Pessoas idosas, sim, porém úteis

Pessoas idosas, sim, porém úteis

O que mais almejamos, nós, pessoas idosas, é uma vida mais comunitária, mais acompanhada, com mais troca de informações e troca de afetos.

Paulo Cezar S. Ventura (*)


Minha lista de amigos idosos e amigas idosas ainda úteis é bem grande. Somos aqueles que se enquadram na classificação de pessoas idosas pelo fato de termos mais de sessenta anos, alguns até bem mais que isso, mas não somos velhos inúteis e dependentes. Mas será que é isso que a maioria das pessoas pensam de nós? Darei alguns exemplos, com nomes alterados, pois não tenho autorização para identificá-los. Eles existem, no entanto.

Sônia, setenta anos. Bióloga e professora aposentada, advogada, dirigente classista, mãe e avó. Sai todos os dias para o trabalho. Atende clientes, passeia, ouve música, canta e cuida de sua própria casa e de seu jardim. E ainda cuida do marido com problemas de saúde.

Denílson, oitenta e dois anos. Marceneiro de primeira, ainda aceita trabalhos de madeira como armários, cadeiras, mesas, guarda-roupas. Desenha, mede, compra o material, constrói e entrega o produto finalizado na casa do cliente. Às noites e fins de semana pega o violão e toca suas músicas preferidas.

Nilde, setenta anos. Matemática e professora aposentada. Participa de clubes de leitura, rodas de conversa, conta anedotas que fazem todos à sua volta rirem até às lágrimas. Ajuda sua sobrinha neta mãe solteira a cuidar da filha (sua sobrinha bisneta, portanto) que é uma criança especial.

Mário, setenta e dois anos. Cantor e repentista, passou todo o carnaval trabalhando como cantor e ritmista de banda de bloco carnavalesco. Fora do carnaval ensina música aos netos, canta em aniversários de seus contratantes e dá shows em bares.

Regina, sessenta e três anos. Artista plástica, poeta e produtora cultural. Incentiva e ajuda todos os seus amigos escritores a publicarem seus livros. Com dois filhos, ela acompanha o desenvolvimento dos netos, ficando com eles quando os pais estão viajando a trabalho.

Chico, oitenta e cinco anos. Dentista aposentado, mora com a esposa e a filha especial, que toma remédios controlados e tem problemas psíquicos. Mas é Chico que ainda leva seus netos à escola todos os dias.

Paulo, setenta anos. Professor aposentado, é poeta, cronista e contista. Publica pelo menos um texto por dia, em revistas e sítios online e organiza livros de outros autores para publicação, fazendo a necessária revisão e aconselhamento literário. Atua também como consultor de projetos para solução de problemas pessoais e organizacionais.

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Caio, setenta e sete anos. Escritor, cordelista, serigrafista, luthier, constrói rebecas e violões. Ainda participa como ritmista de uma banda de percussão acompanhando um conhecido cantor e artista popular em suas apresentações. Canta também em um coral.

Imagem cedida por Vidas Idosas Importam

O que todas essas pessoas têm em comum? São pessoas idosas, porém ativas, muito ativas. Além disso, nenhuma delas foi consultada sobre as importantes questões que afetam a vida das pessoas idosas. Sabemos que os conselhos existem a nível federal, estadual e municipal. Os gestores públicos gerenciam o legado do Estatuto da Pessoa Idosa, colocam os conselhos e centros de convivência disponíveis para atuação como serviço público, mas não se preocupam em saber se estão, de fato, prestando um serviço adequado às pessoas idosas.

A maioria dos ativistas do envelhecimento saudável, do combate ao idadismo, são assistentes sociais, gerontólogos, psicólogos e fisioterapeutas. São profissionais que, em geral, estão preparados, tecnicamente, para a função. E o fazem com profissionalismo e carinho. E os conselheiros e servidores públicos que fazem o atendimento à pessoa idosa nos centros de convivência? Basta que sejam tecnicamente preparados? Como ouvir e entender as dores das pessoas idosas? Como saber da solidão, das dificuldades, principalmente aquelas que não contamos para ninguém, mas que precisam ser esclarecidas?

Nós, pessoas idosas, não temos uma presença representativa nos Conselhos, então, como poderão saber de nossos problemas e como nos ajudar a resolvê-los? O que mais almejamos, na verdade, é uma vida mais comunitária, mais acompanhada, com mais troca de informações, mas, principalmente, com mais troca de afetos. Uma presença e acolhimento afetuosos, não apenas uma presença técnica. Os servidores públicos, a maioria na função por uma canetada política dos prefeitos, darão conta desse acolhimento afetuoso?

(*) Paulo Cezar S. Ventura – escritor e professor, Licenciado e Mestre em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e Informação pela Université de Bourgogne, França. Membro do movimento Vidas Idosas Importam. E-mail: [email protected]. Instagram: @paulocezarsventura.

Foto destaque de Andrea Piacquadio/pexels


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