O exercício da sexualidade na velhice é pouco estudado e comentado

O exercício da sexualidade na velhice é pouco estudado e comentado

É importante olhar para a sexualidade na velhice com naturalidade

Por Susanna Nazar (*)


A sexualidade na terceira idade apresenta desafios relacionados ao próprio envelhecimento. No entanto, o principal deles está atrelado à invisibilidade do assunto. Falar sobre sexo na juventude já é difícil e vem acompanhado de uma série de tabus, mas falar de sexo depois dos 60 ganha nas desvantagens. E o que muita gente não sabe é que a sexualidade continua latente na velhice, e não falar sobre ela pode prejudicar os idosos que queiram manter uma vida sexual saudável. 

É muito comum ouvir e observar estereótipos sobre os mais velhos, como, por exemplo, a ideia de que não podem trabalhar ou que são debilitados e que, por isso, não podem assumir responsabilidades ou ter a rotina na mesma intensidade de quando eram jovens, incluindo vida sexual ativa. De acordo com Flávia Raquel Rosa Junqueira, ginecologista e obstetra com área de atuação em Sexologia, formada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, tanto homens quanto mulheres têm mudanças no corpo com o passar da idade e também na resposta sexual, mas o maior desafio é a invisibilidade.

“O exercício da sexualidade nessa faixa etária ainda é muito pouco visto, estudado e falado. Temos uma crença coletiva de que é como se as pessoas mais velhas, as pessoas idosas não tivessem sexualidade, o que não é verdade”, declara.

Segundo Flávia, a sexualidade na terceira idade é a continuação dessa vivência praticada por toda a vida, associada com as modificações fisiológicas que a idade proporciona. “É uma fase da vida que precisamos realmente olhar com mais carinho e ter mais conhecimento. A sexualidade não deixa de existir, ainda que ela possa sofrer e passar por adaptações nesse período”, explica a especialista. 

Mudanças fisiológicas

Assim como todo o corpo, os órgãos sexuais também vão passar por transformações com o envelhecimento. De acordo com Flávia, no caso da mulher, essas alterações ocorrem na anatomia da região genital, da região pélvica, com a redução do tamanho do útero, a atrofia da mucosa do tecido vaginal e da vulva e o ressecamento dessa região. “Isso pode interferir na capacidade de lubrificação durante a relação sexual e pode levar, inclusive, à dor durante o ato sexual”, informa a médica. 

No caso do homem, as alterações apontadas pela especialista estão relacionadas às dificuldades para alcançar a ereção, precisar de uma excitação mais demorada e a qualidade da ereção, que pode mudar com a diminuição da rigidez do pênis. “A questão da ejaculação também. Pode-se ter uma menor percepção desse momento que a ejaculação vai acontecer e uma redução da força e do volume do líquido ejaculado”, acrescenta. 

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Além disso, Flávia também explica as mudanças do orgasmo. Para as mulheres, a sensibilidade diminui ao longo do tempo, fazendo com que o orgasmo leve mais tempo e precise de mais estímulo, podendo ser, inclusive, de menor intensidade comparado à mulher quando mais jovem. 

Da mesma forma, o orgasmo masculino pode ter uma resposta mais lenta e de contração da musculatura menos intensa e menos duradoura. “Há também um aumento do período refratário, que é o período entre o homem ter uma ejaculação do orgasmo e conseguir novamente reiniciar o ciclo de resposta sexual, com a ereção e um novo ciclo de ejaculação e orgasmo”, define a ginecologista. 

Hábitos

Como outros aspectos do dia a dia, a sexualidade é reflexo de hábitos de toda a vida. Ainda segundo a especialista, é importante ter esse olhar ao longo da história, de que a sexualidade é fruto da nossa saúde como um todo. “Nosso estilo de vida vai impactar diretamente o exercício da nossa sexualidade no envelhecimento. Aquelas preocupações sobre a importância de uma alimentação saudável, da prática de exercício físico regular, a importância de um sono de qualidade, um adequado gerenciamento do estresse e evitar hábitos como o alcoolismo, o tabagismo, que podem interferir diretamente na sexualidade, é muito importante.”

A ginecologista reforça ainda que o envelhecimento é uma etapa da vida pela qual todos esperam passar e a importância de tratar a vida sexual nesse processo como algo natural e com carinho, até porque a sexualidade se mantém ainda que sem o mesmo desempenho sexual da juventude. “Um encontro sexual vai muito além da penetração. É reduzir demais acharmos que a sexualidade às vezes vai ser só essa questão em si. Essa expressão da sexualidade pode se manter ativa até o final da vida, assim como a satisfação sexual, independentemente das adaptações que eventualmente o envelhecimento possa trazer”, finaliza. 

(*) Susanna Nazar é estagiária do Jornal da USP. Fonte: Jornal da USP no Ar

Foto: Gustavo Fring/pexels


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