O Brasil precisa urgentemente regulamentar a profissão de gerontólogo exercida pelo bacharel em Gerontologia, assim como ampliar cursos de bacharelado em Gerontologia.
Henrique Salmazo da Silva e Thais Bento Lima da Silva – ABG (*)
Trata-se de uma iniciativa importante frente ao idadismo, desinteresse da sociedade pelo tema, falta de investimentos em políticas públicas à população que envelhece e escassez de profissionais habilitados para atender a população, como os egressos de cursos de bacharelado em Gerontologia. A questão que fica é: “Como envelhecer em uma sociedade que relega o envelhecimento ao plano da invisibilidade e desvalorização?”
Embora o Estatuto da Pessoa Idosa, promulgado em 2003, tipifique os direitos e garantias às pessoas com 60 anos ou mais, no Brasil as pessoas prosseguem envelhecendo sem as mesmas oportunidades e com desafios consideráveis quanto ao acesso à saúde, à habitação e aos direitos fundamentais. As pessoas idosas já ultrapassaram 33 milhões de brasileiros e a perspectiva em 2050 é que de cada quatro habitantes, um terá 60 anos ou mais. Destaca-se, nesse contingente, o aumento de pessoas 80+, grupo que mais cresce e que representará em 2040 9,4 a 10,8 milhões de habitantes (19% do grupo com 60+). Trata-se, dessa forma, da Revolução da Longevidade: tornamo-nos um país mais velho, em uma velocidade muito mais acentuada do que países europeus. Contudo, diferente desses, não nos preparamos adequadamente para cuidar da população que envelhece.
CONFIRA TAMBÉM:
A escolha do tema da redação e o crescimento do número de candidatos idosos podem estar associados, uma vez que ambos apontam para uma mudança de paradigma: o envelhecimento é evidenciado como um processo social e educativo, que envolve direitos, oportunidades e políticas de inclusão. Esse olhar dialoga diretamente com as metas da Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030), iniciativa da OMS que destaca a necessidade de criar ambientes acessíveis, combater o idadismo e promover a aprendizagem ao longo da vida.
Ampliar cursos de bacharelado em Gerontologia
Um dos caminhos para promover o envelhecimento com equidade e dignidade é o provimento de recursos humanos na área do envelhecimento, com a expansão dos cursos de bacharelado em Gerontologia no Brasil e com a regulamentação da profissão de gerontólogo, exercida pelo profissional bacharel em Gerontologia.
Enquanto ABG, destacamos que o primeiro curso de bacharelado em Gerontologia no Brasil foi iniciado em 2005 pela Universidade de São Paulo (USP), seguido pelo curso de bacharelado em Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), em 2009. Desde então já se formou mais de 1.800 profissionais, espalhados pelo Brasil.
Os egressos do bacharelado em Gerontologia atuam em diversos cenários e contextos do envelhecimento, com maior destaque na área da saúde realizando atividades de gestão aplicadas às pessoas idosas, famílias, comunidades, organizações, serviços e políticas públicas. As atividades do bacharel em Gerontologia estão enquadradas na Classificação Brasileira de Ocupações 1312-20 desde 2015, com destaque às funções de planejamento, gestão e integração dos conhecimentos biopsicossociais do envelhecimento.
No contexto da área da saúde, o profissional bacharel em Gerontologia pode atuar aplicando os seus conhecimentos no acompanhamento dos usuários idosos na atenção básica, atenção secundária e terciária; no apoio a gestão das instituições; articulação de políticas e monitoramento de indicadores voltados para saúde e atenção na área da pessoa idosa.
No contexto da assistência social, o profissional bacharel em Gerontologia pode contribuir com os trabalhos desenvolvidos nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) com ações voltadas a escuta dos usuários, prevenção e manejo das situações de violência, avaliação multidimensional, articulação com a saúde e demais políticas, gestão de equipamentos e serviços voltados à pessoa idosa.
Na área da educação, o bacharel em Gerontologia pode atuar na diminuição de atitudes discriminatórias e idadistas, com enfoque na educação básica, ensino médio e superior, além de ações coletivas, voltadas para educação para a sociedade. Também em programas e iniciativas socioeducativas voltados para as pessoas idosas, com foco na inclusão digital, bem-estar mental, envelhecimento ativo e convivência comunitária.
Os locais de inserção de profissionais gerontólogos (bacharel em Gerontologia) apresentam mudanças, crescimento e melhorias nas práticas institucionais, pois a sua formação proporciona a este profissional conhecimento técnico para a utilização de indicadores, planejamento, ferramentas de gestão, avaliação multidimensional como instrumentos importantes para sua atuação. Nesse ínterim também auxiliam na formação de profissionais, no apoio da rede socioassistencial e de saúde, e na articulação de ações numa relação de parceria com as demais profissões.
Acreditamos, dessa forma, que para obter perspectivas mais promissoras de envelhecimento no Brasil, torna-se emergente investir em formação qualificada na área, na criação de serviços e na regulamentação da profissão de gerontólogo no Brasil.
Nosso apelo é para que as universidades passem a ofertar o curso de bacharelado e que o projeto de lei 9.003/2017, que atualmente está na Comissão do Trabalho sob relatoria do deputado Alexandre Lindenmeyer (PT) possa avançar priorizando a qualidade da formação em Gerontologia no Brasil. O entrave atual versa sobre a diferenciação da profissão de bacharelado e tecnólogo em Gerontologia. Ressaltamos que apenas o profissional bacharel em Gerontologia possui a visão qualificada para planejar e atender a população idosa no contexto da Gestão em Gerontologia.
Convidamos, nesse contexto, prefeituras, governantes e representantes do poder público a unirem esforços com os profissionais bacharéis em Gerontologia na criação de serviços. A Gerontologia possui muito a contribuir e o profissional gerontólogo é vital para que o envelhecimento seja um processo assistido e bem orientado.
Referências consultadas
Brasil. Ministério da Educação. (2025). Enem cresce o número de participantes 60+. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/novembro/enem-cresce-o-numero-de-participantes-60
Brasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. (2025). Tema da redação do Enem 2025: Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/enem/tema-da-redacao-perspectivas-acerca-do-envelhecimento-na-sociedade-brasileira
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (2024). Projeções de população: Brasil e unidades da federação.
Organização Mundial da Saúde (OMS). (2020). Década do Envelhecimento Saudável 2021–2030. Genebra: OMS.
(*) Henrique Salmazo da Silva – Bacharel em Gerontologia pela Universidade de São Paulo – Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP). Professor Doutor do Bacharelado em Gerontologia e Vice coordenador do Programa de Pós-graduação em Gerontologia da EACH/USP. Presidente da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG), gestão 2025-2027. Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da USP. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vice-diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo.
Foto de José Cruz/Agência Brasil
