Neste filme o idoso é o retrato do atraso, do conformismo, da tradição, é o guardião da crendice e da superstição. É representado inicialmente pela mãe do herói, treinada para ser a vigilante do lar, e socialmente pelo conselho dos anciões, cuja palavra tem força de Lei.
O título em português não é dos mais felizes: Homem-absorvente. Mas não julgue o filme pelo título, ele é baseado em uma história real e muito bem-feito. O roteirista usou todos os ingredientes de sucesso listados por Campbell na sua jornada do herói para resumir uma luta de 15 anos em 140 minutos de entretenimento. O herói real tem nome e sobrenome: Arunachalan Murungananthan. No filme, o herói atende pelo nome de Lakshmikant Chauhan (Akshay Kumar), um homem prático e inventivo. O diretor nos transporta inicialmente para uma Índia de cores vibrantes, música apaixonante, tudo muito lindo.
As habilidades do nosso herói são destacadas no dia a dia ao criar um cortador de cebolas para não ver a mulher chorar enquanto prepara a comida, ao adaptar um acento para transportá-la confortavelmente na sua bicicleta etc. É sócio de uma oficina e adquire seu conhecimento graças a sua capacidade de observação. Mora com a mulher, a mãe e duas irmãs. É um homem cercado por mulheres de um lado e, por outro, vive executando trabalhos engenhosos e criativos.
CONFIRA TAMBÉM:
A jornada do nosso herói não começa quando nasce, casa ou se torna sócio de uma oficina de consertos, começa quando observa um fato corriqueiro entre as mulheres, mas que é ignorado pela maioria dos homens por ser um problema delas ou por não poderem fazer nada diante de um fenômeno da natureza.

A cena: nosso herói almoça com sua bela família quando sua mulher, Gayatri (Radhika Apte), deixa a mesa apressadamente e não retorna mais. Ele questiona a mãe e as irmãs, ninguém explica a ausência da mulher nem permite que ele vá atrás dela. A mãe o orienta a deixá-la em paz e não se aproximar dela nos próximos dias. Por quê? Porque é como tem que ser.
Nosso herói dá um jeito de se aproximar da mulher e a flagra ao anoitecer pendurando um pano roto e manchado para secar escondido embaixo de uma saia. Uma ação clandestina e suspeita. Mas ele logo deduz que a mulher menstruou e a questiona se realmente precisa se isolar por conta daquilo. A mulher encara a pergunta como um desaforo. Ou seu marido é ingênuo e não percebe que ela está impura e, de acordo com as tradições milenares, deve permanecer no seu canto para não contaminar os outros. Portanto, ele não pode tocá-la, da mesma forma que ela não pode tocar em nada fora daquele quarto.
É esta crendice que nosso herói irá combater no filme, mas primeiro precisa resolver um caso prático e imediato, convencer a mulher a trocar o trapo sujo por absorventes regulares, que existem nas principais farmácias de acordo com a propaganda na TV, embora nunca expostos, vendidos por baixo do pano a boca pequena como um produto ilegal. A urgência se torna maior ao descobrir por meio de um médico que os panos usados pelas mulheres são responsáveis anualmente por infecções e mortes de milhares de indianas em pleno século 21.
Nosso herói vai à farmácia e pede um pacote de absorventes, mas quando vai pagar se espanta com o valor absurdo cobrado por um tico de algodão forrado por um plastiquinho. Compra assim mesmo, mas sua mulher se recusa a usar porque o preço é inviável e não acha justo usar sozinha, pois sabe que as irmãs do herói não terão a mesma sorte. Nosso herói insiste e sua mulher quer saber como ele vai fazer para comprar todo mês?
– Todo mês?
Nosso herói se escandaliza ao descobrir que todo mês milhões de mulheres perdem mensalmente de cinco a seis dias de suas vidas, ou seja, dois meses por ano por conta do sangramento. O prejuízo não é só doença e morte, afeta toda a economia do país. A luta é de gigante. Mas, como tudo na vida, um passo de cada vez.
Nosso herói tenta resolver sozinho a questão do absorvente com base na sua técnica precária da observação. Quebra a cara e afunda cada vez mais no poço sem fundo que costuma tragar todos os candidatos a herói. Seu maior problema é não contar com um mentor, pois não existe um idoso sábio na aldeia. Neste filme o idoso é o retrato do atraso, do conformismo, da tradição, é o guardião da crendice, da superstição e do preconceito. É representado inicialmente pela sua mãe, treinada para ser a vigilante do lar, para manter as mulheres da casa na ignorância, e socialmente pelo conselho dos anciões, os sábios da aldeia cuja palavra tem força de Lei e que determina o fim do nosso herói, sua morte simbólica, o ostracismo.
Nosso herói deixa a aldeia, escorraçado como um cachorro sarnento, abandonado pela mulher, pela própria família, por todos. Por outro lado, a jornada é sua redenção, pois segue em busca de conhecimento para dar a volta por cima, cumprir sua missão, retornar nos braços do povo e reconquistar sua amada. Esta é a receita básica de 99 em cada 100 roteiros. A diferença é que este é baseado em uma história real e emocionante.
Ah, temos mais um idoso no filme, um idoso moderno que irá destoar dos demais, dos conservadores. No último terço o herói encontrará uma aliada, Pari Walia (Sonam Kapoor), que é também um misto de pícaro e mentora, influenciada e apoiada pelo pai que representa o outro lado da sombra que são os idosos da aldeia que defendem a tradição com venda nos olhos, e que ajudará a filha a mostrar para o herói que existem muitos caminhos para se alcançar o elixir da vida.
A atuação desta atriz deixará a todos com um gosto amargo na boca, pois ela é o par romântico ideal para o herói de acordo com nossa visão ocidental, mas para isso ele teria que quebrar outra tradição e Padman é antes de tudo um herói de aldeia, seu pensamento não vai muito além dos grotões que representa e sua luta está só no começo porque uma coisa é trocar o pano pelo absorvente e outra é quebrar o tabu por trás da menstruação feminina.