Há algum tempo, num certo lugar…

Há algum tempo, num certo lugar…

Todos temos um cantinho e uma época que nos trazem boas lembranças. O meu chama-se Piabetá. O tempo dos anos 50, 60, não voltam mais.

Walcemir de Azevedo de Medeiros (*)


Quase todo mundo se conhecia. Alguns eram conhecidos de todos. O padre era o Frei Acúrcio. Militão era dono do armazém. Perto de minha casa, havia a mercearia do Sato. Acho que por causa dele a rua ficou conhecida como rua do Japonês. Calil era regente da banda e mágico. Ele tinha uma sala de espetáculos no centrinho da cidade. Dentre outras mágicas, ele trancava uma jovem numa jaula e a transformava em Telma, a mulher-gorila. Ela não gostava muito de ser transformada, porque ficava muito feroz. Urrava e dava murros até quebrar a porta da jaula, o que fazia a criançada toda fugir do salão. Com o tempo, não fugíamos mais da sala, pois percebemos que além de maestro e mágico, Calil era também encantador de gorilas. Ele conseguia acalmar a fera e fazê-la voltar à forma humana.

O cinema era do Leopoldo. Em preto e branco, assistíamos ali às façanhas dos caubóis. Os barbeiros eram o Antenor, o Nilo, o Zezinho e o João Português. As máquinas de cortar cabelo eram manuais. Faziam um irritante claque-claque-claque ao nosso ouvido com o movimento frenético de seus dedos. Eles envelheciam trabalhando. Nunca apresentar problemas nas mãos. Acho que naquele tempo ainda não havia a tal lesão por esforço repetitivo. Talvez porque ainda não existia mouse de computador. O Moisés apareceu depois. Além de cortar nosso cabelo, Moisés era goleiro do Piabetá, time que tinha uniforme idêntico ao do Flamengo. Depois de um tempo, o João Português trocou de atividade. Deixou o salão e abriu um restaurante em que servia comidas que para nós eram um pouco estranhas, tais como guisados de tartaruga ou testículos de touro. Regalos de além-mar, ele falava.

Foto: Nathan Engel/pexels

O cinema ficava na avenida Caioaba, que era a principal rua. Em paralelo com a rua, corria um riozinho. Em frente ao cinema, depois da rua e do riozinho, ficava a pracinha, que tinha um coreto onde a banda do Calil tocava em dias festivos.

No começo, só havia escolas municipais, com as primeiras séries do primário, mas certo dia a escola estadual chegou com o primário completo. Era o grupo escolar, como nós conhecíamos. Não havia professoras suficientes na cidade. Elas vinham de Niterói, de kombi. Eram muito elegantes. Usavam salto alto. Estudei no grupo por dois anos. Quarta e quinta séries. Minha professora na quarta série era a Maria do Rosário. Apaixonei-me por ela. Foi minha primeira paixão séria. Talvez por isso tenha me tornado bom aluno só a partir daquele ano. Não sei como conseguia essa proeza, porque minha atenção ficava dividida o tempo todo. Uma parte de mim era concentração na aula; a outra, devaneios. Enquanto ela ensinava o m.m.c. e os afluentes do lado esquerdo do rio Amazonas, nós saíamos de mãos dadas a caminhar.

Às vezes, fazíamos piqueniques em bosques gramados e floridos. Eu também a levava para passear na garupa de meu imaginário cavalo branco chamado Silver, mesmo nome do cavalo do Zorro, o herói mascarado das balas de prata. Rosário nunca soube desses passeios. Ela também não sabia, mas ao fim das aulas eu a esperava no portão para ver a elegância com a qual ela parecia flutuar sobre a rua irregular de paralelepípedos tortos da rua Brasil, desde o portão da escola até a kombi que a levaria de volta a Niterói. Nem mesmo a garota que encantava Tom e Vinícius em Ipanema conseguiria usar salto alto com tanta graça como Rosário.

O transporte de massa era o trem, puxado pela maria fumaça. Num sentido, o trem ia para Petrópolis, passando antes por Fragoso e Raiz da Serra. Em sentido contrário, havia duas linhas, porque na estação desse meu lugar havia um entroncamento de linhas férreas: uma linha ia para Barão de Mauá, no centro da cidade do Rio de Janeiro; a outra, para o Porto Mauá, ao fundo da Baía de Guanabara. O trecho que ia do Porto Mauá até Fragoso foi a primeira ferrovia do Brasil, inaugurada em 1854 por D. Pedro I. A subida para Petrópolis era interessante, porque ao chegar em Raiz da Serra, a maria fumaça comum era trocada por outra, que funcionava com cremalheiras, rodas dentadas. É que dali em diante precisava subir a serra. O trem subia devagar, dando solavancos. Naquela época, ainda não havia problemas de coluna. Assim como os dedos dos barbeiros, a cervical dos passageiros de trem de então era mais resistente que a dos passageiros de hoje.

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Inicialmente, havia muito espaço vazio na cidade, mas depois lotearam tudo. Uma das primeiras imobiliárias a abrir loteamentos urbanos, penso que foi a do Durval. Depois vieram a do Ranulpho e a do Salgado. Ranulpho era também presidente do Piabetá Esporte Clube. Com os loteamentos, a população foi crescendo aos poucos. Só que o comércio era fraco e não havia indústrias, então não havia emprego para todos. A maioria das pessoas trabalhava no Rio; algumas, na fábrica de tecidos que ficava em Pau Grande, localidade bem próxima. Nessa mesma fábrica, alguns anos antes, trabalhara Garrincha. Meu tio Hélio, que morava em Pau Grande e era operário da fábrica, contava que ele e o craque eram conhecidos próximos e que de vez em quando até tomavam uma cervejinha juntos.

Por falar em futebol, a pelada de rua era a brincadeira favorita dos meninos. Havia também temporada de pipa, pião e bola de gude nas modalidades búlica, triângulo ou mata-mata, mas o futebol era prioridade. Os campos eram improvisados na rua ou em algum terreno vazio. Não tinham grama. Não eram retangulares. Não eram planos. Alguns, nem mesmo horizontais. Quando eram assim, inclinados, o time que perdia o par-ou-ímpar tinha que atacar ladeira acima. Meninos mais afoitos conheciam todos os campinhos da cidade. Eu era um deles. E eu jogava muito. Em quantidade, que fique claro.

Todos temos um cantinho e uma época que nos trazem boas lembranças. O meu chama-se Piabetá. Ainda hoje pode ser encontrado bem ali, a meio caminho entre o Rio de Janeiro e Petrópolis. A época, anos 50, 60, essa não volta mais. A saudade por vezes aperta o peito. Saudade da época, do lugar, das pessoas. Dá vontade de voltar para lá, no lugar e no tempo, rever amigos, bater uma bolinha, talvez encontrar a Rosário, convidá-la para um passeio à garupa do Silver ou, quem sabe, levá-la ao cinema do Leopoldo e assistir a uma comédia romântica daquelas em que, ao final, mocinho e mocinha vivem felizes para sempre.

(*) Walcemir de Azevedo de Medeiros, 67 anos. E-mail: [email protected].

Foto destaque de Alan Wang/pexels


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