A mesa da saudade: um banquete intergeracional

A mesa da saudade: um banquete intergeracional

Ao longo da vida nos unimos e nos afastamos, formando uma rede de relações, o nosso átomo social.


A ansiedade borbulhava no peito miúdo, enquanto os pezinhos descalços deslizavam rapidamente pelo piso frio do corredor. Já era quase hora do almoço, e a promessa pairava no ar como um aroma delicioso. Da entrada estreita, a figura paterna se delineava na cozinha, banhada pela luz suave que entrava pela janela. Ele estava ali, em pé junto ao balcão, o rosto calmo emoldurado por um olhar que parecia aguardar algo especial.

E a visão se abria para o coração da casa: a cozinha, onde uma mesa robusta de madeira escura dominava o centro, vestida com a delicadeza de uma toalha branca de renda, cujos desenhos florais pareciam dançar na luz. Ao redor, cadeiras em número convidativo aguardavam a reunião familiar. Mas eram os tesouros sob a mesa que realmente prendiam a atenção da criança: duas tigelas fartas — uma com a superfície dourada e apetitosa do arroz de forno; a outra, com o brilho açucarado do arroz-doce, salpicado de canela. E, como joias comestíveis, um punhado de balas de coco, embrulhadas em papel celofane colorido, selavam a composição daquele quadro tão icônico e particularmente especial.

Também o aroma quente e reconfortante do café fresco pairava denso no ar, envolvendo tudo num abraço olfativo, reavivando uma espécie de acalento morno no peito. Mas esse cheiro familiar se misturava a outro, doce e tentador, que fazia as narinas da criança se dilatarem em expectativa: ah, aquele sabor!

Em um rapto quase instantâneo daquele fluxo de sensações, a porta da cozinha se abriu novamente, inundando o ambiente com mais vozes e sorrisos. Primeiro surgiu a mãe, e seu semblante irradiava a mesma serenidade acolhedora do pai, trazendo consigo uma energia suave, familiar e reconfortante. Logo atrás vinha a tia Antônia, com seu jeito caloroso e inconfundível, já gesticulando e falando animadamente. E, para completar o animado grupo, as vizinhas Doíde e Maria surgiram lado a lado, com os olhares curiosos varrendo a mesa posta e transparecendo evidente aprovação. Em meio ao burburinho, na cadeira da cabeceira, muito rapidamente se instalou o recém-chegado Sr. Tsutomu, o vizinho de semblante tranquilo e sorriso discreto, observando a movimentação com seus olhos calmos e atentos.

As conversas seguiam alegres e se sobrepunham em ondas de vozes animadas, pontuadas por explosões de riso que ecoavam pelas paredes da cozinha iluminada. A toalha branca de renda se tornou o epicentro da convenção. A criança, um pequeno furacão de energia e afeto, circulava pela mesa exalando uma urgência adorável — ora agarrando as mãos de um, sussurrando segredos a outro, ora distribuindo abraços rápidos em sua ânsia de se conectar com cada rosto ali presente. Seus olhos brilhavam com a alegria contagiante de estar cercada por aqueles que amava, absorvendo cada palavra, cada gesto, como se temesse perder um só instante daquela preciosa reunião. Aquele pedaço de madeira, antes apenas um móvel, pulsava agora com o calor humano e com a magia dos laços familiares e da amizade.

A cena descrita e compartilhada em doces reminiscências ecoa minha experiência como protagonista durante uma sessão de psicodrama, explorando a dinâmica de “O Banquete”. Trata-se de um mero recorte, pois a vivência transcende qualquer descrição.

O psicodrama nos convida a entrar no mundo do “como-se”, um espaço de realidade suplementar onde podemos explorar a nós mesmos e nossas relações de maneira simbólica e expressiva. Zerka Moreno (2001) define realidade suplementar como uma experiência cósmica, por ultrapassar a objetividade e subjetividade do indivíduo, estando aquém de cronologias e do mundo físico.

Com ele, podemos revisitar o passado ou imaginar o futuro a partir do presente. O tempo, tal como o entendemos, é um produto da nossa cultura, e não uma entidade fixa — “é uma conserva cultural”. Ainda, a autora cita que, para transitarmos no tempo “congelado”, podemos “utilizar a nossa espontaneidade e criatividade”.

Ao me deparar com o banquete da fome e da sede, tanto em termos de imagens quanto no campo emocional, a pergunta se impôs: quem se apresenta nesse encontro entre corpo e alma? Quais alimentos, pessoas e cenas surgem no aqui e agora?

Ao descrever a cena, percebi que todos ali presentes eram velhos, e que eu era a única criança. Uma mesa intergeracional e com diversidade não só etária, mas racial e de gênero: negros, pardos, brancos e amarelos; mulheres e homens. Sem lugares marcados, pairava a liberdade de expressão.

A mesa pode ser vista como uma representação da vida, um espaço onde se manifestam tanto a igualdade quanto a desigualdade, a hierarquia quanto a simetria (Barcellos, 2022).

Que fios invisíveis da minha psique trançaram esse roteiro, esse cenário, convocando esse elenco tão caro ao coração? A explicação reside na doce lembrança do afeto que me unia a cada um deles, figuras importantes que transcendiam os laços de sangue. Eram meus vizinhos, meus amigos, cúmplices de tantos momentos felizes, gravados indelevelmente em minha memória, revelando uma família de alma. Cresci em sua companhia, partilhando uma jornada intergeracional. E hoje, neste banquete singular, a psique me presenteou com a emoção de revivê-los em uma cena inédita: a reunião de todos aqueles que tanto significaram para mim, reunidos enfim, mesmo que nunca tenham compartilhado a mesma mesa em vida. Uma celebração póstuma, um tributo da alma àqueles que se foram.

