A velhice como fase da vida e a fundação de uma nova Filosofia e Psicologia da velhice e do envelhecimento

A velhice como fase da vida e a fundação de uma nova Filosofia e Psicologia da velhice e do envelhecimento

A velhice não é um resíduo da vida adulta, mas uma fase legítima de desenvolvimento, dotada de tarefas psíquicas específicas e de uma dignidade ontológica própria.


Recentemente, e mais precisamente na tarde de 20 de março de 2026, uma sexta-feira, vivenciei um dos momentos mais marcantes da minha trajetória acadêmica e existencial: a aprovação, com a nota máxima, da minha Tese para promoção à classe de Professor Titular no Instituto de Filosofia da da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Intitulada “Velhice como fase da vida: contribuições da Psicologia do Desenvolvimento à constituição de uma Filosofia e Psicologia da Velhice e do Envelhecimento”, a tese nasce de uma profunda crise de sentido com as abstrações teóricas puras e de um encontro visceral com a realidade crua e humana de uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

A pesquisa que deu origem à Tese de promoção à Professor Titular articula saberes da Filosofia, da Psicologia do Desenvolvimento (life-span), da Psicanálise Winnicottiana e da Psicologia Histórico-Cultural para resgatar a pessoa idosa da invisibilidade e da “conspiração do silêncio” imposta pela sociedade produtivista.

Escrever sobre a velhice, hoje, exige de nós a coragem de sujar as mãos na dor do mundo. A longevidade, celebrada como uma das maiores conquistas da humanidade, traz consigo um paradoxo: alongamos a vida biológica através da medicina, mas corremos o constante risco de esvaziar de sentido esses anos a mais. O velho, ao perder sua força produtiva no capitalismo, é frequentemente transformado em um pária, sofrendo o que Simone de Beauvoir denunciou como “morte social” antes mesmo da morte do corpo.

Para além do declínio: o tempo vivido

A sociedade contemporânea foi engolida por uma “razão cronométrica” que reduz o envelhecimento à contagem de anos e à falência orgânica. Contudo, a idade cronológica é apenas uma convenção. Opondo-me a esse tempo espacializado e quantitativo (cronos), busco resgatar o tempo existencial (kairós). A velhice deve ser compreendida não pelo declínio irreversível das células, mas como um estado e uma construção sociocultural diante da qual o sujeito precisa se posicionar ativamente.

A tarefa psíquica da velhice: integrar a de-integração

Se o bebê humano precisa de um ambiente facilitador para integrar o seu eu, a velhice exige o movimento reverso, mas igualmente amparado. Apoiado na psicanálise de D. W. Winnicott e no enfoque relacional e mediador da cultura apontado por autores como José Bleger, defendo que o grande desafio psíquico da velhice é a conquista da “capacidade de morrer”.

A pessoa idosa realiza um trabalho hercúleo: ela precisa “integrar a de-integração”. Isso significa aceitar a perda da onipotência, a dependência física e o retorno à vulnerabilidade sem que isso signifique a destruição do seu self. É o esforço traduzido na comovente prece deixada por Winnicott ao fim de sua vida: “Oh Deus! Possa eu estar vivo quando morrer”. Estar vivo, aqui, significa permanecer implicado em sua própria história até o último suspiro.

A memória como resistência e a densidade da consciência

Esse enraizamento histórico se dá através da narrativa. Em diálogo com Vygotski e Ecléa Bosi, sustento que a memória do velho não é sintoma de fuga ou senilidade, mas é a memória-trabalho. Quando o sujeito narra o seu passado, ele costura as arestas de uma identidade que a sociedade insiste em fragmentar.

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Mais do que isso: à luz da intuição do filósofo Celson Pereira e do professor Alfredo Pereira Jr., a velhice é o momento de maior “densidade da consciência”. Como o tempo de vida restante é mais curto, a experiência subjetiva se adensa, permitindo que a consciência acesse uma dimensão de criatividade pura e autêntica. Isso explica por que tantas pessoas produzem suas maiores obras intelectuais e de sabedoria precisamente na velhice.

A clínica do holding nas ILPIs

Todo esse edifício teórico foi confrontado com o chão da clínica durante meu estágio em uma ILPI. Lá, compreendi que sustentar o olhar diante da finitude e ouvir os murmúrios de idosos demenciados são, em sua essência, atos filosóficos.

O silêncio da pessoa idosa asilada jamais deve ser lido como um vazio cognitivo, mas como a mais pura “eloquência das lacunas”, conforme procuro mostrar em texto publicado aqui no Portal. Se as famílias e a sociedade recusam a escuta, cabe a nós, profissionais, atuarmos como “egos auxiliares”. Oferecer a “clínica do holding” (sustentação) não é curar as dores do envelhecimento, mas ser a testemunha fiel que garante a continuidade histórica e a dignidade inalienável daquele indivíduo.

Considerações

A Tese agora aprovada é apenas um ponto de partida. Com a Filosofia e a Psicologia do Envelhecimento que procuro consolidar, defendo que o trabalho com os mais velhos não deve se resumir a aplicar testes cognitivos frios ou prescrever atividades infantilizadoras. O nosso dever é criar espaços para que a solitude contemplativa se instale, permitindo ao sujeito reconhecer que o acidental (as dores do corpo) não o impede de ver o essencial (a sua alma e a sua história).

A velhice é a nossa derradeira oportunidade de consumar uma biografia. Como nos ensina de forma sublime o poema de Adélia Prado, é o momento de aceitarmos o nosso próprio rosto, e mesmo sendo “rosa sequíssima e seu perfume de pó”, podermos dizer com altivez e doçura: “assim é”.

Referências
BEAUVOIR, S. de. A velhice. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 20ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
SOARES, F. M. P. A conquista da “capacidade de morrer”: o amadurecimento pessoal na velhice a partir da psicanálise winnicottiana. Curitiba: PUCPR, 2021.
WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

Foto de Peter Lopez/pexels.


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Leonardo Ferreira Almada

Professor Associado IV do Instituto de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal de Uberlândia. É Graduando em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Realiza Estágio Profissionalizante na Instituição de Longa Permanência para Idosos ‘Residencial Melhor Idade’. Pesquisa Filosofia e Psicologia da Velhice e do Envelhecimento a partir das perspectivas da Psicanálise e da Psicologia Histórico-Cultural. E-mail: umamenteconsciente@gmail.com

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Professor Associado IV do Instituto de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal de Uberlândia. É Graduando em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Realiza Estágio Profissionalizante na Instituição de Longa Permanência para Idosos ‘Residencial Melhor Idade’. Pesquisa Filosofia e Psicologia da Velhice e do Envelhecimento a partir das perspectivas da Psicanálise e da Psicologia Histórico-Cultural. E-mail: umamenteconsciente@gmail.com

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