaradas como o lar dos residentes, e não como um local de caridade, o que, embora seja algo óbvio, nem sempre ocorre.
O psicólogo, nesse cenário, não apenas trata a patologia, mas promove a resiliência, a autonomia e a dignidade, construindo com a pessoa idosa e sua rede de apoio novos sentidos para a vida. Somente assim as ILPIs se constituirão como um espaço de desenvolvimento, no interior dos quais as experiências e potencialidades serão valorizadas à luz do respeito à individualidade que representa um pilar da atenção domiciliar.
Considerações
É urgente a capacitação de profissionais para atuar nesse modelo ampliado de cuidado, o investimento em equipes multiprofissionais que integrem a psicologia de forma proativa, e o desenvolvimento de políticas públicas que reconheçam as ILPIs não apenas como ‘depósitos de mendicância’ ou locais meramente assistenciais, mas como espaços privilegiados para a promoção do desenvolvimento, saúde e dignidade das pessoas idosas, rompendo com rotinas desvitalizadoras e produtoras de estereotipias de condutas, alargar os limites institucionais e fazer com que os idosos se sintam pertencentes e valorizados..
Referências
Alves-Silva, J. D., Scorsolini-Comin, F., & Santos, M. A. dos. (2012). Idosos em instituições de longa permanência: Desenvolvimento, condições de vida e saúde. Psicologia: Reflexão e crítica, 26(4), 820-830.
Baldin, T., & Marcolino-Galli, J. F. (2014). Sobre posicionamento do sujeito frente à rotina institucional: o relato de dois idosos. Revista Kairós Gerontologia, 17(4), 225-243.
Brandão, V. M., Mercadante, E. F., Medeiros, S. A. R., Lodovici, F. M., Concone, M. H. V. B., Lopes, R. G. da C., Côrte, B., & Silveira, N. D. R. (2010). Gerontologia: estado da arte. Revista Kairós-Gerontologia, 12(Especial5), 100-126.
Lopes, R. G. C., Côrte, B., & Brandão, V. (Eds.). (2023). Gerontologia Social Suzana Medeiros: Legado de uma vida dedicada aos estudos do envelhecimento humano.
Foto de Jsme Mila/pexels.
Atualizado às 9h40
