A psicanálise busca assegurar que cada sujeito tenha a liberdade e o tempo necessários para nomear e elaborar sua própria experiência com a perda.
O debate acerca dos limites entre o sofrimento psíquico inerente à condição humana e o diagnóstico de transtornos mentais ganhou um novo capítulo com a inclusão do Transtorno do Luto Prolongado na quinta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). Em artigo intitulado “Luto, Tristeza, Sofrimento: Tempo de Luto e Superação”, publicado originalmente no Nexo Jornal em 09 de outubro de 2026, o psicólogo e psicanalista Arthur Teixeira Pereira propõe uma reflexão crítica sobre a tendência contemporânea de classificar a dor da perda sob a ótica da patologização.
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O DSM-5-TR passou a delimitar o diagnóstico de Transtorno do Luto Prolongado para adultos que, após 12 meses da morte de alguém próximo (ou seis meses, no caso de crianças e adolescentes), mantêm sintomas como dor emocional intensa, saudade constante e dificuldade de aceitar a perda. Com isso, o manual busca separar o “luto sem complicações” daquele considerado patológico.
Arthur Teixeira Pereira resgata a evolução da psiquiatria moderna, lembrando que a tradição iniciada no século XIX por Emil Kraepelin focava na observação e categorização de sintomas. Contudo, o autor questiona as consequências subjetivas e culturais de se transformar o sofrimento psíquico em um diagnóstico formal.
Invocando a psicanálise e as contribuições de Sigmund Freud, especialmente em ensaios como “Luto e Melancolia” (1917) e “Transitoriedade” (1916), o texto contrapõe a simples observação de sintomas à clínica da escuta.
Para a psicanálise, o luto não se restringe à morte de uma pessoa, mas à perda de algo em que se investiu afeto ou sentido — como um ideal, uma causa ou a liberdade.
Ao perder alguém significativo, o enlutado também perde a posição que ocupava diante dessa pessoa, deslocando a reflexão do “quem morreu?” para o “o que de mim morreu junto?”.
Há perdas que deixam lacunas insuperáveis, onde a realidade psíquica da pessoa falecida permanece viva na memória e na história de quem ficou.
O autor pondera que o diagnóstico do luto prolongado surge, em parte, de um esforço legítimo em reconhecer o sofrimento extremo. No entanto, aponta que o problema reside em uma exigência social e cultural por desempenho e produtividade constante. Em uma sociedade acelerada, a tristeza que perdura é enxergada como uma interrupção incômoda do ritmo produtivo.
A psicanálise não busca perpetuar a dor, mas assegurar que cada sujeito tenha a liberdade e o tempo necessários para nomear e elaborar sua própria experiência com a perda.
Nota de Publicação
O artigo original foi escrito por Arthur Teixeira Pereira, psicólogo, psicanalista, professor do Unisuam e doutorando em psicanálise pela UERJ, e publicado em 09 de outubro de 2026 na seção de Ensaios do Nexo Jornal. Acesse o ensaio completo na íntegra no Nexo Jornal: Luto, tristeza, sofrimento: tempo de luto e superação.
Foto de Teona Swift/Pexels
