Como reconhecer lugares que representam a identidade de cada pessoa?

Como reconhecer lugares que representam a identidade de cada pessoa?

A perda da identidade dos refugiados, forçada por perseguições, preconceito,  violências, retira deles o direito a seus lugares de morar, orar e conviver.


Falar sobre “permanência” traz sempre a noção de lugar, mas nem sempre com o sentido essencial que o caracteriza. Não se trata de simples espaço físico, muito menos de um local específico, o que leva a pensar sobre o verso da música do grupo Jota Quest: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. Nesse gesto encontramos conforto, acolhimento e reconhecimento, definindo o valor de ser no mundo. O antropólogo Marc Augé descreveu que lugar é todo o espaço que tenha significado, os outros são “não lugares”. De acordo com a socióloga Lamia Jorge Saadi Tosi (2014), no trabalho publicado por Augé há “… uma intrigante reflexão sobre o papel daqueles lugares nos quais permanecemos em trânsito, em espera ou apenas de passagem”. O gerontólogo Felipe Borges definiu a importância da moradia como lugar:

Seu lugar, é o espaço onde o mundo parece alinhar-se e fazer sentido. É o local onde há segurança e onde é possível caminhar com passos firmes. Porque tudo pertence. Há um pouco de você em cada coisa e cada coisa tem em si um pouco de você. É nesse emaranhado de vínculos, afetos e aconchego que se compreende, então, que estás em casa.

Ao refletirmos sobre a situação de refugiados pelo mundo, toca profundamente pensar que a perda da identidade, forçada por perseguições, preconceito ou medo da violência, retira desses indivíduos o direito a seus lugares de morar, de orar e de conviver. Tudo se torna estranho e hostil, desde a língua até a cultura, transformando vidas que precisam recomeçar. Pensando em pessoas idosas que são forçadas a esse recomeço, restabelecer o sentido de lugar é um movimento penoso que exige muita resiliência. Mesmo sendo uma característica humana, perder quase tudo que os representava estabelece um vazio imenso a essas vidas sofridas. 

Também há mudanças significativas naqueles que perdem seus lares. Moradores de rua escolhem ou são forçados à vida nômade, adotando estratégias para marcar seus restritos territórios de vida. Pessoas adultas de qualquer idade já apresentam aparências envelhecidas, como se a vida estivesse destinada a ser mais curta. A falta de condições de higiene, a acomodação insalubre para o repouso sem segurança e a hostilidade experimentada nas diferenças, entre outros fatores, condenam a um ciclo de vida encurtado e sujeito à despersonalização proveniente da mendicância, assim como à invisibilidade para a maioria da sociedade. 

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Que a atenção aos expatriados pela guerra na Ucrânia e pelo radicalismo no Afeganistão, que buscam um lugar no mundo depois de serem expulsos de onde se reconheciam, possa oferecer mais humanidade a esses indivíduos que envelhecem com esses traumas. Também, que a população de rua, mais numerosa a partir dos efeitos econômicos causados pela pandemia da Covid-19 em todo o mundo, encontre mais dignidade e um novo lugar que chame de seu: um feliz novo ano mais solidário a todos, velhos e novos, para uma sociedade mais justa e igualitária.

Foto destaque de billow926/pexels.


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Maria Luisa Trindade Bestetti

Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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Arquiteta e professora na graduação e no mestrado da Gerontologia da USP, tem mestrado e doutorado pela FAU USP, com pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Pesquisa sobre alternativas de moradia na velhice e acredita que novos modelos surgirão pelas mãos de profissionais que estudam a fundo as questões da Gerontologia Ambiental. https://sermodular.com.br/. E-mal: [email protected]

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