O que temos a aprender com os idosos rurais?

O que temos a aprender com os idosos rurais?

Reconstruindo memórias de luta e esperança em áreas de conflitos agrários a partir de histórias de idosos que dedicaram suas vidas à busca por terra, justiça social e reforma agrária no Brasil

Por Fernando Henrique Ferreira de Oliveira (*)


“Igual eu mesma, de cabelo grisalho e de idade. Acho que a pessoa idosa é desse jeito. Eu tenho essas dores de velhice, o corpo fica ruim as vezes, mas tirando isso eu tô bem. Eu faço minhas coisas, eu consigo caminhar sozinha, varro meu terreiro e quintal e ainda por cima lavo as minhas roupas. Tudo isso eu faço. Por isso não me sinto velha!” (risos). (D. Sapucaia – 94 anos. Assentamento Água Sumida – outono de 2022).


O propósito deste texto é apresentar as histórias de idosos que dedicaram suas vidas à busca por terra, justiça social e reforma agrária no Brasil[1]. Essas trajetórias foram reconstruídas a partir das memórias individuais e coletivas de homens e mulheres que veem a vida e a continuidade de suas famílias na terra como o horizonte de seus esforços. As memórias enfatizam que os idosos permanecem ativamente engajados na realização de seus sonhos.

Nosso objetivo principal é compartilhar uma coleção de memórias de idosos rurais que viveram experiências marcantes nos acampamentos e assentamentos de reforma agrária. Vamos destacar como o envelhecimento no campo moldou suas vidas e as estratégias que desenvolveram para enfrentar desafios específicos nesses ambientes. Utilizamos histórias orais e registros de campo para produzir dados sobre o envelhecimento.

Nosso foco se concentra em entender como estes sujeitos experimentam o processo de envelhecimento, abordando questões de independência, bem-estar e acesso a serviços sociais e de saúde. Nosso principal interesse é a qualidade de vida desses indivíduos. Temos a intenção de preencher uma lacuna de conhecimento sobre as condições sociais do envelhecimento em acampamentos e assentamentos rurais.

Apresentaremos os idosos por meio de suas memórias, com o propósito de reconstruir as trajetórias individuais e coletivas de vida e envelhecimento, além de compreender a evolução ao longo do tempo e do espaço dos assentamentos e acampamentos.

As memórias foram capturadas por meio de entrevistas, nas quais os narradores compartilharam seus conhecimentos, sentimentos, desejos, tristezas, alegrias, sonhos e perspectivas futuras. Cada indivíduo relata sua jornada de vida e envelhecimento no contexto rural, baseando-se em sua experiência pessoal.

Ao explorarmos a história dos conflitos agrários na região e a construção dos acampamentos e assentamentos, conseguimos compreender como a memória individual se entrelaça com a memória coletiva, especialmente nos momentos de luta e nas estratégias para a sobrevivência e resistência na terra.

A espaço-temporalidade da memória: da lona do barraco ao lote de terra na reforma agrária

Optamos por valorizar a integridade das memórias autobiográficas, pois elas são a base das narrativas que dão sentido e coesão às experiências de envelhecimento dos idosos rurais. Em conjunto, essas memórias retratam experiências diversas que desafiam a subordinação a formas de trabalho degradantes e exploração, reformulando suas vidas nos acampamentos e assentamentos. Enfrentando latifúndios, desintegração familiar, migração, luto, sofrimento e resistência, esses idosos buscam uma melhoria nas condições de vida. A terra é revisitada em suas memórias, sendo vista como um meio de mudança social em suas vidas.

A transformação do espaço em um lugar, em sua dimensão emocional, revelou-se um dos apoios cruciais para que os idosos conseguissem recordar eventos marcantes de suas vidas e os lugares por onde passaram até chegarem à terra. Portanto, o lugar desempenha um papel essencial na construção das narrativas, pois a memória está intrinsecamente ligada a diversos locais. Em nosso trabalho, o sítio representa um elemento que expressa o profundo apego e carinho dos idosos pelo local onde vivem.

Lugares, objetos e os idosos desempenham papéis essenciais como suportes para evocar e reconstruir memórias, permitindo que os indivíduos compartilhem suas narrativas pessoais e coletivas. Ao explorar a interação entre memória e velhice, buscamos apresentar ao leitor a diversidade de histórias dos idosos no contexto rural.