O banquete é um lugar de encontro não só de corpos, mas também de almas, onde as histórias se entrelaçam e as emoções se manifestam. A experiência de comer junto fortalece os laços entre as pessoas, construindo cumplicidade e união. A mesa, a cozinha e a comida se tornam símbolos de amizade e fraternidade, alimentando não só o corpo, mas também o espírito (Barcellos, 2022).

A cena foi cuidadosamente dirigida, e o diretor me pediu para escolher o primeiro prato e quem o serviria. Então, meu pai, Arlindo, surgiu para me oferecer o melhor café do mundo, feito por ele. Naquele momento, fui tomada por um sentimento de alívio e imensa alegria: um encontro agora tão esperado, especialmente por ocorrer após um ano de sua ausência. A direção me incentivou a tomar o papel dele, falando sobre mim e revelando mais uma potência da nossa relação. Nessa tomada de papel, suas palavras ecoaram o profundo amor que nos unia e os papéis de pai e filha que sempre desempenhamos — laços que se fortaleciam a cada olhar e encontro.

Desfrutei, durante minha vida, de cada aprendizado: da postura firme e segura de minha mãe; da serenidade e sabedoria de Dona Maria e da Doíde; da espontaneidade e coragem de minha tia Antônia; e da disposição e atenção do Sr. Tsutomu, que consertava minha bicicleta e me levou a uma quebra de conserva, quando me devolveu a bicicleta que antes era branca, com o paralamas pintado de azul. Na infância, a espontaneidade ainda não estava tão bloqueada e ‘conservada’, era mais um pulsar pela vida.

A psique capta as nuances da relação entre nossa alimentação e nosso bem-estar (Barcellos, 2022). Eternizei o arroz de forno que a minha mãe fazia, o arroz-doce da Dona Maria, as balas da Doíde e o café do meu pai.

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Zerka Moreno (2001) relatou que, ao observar crianças, Moreno percebeu que o ser humano possui uma “fome de ação”.

Depois, fui convidada a atualizar a mesa na vida adulta e a compor com a fome e a sede da alma. Nessa composição, vi que os anseios e o propósito de vida também estão interligados com a mesa da cena da infância, pois todos aqueles velhos amigos, com quem caminhei ao longo da vida nos papeis e contrapapeis de filha, amiga, vizinha e sobrinha, transmitiram e ensinaram valores importantes para a construção da minha identidade.

Tanto é que a minha psique me levou a essa construção de cena, também impulsionada pela saudade e pelo luto que elaboro dos meus pais e dos amigos que me fazem muita falta.

E agora, no luto, a psique demanda uma reorganização para restabelecer um “eu” individualizado após a experiência de um “eu” relacional. A pergunta que nos confronta é: quem sou eu quando essa conexão se desfaz? (Kast, 2024).

Moreno nos lembra que somos mais do que seres definidos por aspectos econômicos, psicológicos, biológicos ou sociológicos; antes de tudo, somos seres cósmicos, destinados a retornar a essa origem.

O autor também faz menção ao envelhecimento: ao longo da vida, nos unimos e nos afastamos, de acordo com a sociometria, formando uma rede de relações, o nosso átomo social. E, quando vivenciamos a morte social, ele reforça a necessidade de o idoso reconstruir o seu átomo social, buscando novas pessoas para amar e se relacionar. “A morte de uma pessoa está ligada à morte de muitas outras” (Moreno, 1947).

A experiência no “como-se” do psicodrama, materializada na cena do banquete, permitiu um mergulho profundo nas raízes da minha identidade e nas dinâmicas relacionais que a moldaram. O luto, embora presente, não silencia a força dos vínculos e os aprendizados absorvidos àquela mesa. A reorganização do “eu” no presente se nutre dessas memórias, impulsionando um movimento de continuidade e transformação, onde a saudade se transmuta em força para seguir adiante.

A fome que guiava aqueles passos rápidos não era apenas por alimento, mas por segurança emocional, pelo calor dos laços familiares e pela certeza de um ambiente acolhedor, onde a sede de afeto seria plenamente saciada.

“Comer é alimentar a alma. É a alma quem, de fato, come” (Barcellos, 2022)

Referências
MORENO, Jacob Levy. Sociometria: Método Experimental e a Ciência da Sociedade. Tradução de Yvette Betty. São Paulo: FEBRAP, 2020.
BARCELLOS, Gustavo. O Banquete de Psique: Imaginação, cultura e psicologia da alimentação. Petrópolis: Vozes, 2022.
KAST, Verena. Tornar-se um consigo mesmo: Identidade e autoestima num mundo complexo. Tradução de Milton Camargo Mota. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024.
MORENO, Z.; RUTZEL, T.; BLOMKVIST, L. A realidade suplementar e a arte de curar. Tradução de Eliana Araújo Nogueira do Vale. São Paulo: Ágora, 2001

Imagens: Silmara Simmelink. Foto de destaque: divulgação da série Friends.


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Silmara Simmelink

Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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Psicodramatista formada pela Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama. Psicóloga graduada pela Universidade São Judas Tadeu. Especialista em Gerontologia pelo Albert Einstein e fez curso de extensão da PUC-SP de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Pós graduada em psicanálise pela SBPI e Sociopsicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP. Atua em clínica com abordagem psicodramática e desenvolve oficinas terapêuticas com grupos de idosos. É consultora em Desenvolvimento Humano e especialista em psicologia organizacional titulada pelo CRP/SP. E-mail: ssimmel@gmail.com

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