O queijo do caipira

Outro dia caminhando pelo meu bairro, olhei meio distraído a placa de uma rua e dei de cara com o nome de um personagem por quem tinha admiração. Nem todo mundo conhece ou leu Cornélio Pires. Fiquei muito bravo; onde se viu homenagear Cornélio Pires com aquela ruinha, isso não era homenagem, era sacanagem. A rua é tão estreita que nem calçada tem e nela só dão as laterais das casas. Acho que ninguém mora naquela rua.

Waldir Bíscaro *

 

Resolvi então fazer um desagravo a esse escritor que tanto me fez rir, recontando de memória um dos seus causos. Só não sei se vou conseguir contar com a mesma graça do mestre, mas… su coragio!

Miro era um sitiante bem sucedido, pelos padrões da região. Tinha cinco filhos homens e apenas uma filha. Maninha, como era conhecida, ia completar dezoito anos e Miro não queria deixar passar em branco o aniversário da filha. Mais ainda, queria mostrar pros vizinhos um pouco de suas vantagens como bom produtor rural.

Convidou toda a vizinhança para a festa. Esse tipo de comemoração era coisa muito rara por aqueles lados. A turma só se encontrava uma vez por mês, quando o vigário da cidade mais próxima vinha celebrar a Missa. Havia também outras festividades, como São João, que congregavam o pessoal. Mas, festa de aniversário mesmo, não era costume.

Miro tinha ido até a cidade fazer algumas comprinhas para a festa: duas caixas de tubaína, três sacos de pão de padaria, uma peça de mortadela, alguns salames e um belo queijo mineiro curado. Outras comidinhas seriam feitas em casa mesmo.

Na região, não havia costume de se comer queijo, a produção local era exclusivamente agrícola e, para o leite, cada família tinha lá suas cabrinhas no fundo do quintal. Queijo era muito caro. Às vezes, quando sobrava leite de cabra, alguns produziam alguma coisa parecida com queijo.

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O dia da festa chegou e a turma foi se juntando em baixo da lona que Miro tinha armado nos fundos da casa. A mesa com as comilanças lá estava no centro do espaço, atraindo os olhares gulosos da turma, mas o campeão das atrações era, sem dúvida, o belo queijo.

Cada um que chegava ficava com água na boca ao ver aquela maravilha e comentava: Ocê viu cumpadre o que tem no meio da mesa? Hoje é dia! Vamo forrá o peito.

Alguns chegavam mais perto da mesa para se certificarem da existência daquela pequena maravilha, davam uma paradinha, disfarçavam e iam pegar o pãozinho com mortadela e um copo de tubaína.

As horas se passavam e nada do Miro abrir o queijo. A turma estava ficando frustrada e desesperançosa de experimentar o dito cujo. Alguns mais achegados com o Miro tentaram puxar assunto a respeito do queijo, mas na hora hagá se envergonhavam e a prosa morria aí mesmo.

Já anoitecia e o pessoal foi aos poucos se despedindo e voltando pra casa, sem ter forrado o peito com aquele queijão. Lá pelas nove da noite a festa terminou. O queijo, não.

Algumas semanas se passaram e num domingo, depois da Missa, o Tonico se aproximou do Miro e falou: Oi, Miro, cê tem ainda aquele queijo? Sá por quê? Minha minina vai fazer niversário, qui nem a sua, e eu pensei de alugar o seu queijo só pra enfeitar a mesa.

(Esse causo apareceu em um dos livros de Cornélio Pires, se não foi no Patacoadas, foi no Mixórdia)

PS: Depois de escrever o causo, passei de novo naquela rua e só então percebi que a sacanagem tinha sido minha. O nome da rua não era Cornélio Pires e sim Cornélio Procópio. É isso que dá ser apressadinho…, mas foi graças ao erro de percepção que acabei reescrevendo esse causo. Leibnitz, mais uma vez teve razão…

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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