O Gerontólogo é o gestor do envelhecimento que, por meio da avaliação gerontológica e articulação de estratégias integradas, permite à pessoa idosa permanecer no controle de seus desejos e ações.
por ABG (*)
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A expressiva transição demográfica, caracterizada pelo aumento da expectativa de vida, impõe desafios e diferentes prioridades para a saúde biopsicossocial (Silveira et al., 2023). Dentro deste contexto, a Gerontologia busca adicionar qualidade de vida aos anos, de modo que a longevidade possa ser vivenciada da melhor forma possível (Santos et al., 2023). Este objetivo alinha-se diretamente com a preservação da autonomia (entendida como o poder de decidir e gerenciar a própria vida) e da independência (a capacidade de realizar as atividades cotidianas sem auxílio). A capacidade funcional, que engloba a manutenção das habilidades físicas e mentais essenciais para uma vida independente, é fundamental para um envelhecimento com melhor qualidade e protagonismo.
Nesse cenário, o Gerontólogo atua como profissional especializado, munido da competência para abordar o processo de envelhecimento em sua complexidade. Sua abordagem se fundamenta em uma perspectiva articulada, ampla e integrada, considerando o cenário biopsicossocial do indivíduo de todas as faixas etárias, com destaque às pessoas idosas (Santos et al., 2023). Esta visão holística é essencial para a gestão do cuidado e a intervenção estratégica, permitindo que a pessoa idosa permaneça no controle de seus desejos e de suas ações, bem como fortalecendo seu papel como sujeito ativo no próprio processo de envelhecer.
A contribuição do Gerontólogo para a manutenção da autonomia e independência se manifesta em diferentes níveis de atenção. Na Atenção Primária à Saúde (APS), sua atuação foca na prevenção de agravos e na promoção da qualidade de vida, sendo a Avaliação Gerontológica uma de suas ações práticas mais relevantes (Ferreira et al., 2025). Esta avaliação aprofundada permite a identificação precoce de vulnerabilidades e potencialidades, respeitando a singularidade e a diversidade da vivência na velhice, e orientando a elaboração de planos de cuidado individualizados (Silveira et al., 2023).
As estratégias de preservação funcional promovidas pelo Gerontólogo baseiam-se no conceito de envelhecimento ativo. Estratégias para a manutenção do desempenho funcional e, consequentemente, da autonomia incluem o fomento de um estilo de vida que englobe a manutenção de projetos de vida, a prática de atividades físicas, a adoção de pensamentos positivos e construtivos e a realização de exercícios cognitivos. Além disso, outra atuação do bacharel em Gerontologia permeia o contexto educacional, participando da formação de cuidadores formais. Ao transmitir uma compreensão integral do processo de envelhecimento, o Gerontólogo garante que o serviço de cuidado oferecido seja qualificado e alinhado com a preservação da autonomia da pessoa idosa (Pulgatti et al., 2023).
Em razão de preservar a dignidade como indivíduo, capaz de tomar suas próprias decisões e escolhas, Maria Helena Nóbrega aborda em seu livro “(Não) quero me aposentar”, a alfabetização digital como uma ferramenta para a promoção da autonomia e da liberdade das pessoas, auxiliando em um envelhecimento ativo. Dessa forma, especialmente em um cenário onde tecnologias como telemedicina, relógios inteligentes e aplicativos de transporte e bancários têm se integrado ao cotidiano das pessoas idosas, essas inovações ampliam o alcance e a relevância das plataformas digitais para esse público (Nóbrega, 2024).
Além disso, o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) estabelece diretrizes fundamentais para a proteção e valorização das pessoas idosas, garantindo direitos essenciais para uma vida digna. Dentre os principais pontos, destaca-se a obrigação do Estado, da sociedade e da família em assegurar a inclusão digital e social desse público, assim se estabelece a atenção integral à saúde dessas pessoas, prevista no Artigo 15, o que inclui a oferta de tecnologias que facilitem o acesso a esses serviços, como a telemedicina, promovendo a inclusão digital como um direito (Brasil, 2003).
Dessa forma, a intervenção do profissional gerontólogo assegura que a inserção no mundo digital não seja um fim em si mesma, mas um meio eficaz para ampliar a capacidade de decisão, fortalecer a autonomia e garantir o acesso integral aos serviços de saúde, promovendo um envelhecimento ativo e conectado aos direitos fundamentais. Ao integrar tecnologia, cuidado e educação, o Gerontólogo potencializa a construção de trajetórias de vida mais autônomas e socialmente participativas.
O Gerontólogo é, portanto, o gestor do envelhecimento que, por meio da avaliação gerontológica e articulação de estratégias integradas, contribui para que a longevidade seja composta por uma trajetória de vida com dignidade, autonomia, independência e saúde biopsicossocial. Sua atuação representa um pilar essencial para que o envelhecimento seja vivido com mais significado, segurança e protagonismo.
Referências
BRASIL. Estatuto do Idoso: Lei n.º 10.741, de 1º de outubro de 2003. Dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 3 out. 2003.
FERREIRA, Samara Aline de Assis et al. Atuação do Gerontólogo na Atenção Primária à Saúde: competências e ações práticas de fortalecimento da saúde da pessoa idosa. Revista Kairós Gerontologia, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 25, 2025.
NÓBREGA, Maria Helena. (Não) Quero me aposentar: desejos e possibilidades em novas paisagens. Ribeirão Preto: Artes & Edições, 2024.
PULGATTI, Karen Leticia et al. A importância do gerontólogo na formação de cuidadores formais: um relato de experiência. Revista Kairós Gerontologia, São Paulo, v. 26, n. 33, p. 13, 2023.
SANTOS, Carolina Carneiro das Neves et al. Experiências práticas da atuação do gerontólogo em um serviço de reabilitação em idosos. Revista Kairós Gerontologia, São Paulo, v. 26, n. 33, p. 10, 2023.
SILVEIRA, Anna Clara Simon Landim et al. Atuação do bacharel em Gerontologia na atenção especializada: um relato de experiência. Revista Kairós Gerontologia, São Paulo, v. 26, n. 33, p. 1, 2023.
(*) ABG – Assinam este texto as seguintes autoras pertencentes à ABG:
Gabriela dos Santos – Docente do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA). Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. É pesquisadora no Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da USP e atua com estimulação cognitiva para pessoas idosas.
Bianca Gene de Almeida – Graduanda do curso de Gerontologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisadora de Iniciação Científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq sobre o tema “Consumidores Idosos e Plataformas Digitais B2C: explorando interações e decisões” e atual estagiária da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG).
Adriana Nancy Medeiros dos Santos – Doutora em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Gerontóloga e Mestra em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) e do Laboratório de Investigação Médica em Envelhecimento (LIM-66) do HC-FMUSP. Membro da International Society to Advance Alzheimer’s Research and Treatment (ISTAART) e integrante da diretoria científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG).
Roberta dos Santos Tarallo – Mestra em Gerontologia pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Especialista em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade Metropolitana. Graduada em Gerontologia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP). Docente no curso de Atualização Gerontológica da Scaelife. Associada desde 2011 à Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Atua na microgestão de casos clínicos e estimulação cognitiva para pessoas idosas.
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: gerontologathais@gmail.com.
Foto de Kampus Production/pexels.
