Uma história da vida

Uma história da vida

O filme “Valor Sentimental” é entremeado por não-ditos, despertando todo tipo de reação, a depender da vida até então vivida.


Talvez eu seja suspeita, mas quem ainda não assistiu ao filme “Valor Sentimental” não sabe a delicadeza que perde na vida, a reflexão sobre as difíceis relações humanas, o vai e vem de sentimentos e emoções, muitas vezes incontroláveis e, porque não dizer, insuportáveis de tão intensas que são.

Além disso, ainda temos os efeitos do tempo, uma trajetória que com o avanço dos anos, torna tudo muito mais sensível, à flor da pele. Um “risco” sequer, pode por uma “vida”, supostamente escolhida, a perder.

Hoje, refiro-me a essa bela história de família, de arte, de encontros e muitos desencontros. Com a direção de Joachim Trier, o drama é protagonizado pelo ator sueco Stellan Skarsgård. Destaco o filme “Ficaremos bem”, há algum tempo nos streamings, e a belíssima série “River”, um verdadeiro delírio poético. Nas referências coloco os dois respectivos trailers para você se deliciar e, quem sabe, aguçar seu interesse.

Bem, “Valor Sentimental” viaja pela relação de um pai e suas duas filhas, personagens que apesar de fictícios, tornam-se reais, cada qual com seus próprios conflitos existenciais, intrínsecos a própria subjetividade e, para reforçar, ainda somos assolados pelas inevitáveis marcas do tempo e suas consequências: relações interrompidas, palavras embargadas, silêncios que falam.

Quando tudo atinge o ápice da emoção, nada mais danoso que as explosões que chegam em verdadeiras enxurradas de palavras, algumas com sentido e significado, outras simplesmente vomitadas por ressentimentos nutridos por anos, conduzindo a faíscas que ferem, certeiras, diretas e profundas. E tudo acaba por vir à tona.

O mundo das humanidades é entremeado por não-ditos, até por isso que um mesmo filme desperta todo tipo de reação, a depender da vida até então vivida, das relações construídas com dedicação e empatia e igualmente das relações áridas, gélidas, frias, uma secura que impede o trânsito das palavras.

Entretanto, nada disso quer dizer que não haja ou um dia não houvesse amor e troca entre pais e filhos. Fica sempre um enorme ponto de interrogação angustiante, talvez, uma desejada exclamação.

Foto: moviexchange

E o passado invade…

Na história, Stellan Skarsgård  veste a pele do famoso diretor Gustav Borg, um homem que nada produziu nos últimos dez anos, é mais ou menos quando sentimos um imenso buraco na alma, o vazio das palavras, até as pensadas e não explicitadas.

Com a morte da ex-mulher, Gustav tenta uma reaproximação com as duas filhas, a complexa e sofrida atriz de teatro Nora (Renate Reinsve) e a historiadora Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), aparentemente a apaziguadora da relação entre a irmã e o pai, uma espécie de mediadora das diferenças semeadas ao longo da vida, mas ela existe e ela também tem suas próprias questões não tratadas, silenciadas.

Como recuperar e “alinhavar” os remendos das relações?

Podemos dizer que Nora e Gustav ocupam o mesmo lado da moeda, cada qual com seus ressentimentos, cada qual tomado pela arte, cada qual determinado com sua própria convicção. Tantos pontos comuns e, ao mesmo tempo, tanta distância, talvez intransponível.

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Em meio a toda tensão, surge Rachel Kemp (Elle Fanning), uma jovem promissora atriz que vem a integrar o projeto de Gustav de retratar a história da família. Importante ressaltar que a protagonista seria Nora que nega veementemente ocupar esse papel e ainda a aproximação inevitável e constrangedora com o pai.

Rachel, Nora, Agnes, a falecida mãe de Gustav, todas essas figuras femininas ressaltam ainda mais a tensão, a insegurança, as múltiplas expectativas de reconhecimento, pertencimento e amor. Só restam mágoas, desacertos e aflição.

O diretor Joachim Trier constrói uma história da vida de todos nós, com suas lacunas, vazios, desconfortos, tentativas de aproximação e certezas de afastamentos.

Isso é cinema, cinema que faz pensar nas nossas famílias, em como as relações se fizeram e se desmoronaram com o tempo e, finalmente, o que resta a fazer.

Onde foram parar as palavras, a comunicação, a troca? O que o tempo fez de todos nós?

Valor Sentimental explora, creio, silenciosamente e com extrema suavidade o mundo interno, as ausências, os conflitos, os prazeres e as dores de todos os dias.

Referências
Trailer “Valor Sentimental”: https://www.youtube.com/watch?v=tqvQBmvrCSs
Trailer “Ficaremos Bem”: https://www.youtube.com/results?search_query=ficaremos+bem+trailer
Trailer “River”: https://www.youtube.com/watch?v=bhsR7Fp__TE
Dance of River: https://www.carolinepope.com/videos/river/

Serviço
Você pode assistir ao filme “Valor Sentimental” (ou Sentimental Value) no Prime Video (Amazon) ou procurar por sessões em cinemas como GNC CinemasBelas Artes e Reserva Cultural através do Ingresso.com, pois ele esteve em cartaz recentemente e foi um dos mais indicados ao Globo de Ouro, com opções de exibição em várias cidades brasileiras e plataformas como MUBI

Foto destaque: Kasper Tuxen/Divulgação


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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Membro da Comissão Editorial da Revista Kairós-Gerontologia. Coordenadora do Blog Tempo de Viver do Portal do Envelhecimento. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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