Quem trouxe grande visibilidade à Demência com Corpos de Lewy foi o caso do ator Robin Williams, diagnosticado após sua morte.
Gabriela dos Santos e Thais Bento Lima da Silva (*)
A Demência com Corpos de Lewy (DCL) é uma condição neurodegenerativa progressiva que faz parte das síndromes Parkinson-plus, caracterizando-se por alterações significativas no funcionamento das capacidades cerebrais.
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Antes de compreender a DCL, é importante entender o conceito de demência, que envolve a deterioração gradual das funções cognitivas, afetando habilidades como memória, atenção, concentração, linguagem e raciocínio.
Embora seja mais comum em pessoas acima de 65 anos, a demência também pode acometer indivíduos mais jovens. Nos estágios iniciais, a percepção das perdas cognitivas tende a gerar maiores sintomas de ansiedade e depressão.
Além disso, com o avanço da demência, aumenta-se a necessidade de suporte, resultando em crescente dependência de outras pessoas para realizar atividades cotidianas.
As síndromes parkinsonianas, como a Doença de Parkinson (DP), envolvem sintomas como tremores, rigidez muscular e movimentos lentos. A DP é uma doença degenerativa crônica e progressiva, causada pela perda de neurônios na substância negra, uma região do cérebro responsável pela produção de dopamina. A redução desse neurotransmissor leva ao surgimento dos sintomas motores característicos da doença.
A DCL compartilha algumas dessas características com a DP, mas se distingue pelo acúmulo de proteínas anormais chamadas Corpos de Lewy, que afetam diversas regiões cerebrais. Além disso, a DCL é marcada por sintomas como:
– Declínio cognitivo flutuante, com períodos de lucidez alternados com confusão mental;
– Alucinações visuais vívidas;
– Sintomas extrapiramidais, como rigidez e tremores, semelhantes aos da DP;
– Prejuízos nas funções cognitivas, como atenção, linguagem, habilidades visuoespaciais e funções executivas.
Quem trouxe grande visibilidade à Demência com Corpos de Lewy foi o caso do ator Robin Williams, que, em 2014 e com 63 anos de idade, se matou. Diagnosticado postumamente, ele apresentou sintomas ao longo de sua vida, como dificuldades de linguagem, problemas de relacionamento, prejuízos de memória e distúrbios do sono, conforme relatos de sua esposa, Susan Williams. Após sua morte, a autópsia revelou que praticamente todas as áreas de seu cérebro haviam sido afetadas, o que evidenciou a gravidade da doença, que, inclusive, costuma aumentar o risco de suicídio. Desde então, Susan tem se dedicado a promover a conscientização sobre a DCL, buscando ampliar o conhecimento público sobre a condição.
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), a DCL é a terceira forma mais comum de demência, sendo mais prevalente em homens. O diagnóstico é realizado com base em exames clínicos, laboratoriais e de neuroimagem, sendo a ressonância magnética a mais indicada. Além disso, são utilizadas escalas específicas para avaliar as funções cognitivas.
Embora não haja cura, os tratamentos buscam minimizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Nesse contexto, terapias farmacológicas, como o uso de anticolinérgicos e antidepressivos, combinadas com intervenções não farmacológicas realizadas por equipes interdisciplinares, são fundamentais.
Profissionais como gerontólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais desempenham papéis essenciais, desde a orientação sobre alimentação adequada até intervenções de adaptação ambiental. A estimulação cognitiva, por exemplo, é uma das terapias não farmacológicas mais eficazes para preservar funções como memória e linguagem.
Além dos profissionais mencionados, os cuidadores formais ou familiares têm um papel significativo no suporte diário às pessoas acometidas por DCL, por isso é importante que recebam orientação sobre o manejo da doença e tenham assistência para o desenvolvimento de estratégias para a manutenção ou melhora do bem-estar de todos os envolvidos.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora, 2014.
FERREIRA, J. M. S.; OLIVEIRA, V. N.; FRAGA, L. R.; SARDINHA, G. D. Demência por corpúsculos de lewy: um panorama atual. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 10, n. 10, p. 990–998, 2024. Disponível em: 10.51891/rease.v10i10.15919. Acesso em: 10 dez. 2024.
PARMERA, J. B. et al.. Diagnóstico e manejo da demência da doença de Parkinson e demência com corpos de Lewy: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Dementia & Neuropsychologia, v. 16, n. 3, p. 73–87, set. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2022-S105PT. Acesso em: 10 dez. 2024.
NUNES, V. S. et al. DEMÊNCIA POR CORPOS DE LEWY E ALZHEIMER: DIFERENÇA NO DIAGNÓSTICO. Saúde Coletiva, v. 13, n. 87, p. 13001–13012, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.36489/saudecoletiva.2023v13i87p13001-13012. Acesso em: 10 dez. 2024.
WILLIAMS, S. S. The terrorist inside my husband’s brain. Neurology, v. 87, n. 13, p. 1308-1311, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000003162. Acesso em: 10 dez. 2024.
(*) Gabriela dos Santos– Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Gerontologia pela Universidade de São Paulo (USP), Graduada em Gerontologia pela USP, com Extensão pela Universidad Estatal Del Valle de Toluca. Membro do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: santosgabriela084@gmail.com
Thais Bento Lima da Silva– Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br
Foto: Robin Williams no filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (“Dead Poets Society”, 1989) / Crédito: Buena Vista Pictures Distribution (divulgação)
