O samba não tem idade, mas a velhice é invisível na avenida?

O samba não tem idade, mas a velhice é invisível na avenida?

É urgente que dirigentes e carnavalescos abordem o envelhecimento no samba não apenas como “saudade” do passado, mas como uma pauta de políticas públicas e valorização atual.


O Carnaval é, por definição, uma festa que está presente em todas as fases da vida. Das crianças que dão seus primeiros passos nas escolas mirins aos baluartes que carregam o pavilhão com décadas de história, a passagem do tempo é o fio condutor da ancestralidade no samba. No entanto, um estudo inédito publicado na Revista Kairós-Gerontologia questiona: será que essa festa milenar realmente “enxerga” o envelhecimento da população que a constrói?

O artigo A (in)visibilidade do envelhecimento e da velhice nos carnavais cariocas, de autoria de Maylla Rage de Albuquerque e Wilson José Alves Pedro, da Universidade Federal de São Carlos (SP), mergulha nos sambas-enredos e sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro para identificar como o tema é retratado no período pós-pandemia (2022-2026).

Para a Gerontologia Social, as escolas de samba são muito mais que agremiações recreativas; elas funcionam como catalisadores da participação social ativa. Ao analisar a estrutura das escolas, os pesquisadores destacam que a participação em ensaios, a confecção de fantasias e o desfile estimulam a funcionalidade física e cognitiva, além de fortalecer vínculos intergeracionais que protegem o idoso contra o isolamento social.

A pesquisa também traz um recorte socioeconômico importante, demonstrando que a maioria das quadras está localizada em zonas periféricas e subúrbios, onde a renda média é significativamente menor que em bairros nobres como a Lagoa. Nesses territórios, a escola de samba surge como um espaço democrático de acesso gratuito à cultura, lazer e saúde para a pessoa idosa.

O tempo que passa “en passant”

A análise documental de 60 sambas-enredos revelou dados curiosos sobre a forma como os compositores lidam com a cronologia:

Presença do Tempo: Em 96,7% dos sambas analisados, foram encontrados marcadores temporais (como as expressões “antigamente”, “naquela época” ou “brevemente”).

Citação Direta vs. Indireta: Embora o tempo esteja presente, a citação direta ao envelhecimento (uso de palavras como “velho”, “idade” ou “tempo” em sentido cronológico) ocorre em apenas 36,7% das letras de samba.

O Enredo vs. O Samba: Nas sinopses (os textos explicativos dos enredos), o tema aparece de forma direta em 61,7% dos casos, indicando que a ideia do envelhecimento está na concepção da festa, mas nem sempre chega com a mesma clareza ao refrão que o povo canta.

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Os autores observam que, embora o envelhecimento circunde o cotidiano carnavalesco através de nichos como Ancestralidade (presente em 63,3% das obras) e Memória/Resgate Histórico (76,7%), ele muitas vezes passa despercebido, como se a velhice fosse apenas um acessório da tradição e não um processo vivido e valorizado em tempo real.

Um apelo ao protagonismo

O estudo conclui com uma provocação necessária: é urgente que dirigentes e carnavalescos abordem o envelhecimento não apenas como “saudade” do passado, mas como uma pauta de políticas públicas e valorização atual.

Segundo os autores, “Falar e valorizar o envelhecimento é ter consciência que o tempo está passando e que precisamos valorizar esse tempo passageiro, o dos nossos entes queridos e o nosso próprio”.

A pesquisa é um convite para que o olhar da Gerontologia atravesse os portões das escolas de samba, reconhecendo que o samba é, sim, o feitiço que mantém a chama da vida acesa na velhice.

Leia o artigo na íntegra na Revista Kairós-Gerontologia, que oferece uma análise detalhada de cada escola, tabelas comparativas de renda e a lista completa dos enredos analisados. Acesse: https://kairosgerontologia.com.br/index.php/kairos/article/view/169


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