Os serviços de saúde funcionam como unidades singulares, mas inseparáveis, constituindo-se mutuamente. Eles são atravessados por fluxos, demandas, normas, sujeitos e contingências.
Minha atuação na Atenção Primária à Saúde tem me permitido ver, de dentro, as dinâmicas relacionais que se estabelecem tanto entre profissionais quanto entre setores da rede. O trabalho cotidiano nesse território me conduziu a uma analogia que expressa o modo como compreendo esses serviços: eles se organizam como ecossistemas que, em conjunto, formam um bioma. Essa imagem dialoga diretamente com o que discuti na minha dissertação, quando analisei, a partir de Edgar Morin, que complexus significa aquilo que foi tecido junto. Os serviços de saúde funcionam como unidades singulares, mas inseparáveis, constituindo-se mutuamente.
Cada ecossistema – o hospital geral, o pronto atendimento, a atenção básica, a atenção especializada – possui sua própria vegetação, uma engrenagem interna e uma lógica local coerente com o contexto no qual está inserido. Essa coerência é dinâmica e permeável. Assim como no Paradigma da Complexidade não há fronteiras rígidas entre dimensões do humano, na saúde pública tampouco existem compartimentos estanques. Os serviços são atravessados por fluxos, demandas, normas, sujeitos e contingências. São compostos por pessoas, geridos por pessoas, sustentados por protocolos específicos e modos operacionais próprios. Há, portanto, singularidade em meio à capilaridade; unidade em meio à diversidade, tal como sustento ao discutir a unidualidade humana e a necessidade de superação do pensamento disjuntivo.
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Nenhum ecossistema se sustenta isoladamente
Compreender esse sistema como rede interdependente leva ao reconhecimento de que nenhum ecossistema se sustenta isoladamente. Eles operam em permanente inter-retroação, princípio central da complexidade. Tal qual na recursividade descrita por Morin, os efeitos produzidos em um ponto da rede retornam para ele próprio, reorganizando fluxos, tensionando práticas e redesenhando caminhos de cuidado. A autorregulação, tão fundamental nos sistemas vivos, é igualmente necessária para que o conjunto dos serviços públicos se mantenha equilibrado.
A metáfora ecológica evidencia isso com clareza: quando um ecossistema entra em desequilíbrio, organismos antes restritos a uma área expandem-se para regiões próximas, modificando o funcionamento dos ecossistemas vizinhos. O mesmo ocorre na saúde pública. Quando um serviço reduz sua capacidade de atendimento – por reforma, reestruturação ou falta de equipe – a demanda não desaparece. Ela transborda, pressiona outros pontos da rede, reorganiza trajetórias de usuários e produz sobrecarga nos serviços vizinhos, reforçando uma relação de circuito, retroações e dependências mútuas.
Assumir os serviços públicos de saúde como um bioma complexo significa reconhecer que cada unidade possui vida própria, mas nenhuma sobrevive desacoplada do conjunto. Essa visão, sustentada pelo Paradigma da Complexidade que desenvolvi na minha pesquisa, orienta meu olhar profissional e analítico: trabalhar em saúde pública é reconhecer que todo ajuste local repercute no global, e que fortalecer cada ecossistema é, simultaneamente, fortalecer o bioma inteiro.
As reuniões em rede provocam a análise de como cada serviço interage e inter-retroage, permitindo identificar de que modo essas dinâmicas podem ser reorganizadas para que a rede não seja ainda mais sobrecarregada do que já é. Trata-se de reconhecer que a complexidade não é obstáculo, mas condição estrutural do sistema; e que somente ao olhar para a rede como tecido vivo, permeável e interdependente, somos capazes de pensar estratégias de cuidado, gestão e cooperação que preservem o equilíbrio do bioma e a qualidade da atenção aos usuários.
Reuniões intersetoriais que reúnem representantes de diferentes serviços da rede tornam evidente que cada unidade carrega uma lógica própria, uma cultura de trabalho, um tempo de resposta e uma forma particular de organizar o cuidado. Essas diferenças não são ruídos a serem eliminados; são expressões da diversidade constitutiva do sistema. No espaço da reunião, essa heterogeneidade se torna visível e produtiva, pois é justamente na presença simultânea dessas singularidades que a rede se reconhece como bioma: múltiplos ecossistemas que coexistem, se influenciam e dependem uns dos outros para manter o equilíbrio do conjunto.
Ao mesmo tempo, a sustentabilidade desse bioma não se garante de forma automática. Ela depende da construção contínua de espaços de análise coletiva. Reunir-se para examinar fluxos, pactuar encaminhamentos e compreender as pressões que atravessam cada ponto da rede é parte fundamental do mecanismo de autorregulação do sistema. Sem esses encontros, cada serviço operaria como uma ilha e, inevitavelmente, tensões locais se espalhariam silenciosamente, sobrecarregando setores já pressionados. A reunião funciona, assim, como uma instância de cuidado do próprio sistema: um espaço em que o tecido da rede pode ser observado, ajustado e reequilibrado.
Por isso, ao analisarmos como cada serviço interage e inter-retroage, exercitamos uma prática que é, ao mesmo tempo, teórica e pragmática, técnica e relacional. Evitamos problemas que surgem quando a complexidade é tratada como simplicidade e contribuímos para que o futuro da rede seja sustentado não apenas por protocolos e estruturas, mas pela continuidade desse olhar coletivo e complexo, que reconhece o bioma em sua totalidade e se compromete com sua vitalidade.
Nesse sentido, os matriciamentos, fóruns, espaços de educação permanente e reuniões constantes de setores operam como verdadeiros dispositivos de autorregulação. São momentos em que o sistema observa a si mesmo, reconhece sobrecargas, reorganiza formas de atendimento e promove Projetos Terapêuticos Singulares mais realistas, sem perder de vista que cada ajuste local repercute sobre outros serviços. Assim como nos ecossistemas naturais, em que o equilíbrio depende da interação contínua entre seus elementos, a rede de saúde exige espaços recorrentes de reflexão, nos quais as partes possam se ver, se escutar e se reposicionar. É nessa prática interativa, coletiva e complexa que o bioma da saúde pública encontra condições de preservar sua vitalidade e sustentar respostas mais coerentes, integradas e solidárias às necessidades dos usuários e dos territórios.
Para além disso, reconhecer a rede como bioma implica assumir que sua sustentabilidade depende não apenas de estruturas técnico-administrativas, mas da capacidade contínua de seus atores de produzir sentido compartilhado, corresponsabilidade e reorganização permanente. A vitalidade do sistema emerge justamente dessa tessitura viva entre parte e todo.
Foto de RDNE Stock project/pexels.
