Homenagem para um escritor que conheci na infância, Raul, que já publicou mais de 20 livros desde 1990, três gerações já têm suas obras, e conhecendo um pouco do que é a velhice.
84 anos é o tempo aproximado que o planeta Urano leva para dar uma volta em torno do sol. O início de uma segunda volta urânica, portanto, é o que está vendo Raul Drewnick. Raul nasceu em 1938. Ama literatura desde 1950, ano em que conheceu A Comédia Humana, de William Saroyan; escreve desde o colégio, quando, em uma prova de química, rascunhou versos no lugar de uma resposta que não sabia.
“Sou um velho diletante/dei-me sempre todo a literatura”, diz ele em um poema; “espero ter sempre uma frase para deixar aqui”, disse-me ele em uma conversa virtual. Agora é minha vez: se ele diz que quem considera um escritor são os leitores, eis um dos nossos grandes.
Tendo publicado mais de vinte livros desde 1990, três gerações já têm suas obras – Um Inimigo em Cada Esquina (1994), por exemplo, marcou minha infância. Crônicas, textos sobre futebol – com uma assinatura muito corinthiana – e artigos jornalísticos também compõem seu vasto projeto literário.


Quase diariamente, o escritor alimenta seu blog. Publicou uma bela tanca(1) em uma manhã em que “estava se dando melhor com o mister Parkinson”, quando pôde notar que ele vinha reforçando seu sentimento de finitude, “tema precioso para a poesia” – suas mais recentes criações são voltadas a esse universo de sentidos. Assim, podemos conhecer um pouco do que é a velhice segundo Raul Drewnick:
I)
Não quero hoje, nem devo, me queixar.
Passado é, já, o pior da enfermidade
E passo agora, com tranquilidade,
Talvez a minha vida retomar.
CONFIRA TAMBÉM:
Eu, que nem conseguia mais andar,
Caminho já com certa habilidade,
agora que, movido por Piedade,
Mister Parkinson leva-me a passear.
Tão Bem agora eu tenho me sentido
Que nas ruas sou já reconhecido
E no parque já sou uma atração.
Exaltam tudo quando tento eu faço,
Meu nome gritam sempre, em cada passo,
E me aplaudem a cada tropeção.
II)
Peso
Cada dia o velho poeta anda mais curvado. É como se estivesse procurando chaves de ouro no chão. Dizem que finalmente começa a sentir o peso dos sonetos que vem carregando desde a juventude.
III)
Sinal
Se lhe dói o calo, o velho poeta sabe: vem vindo um haicai.
IV)
Compatibilidade
Quando o passarinho velho adoeceu e já nem cantava nem saltitava na gaiola, o concretista resolveu dar-lhe espaço num poema.
V)
Hipótese
De um poeta velho se pode esperar tudo – talvez, até, que pare de fazer poesia.
VI)
Facínora
Um soneto se emenda; um sonetista, jamais. Tenha ele sessenta, setenta ou oitenta anos, sempre pode surpreender e, no meio da mais pacata das reuniões, sacar do bolso com a mão trêmula mais uma de suas enferrujadas armas de catorze tiros.
VII)
Pânico
Quando o grupo de poetas jovens tocou a campainha, o velho poeta pediu à mulher que nem sob tortura revelasse onde estavam escondidos os sonetos. A mulher perguntou se a recomendação valia também para as quadrinhas.
VIII)
Arrependimento
Hoje, mais velho do que jamais imaginou chegar a ser, com um sentimento intenso de perda lembra-se do tempo em que poderia ter morrido de amor.
IX)
Dados biográficos
Aos 21 anos, tentava morrer de amor. Aos 81, já aceitava soluções mais prosaicas
X)
Patrimônio
O que me resta, hoje, é a idade que tenho e tudo aquilo que ela não me permite mais ter.
XI)
Lembrança
Lembra-se da poesia, como um homem de oitenta anos se lembra de sua namorada de infância. Ora ela se chama Vera, ora Priscila, ora Letícia, ora nem Vera, nem Priscila, nem Letícia. Se hoje ela lhe aparecesse com a idade que tinha na época, ele talvez a reconhecesse e abrisse para ela um sorriso que há oito décadas vem murchando.
XII)
O nome
Perguntou se teria um futuro bom
E a bola de cristal respondeu enigmaticamente:
Quem sabe disso é o Park in Son.
XIII)
Mister Parkinson tem educação.
A tudo que lhe peço, cortesamente
Ele responde pronta e claramente
Que sente muito me dizer que não.
XIV)
Tão doce é mister Parkinson comigo
E tão bem, sempre, insiste em me tratar.
Posso eu, sem ser ingrato, duvidar
Quando ele diz ser meu melhor amigo?
XV)
Na cama o homem
de oitenta e tantos anos
e a mulher de setenta e quantos
A morte não tem pressa,
deixa o tempo se espreguiçar.
Há quinze anos já
Envelhecem na sala
E o gato cego e o sofá.
XVI)
Leitmotiv
Tenho pensado na morte.
É a minha filosofia.
Com oitenta e três, me diga.
Em que você pensaria?
XVII)
Na manhã em que o velho escritor entrou em agonia e o padre foi chamado para extrema-unção, houve um momento em que a família chegou a acreditar numa recuperação milagrosa. O velho, de quem não se ouvia uma palavra fazia semanas, disse apaixonadamente a última de sua vida e, como se receasse que não o tivessem entendido, repetiu-a, mais claramente ainda:
Es-to-col-mo.

Notas
(1) Segue a bela tanca publicada por Raul Drewnick:
Que nos preparemos.
Embora se vai nossa hora
E logo estaremos
Bem lá, onde tomba o forte
E a morte nos diz olá.
Atualizado no dia 11/01/2023 às 15h43