O Velho Henry quer viver em paz em um mundo que cultua a guerra

O Velho Henry quer viver em paz em um mundo  que cultua a guerra

O Velho Henry acredita ter mostrado ao filho adolescente que sair por aí portando uma arma não vale a pena, a não ser que queira conviver com a morte


O faroeste é um gênero em baixa, mas tem seus adoradores e quem ouse transformá-lo. O Ataque dos Cães, por exemplo, é simplesmente imperdível, ganhando o Oscar 2022 de melhor direção (Jane Campion), um drama no qual a exibição de armas de fogo e os tiroteios sem fim são deixados de lado. Já em Old Henry, a estética é a tradicional, a luta do bem contra o mal, do mocinho contra o bandido, a ausência do Estado como garantia de segurança, o salve-se quem puder.   

O filme Old Henry se passa no início do século passado, 1909, no Velho Oeste americano, terra sem lei, onde tudo era resolvido na bala. Henry é representado por Tim Blake Nelson que em 2021, quando o filme foi produzido, estava com 57 anos. O fazendeiro é viúvo e mora na companhia do filho único, adolescente, em um rancho no meio do nada. Vive da criação de porcos e outros animais silvestres. O filho (Wyatt, representado pelo ator Gavin Lewis, na época das filmagens com 17 anos) quer aprender a atirar, mas o pai, rigoroso, deixa claro que antes dos 18 anos ele não pegará em armas.

– Mas meus amigos todos atiram!

Essa pregação contra as armas vai de encontro à lógica do bangue-bangue, mas atende as aspirações de uma sociedade assustada com tantas tragédias pela facilidade com que as armas circulam nas mãos dos adolescentes. Nos Estados Unidos o direito a posse e ao porte de armas está na Constituição, e isso vem desde o Velho Oeste, a indústria armamentista patrocina e agradece, o povo esperneia, sofre. Esta dor de cabeça sem tamanho é o que nosso governo deseja para o Brasil. A ideia é simples e estapafúrdia: armas para combater a violência! O cidadão comum tem o direito de se defender, porque o bandido anda armado e as forças de segurança do Estado não dão conta.

Assim, o gráfico da matança de mulheres, índios e pretos aumenta sem parar, as tragédias domésticas se multiplicam, de tiros acidentais a chacinas. A equação é fácil, quanto mais armas, mais crimes. E quem realmente se beneficia com as dezenas de alterações feitas no Estatuto do Desarmamento (14 decretos presidenciais; 14 portarias ministeriais; dois projetos de lei; e uma resolução de flexibilização nesta legislação) são exatamente aqueles que vivem fora da lei, milicianos, justiceiros, garimpeiros, desmatadores, latifundiários, desordeiros em geral. Ou seja, não precisamos mais contrabandear armas do Paraguai ou dos Estados Unidos, pagar caro, podemos adquiri-las oficialmente e matar com armas legalizadas.

De acordo com um desses decretos presidenciais, um CPF pode comprar até 60 armas e milhares de munição. É o Brasil na contramão, lutando contra a vida. É nossa frágil democracia ameaçada. Em alguns estados brasileiros, como no Velho Oeste, já existem mais armas nas mãos de civis do que das forças de segurança. Em um dos seus arroubos a favor da pistola, o presidente desejou ver cada cidadão com uma arma na mão para pressionar governadores que apoiem diretrizes contrárias às suas, ser a favor de vacina e máscara, por exemplo. Lembram do que houve recentemente nos Estados Unidos, quando um bando armado invadiu o Capitólio por discordar do resultado das eleições? É nosso sonho de consumo, resolver tudo na bala, na pressão, como faz Putin na Ucrânia e como fez os Estados Unidos em várias partes do mundo, atiçando a cavalaria para cima de quem discorda da sua visão de mundo.

Ah, o filme! O Velho Henry (Old Henry), homem pacato, vive no mato, trabalha duro e se preocupa exclusivamente com a educação do filho. Mas eis que surge um cavalo solitário, com a sela ensanguentada. Um mau agouro, sem dúvida. Henry manda o filho cuidar do animal e segue seu rastro em busca de pistas. Encontra em uma vala, dentro da sua propriedade, um homem desacordado, baleado, com um revólver carregado e uma bolsa lotada de dinheiro. A contragosto, socorre o homem, salva sua vida. Mas antes que o estranho se restabeleça de vez, surgem outros homens com o objetivo de acabar o que haviam começado e se apoderar do dinheiro.

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O Velho Henry se vê numa sinuca de bico. Ele que não queria o filho atirando nem mesmo em passarinho, se revela um exímio atirador. Acreditem se quiser, mas o velho Henry McCarty é o famoso Billy The Kid, uma lenda do Velho Oeste americano. O roteiro leva em conta a biografia original do personagem lendário que se encontra na internet. É só conferir. Na Wikipédia o pistoleiro é pintado como ladrão de gado e de cavalos, mas que acaba, em uma reviravolta, tornando-se homem da lei, xerife, para em seguida ser novamente jogado na clandestinidade como fora da lei com direito a um cartaz de procurado.

O velho Billy aposentado, diante das novas circunstâncias, mostra-se tão letal quanto nos tempos em que encarou uma estrela de xerife no peito ou assaltou diligências na garganta de um cânion. O filme brinca o tempo todo com a ambiguidade entre ser fora da lei e ser homem da lei, parece mesmo que é só uma questão de ponto de vista, quer dizer, dependendo do ângulo de visão, o xerife se torna bandido e o bandido se torna xerife.

No fim das contas, O Velho Henry, Billy The Kid, acredita ter mostrado ao filho adolescente que sair por aí portando uma arma não vale a pena, a não ser que queira conviver o tempo todo com a morte, porque é isso o que ela atrai, estimula e representa. Agora, se Billy The Kid não quer ver o filho empunhando uma arma, por que diabos um pai, em pleno século 21, deseja que os filhos aprendam a atirar e andem armados? O que leva um governo a estimular esse tipo de comportamento? A desejar armar a população? Melhor relaxar e encarar o filme apenas como entretenimento. Ah, e sobre O Ataque dos Cães, como é desesperador conviver com um homem perturbado com uma pistola na mão! Os psicopatas adoram armas e a nova política de flexibilização é um prato cheio.

Serviço
Direção: Potsy Ponciroli
Roteiro Potsy Ponciroli
Elenco: Tim Blake NelsonStephen DorffRichard Speight Jr.

Mário Lucena

Jornalista, bacharel em Psicologia e editor da Portal Edições, editora do Portal do Envelhecimento. Conheça os livros editados por Mário Lucena.

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