As trajetórias de vida recriadas a partir das memórias ilustram a capacidade de transcender estereótipos do envelhecimento, destacando os idosos como indivíduos independentes com perspectivas para o futuro. Observamos também que, apesar das interpretações simplistas que rotulam os idosos como teimosos, solitários e frágeis, os recordadores enfatizam a ideia de que não existe uma velhice universal que padronize as pessoas com base na idade. Os sonhos e projetos de futuro permanecem vibrantes ao longo do tempo.

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Além disso, as memórias revelam como o preconceito relacionado à idade está interligado a outras formas de opressão e discriminação social, como o sexismo e a pressão para manter uma aparência jovem. Esse fardo recai especialmente sobre as mulheres idosas, que muitas vezes são incentivadas a ocultar os sinais do envelhecimento. Também observamos situações de constrangimento enfrentadas pelos idosos solteiros e viúvos, que são desencorajados de buscar relacionamentos na velhice, bem como a pressão sobre os homens idosos para manter uma vida sexual ativa ao longo do envelhecimento.

As trajetórias dos idosos rurais contrariam os discursos sobre envelhecimento ativo, que frequentemente atribuem a responsabilidade por uma experiência bem-sucedida de envelhecimento exclusivamente às escolhas individuais. Entendemos que envelhecer de maneira satisfatória não depende apenas de decisões pessoais ou estados de espírito, mas está relacionado às oportunidades ao longo da vida, condições sociais e de saúde, bem como ao acesso a atividades de lazer e a ambientes de trabalho menos desgastantes.

Nas narrativas dos recordadores, torna-se evidente a existência de uma diversidade de idosos e experiências de velhice, reforçando a noção de que a juventude e a velhice não são escolhas pessoais, mas sim processos moldados por contextos específicos.

O assentamento rural: um espaço de reprodução socioterritorial da vida e da família na terra

As memórias reconstruídas nos revelam que a decisão daqueles que se aventuram no movimento de luta pela terra não é meramente racional; há uma dimensão afetiva e inconsciente que permeia essa escolha, composta tanto por fatores objetivos quanto subjetivos. As narrativas dos idosos envolvidos em acampamentos frequentemente ecoam sentimentos de revolta e injustiça, onde as memórias de uma vida marcada pela pobreza e condições de trabalho degradantes emergem vividamente.

A busca pela reconexão com a terra, a segurança proporcionada pela vida em um lote e a fuga de um ambiente caracterizado pelo desemprego, fome e desigualdade são motivações essenciais que levam esses indivíduos a percorrerem distâncias e a se engajarem na luta pela terra. O trabalho no campo é uma dimensão profundamente valorizada por esses idosos, que nutriam a esperança de uma melhor qualidade de vida ao adotarem uma vida no lote. Eles destacam a importância do trabalho em família e a produção de alimentos derivados da agricultura e pecuária, reconhecendo o papel estratégico dos assentamentos na redução das disparidades regionais e na promoção da atividade econômica. Esses idosos acampados se orgulham de suas contribuições para as atividades relacionadas à ocupação no acampamento.

Embora as trajetórias dos idosos revelem que a compreensão do envelhecimento vai além de uma perspectiva puramente biológica, elas também indicam que esse fenômeno é socialmente construído. Essa construção abrange uma diversidade de visões sobre a velhice que transcende a simples idade cronológica. Nas memórias, a definição do significado do envelhecimento é pautada na valorização da diversidade, reconhecendo a heterogeneidade de experiências de velhice, que abrangem características relacionadas a cor, raça, gênero, sexualidade e renda.

Nota
[1] Este texto está relacionado às reflexões apresentadas na tese de doutorado intitulada “O Envelhecimento do ser no Espaço: Memórias de Idosos em Contextos de Luta e Conquista da Terra no Pontal do Paranapanema – São Paulo – Brasil“. A tese foi defendida pelo autor no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista, na cidade de Presidente Prudente, no ano de 2022.

Leia o texto na íntegra na próxima edição da Revista Longeviver

(*) Fernando Henrique Ferreira de Oliveira é geógrafo pela UNESP, com mestrado em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente pela Uniara e doutorado em Geografia pela UNESP, campus de Presidente Prudente – SP. Pesquisou o envelhecimento em áreas de acampamento e assentamentos de reforma agrária, destacando o protagonismo dos idosos na luta pela terra. Atualmente, é professor de Geografia na SEDUC do Governo de São Paulo. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2724296653136631. Linkedin:  https://www.linkedin.com/in/fernando-henrique-ferreira-de-oliveira-255007158/ . E-mail [email protected]. Instagram: @pinoquio_fernando

Foto destaque de Felix Mittermeier/pexels.


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