A interdependência na velhice

A interdependência na velhice

A interdependência nos convida a criar ambientes e redes de apoio que permitam a participação, em vez de focar apenas nas limitações.


Thaina Vargas Costa (*)

A dependência é uma condição inerente à vida humana, que se manifesta em diferentes fases e de diversas formas. Em nossa infância, somos totalmente dependentes dos pais e cuidadores para suprir nossas necessidades básicas. Ao longo da vida, essa dependência se transforma, assumindo diferentes papéis, como a dependência financeira de um emprego ou a dependência emocional em um relacionamento. No entanto, o termo muitas vezes é associado a um receio, especialmente quando pensamos na velhice, uma fase da vida em que a dependência física e, por vezes, emocional, pode se tornar mais evidente.

O medo de ser dependente do outro na velhice é um sentimento profundo e comum, que geralmente está enraizado na perda de autonomia. A autonomia e a independência são valores muito valorizados em nossa sociedade, sendo vistos como sinônimos de dignidade e sucesso. A ideia de precisar de ajuda para realizar tarefas simples, como se vestir, comer ou tomar banho, pode evocar sentimentos de vulnerabilidade, vergonha e impotência.

Por isso, quando se fala em depender de alguém as pessoas pensam que será somente em casos extremos, como a falta de mobilidade ou ficar totalmente acamado em uma cama. Mas eu gostaria de abordar outras áreas em que podemos precisar de ajuda, como o conhecimento, o amor, o cuidado, o apoio, a comunicação e o bem-estar, entre outras, ao longo de nossas vidas.

Em um grupo de trabalho realizado com pessoas idosas participantes do Programa Maturidade Ativa do Sesc Alegrete-RS, propus gravarmos um vídeo interno a respeito dessa questão e os questionamentos surgidos foram mais individuais. Tentei levá-las a pensar em outra forma, não como alguém que precisa de ajuda, mas sobre como se sentem quando também realizam algo para os que estão com elas, sejam da família ou não.

A troca de experiências ocorrida foi enriquecedora. O grupo percebeu que auxiliar alguém é ótimo para ambas as partes e foi isso que eu quis passar ao propor esse tema para discussão e reflexão coletiva.

As perguntas norteadoras foram divididas em partes para facilitar e orientar o trabalho do grupo, mas é claro que elas podem ser adaptadas de acordo com a individualidade de cada pessoa idosa, considerando suas preferências e limitações: 

– Em relação ao apoio recebido:
“Quais atividades diárias você considera mais desafiadoras e gostaria de receber ajuda?”
“Existem tarefas que você prefere realizar sozinho e outras que aceita ajuda?”
“Como você se sente ao receber ajuda de familiares, amigos ou cuidadores?”
“O que você considera mais importante em um cuidador ou em um familiar que te ajuda?”
“Você gostaria de ter mais autonomia em alguma área específica da sua vida?”

– Em relação ao apoio oferecido:
“Em quais áreas você se sente capaz de ajudar outras pessoas, mesmo com suas limitações?”
“O que você gosta de compartilhar com seus familiares e amigos?”
“Como você se sente ao ver seus familiares e amigos felizes e realizados?”
“Você tem alguma habilidade ou conhecimento que gostaria de transmitir para as gerações mais jovens?”

– Em relação à comunicação:
“Como você prefere se comunicar com seus familiares e amigos?”
“Você se sente à vontade para expressar suas necessidades e desejos?”
“Você se sente ouvido e compreendido quando fala sobre suas preocupações?”

– Em relação à autonomia:
“Quais atividades te trazem mais prazer e autonomia?”
“Você gostaria de aprender algo novo ou retomar alguma atividade que gostava de fazer?”
“Quais são seus planos e desejos para o futuro?”

– Em relação ao bem-estar:
“O que você considera essencial para manter sua saúde física e mental?”
“Você se sente feliz e realizado em sua vida?”
“O que você gostaria que mudasse em sua rotina para ter mais qualidade de vida?” 

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Ao refletir sobre essas questões, as pessoas idosas podem identificar suas necessidades e desejos, além de perceber como podem contribuir para a vida daqueles que as rodeiam, promovendo um ciclo de apoio mútuo e bem-estar para todos. É importante que os familiares e cuidadores ouçam atentamente as respostas e respeitem as escolhas das pessoas idosas, garantindo que se sintam valorizadas e respeitadas em suas decisões. 

Realizar essa atividade em grupo foi algo enriquecedor, os idosos foram desafiados a pensar em situações onde eles seriam a base de apoio, onde recebem o cuidado e, mais importante, onde eles falam sobre isso. As reações foram diversas, foram tomados pela emoção em alguns momentos dos questionamentos, pois muitos deles realizam tudo sozinhos e quando perguntado sobre o apoio oferecido relataram que – como muitos – não recebem e também não oferecem.

Muitos relataram que já precisaram de ajuda, de um cuidado, apoio financeiro e psicológico. Os relatos, na sua maioria, foram de pessoas que passaram alguns apertos  sozinhos e resolveram se abrir para a família e amigos. Os diversos aspectos colocados no grupo (não só de receber mas também de oferecer) foi muito enriquecedor.

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Refletir sobre esse tema a partir de outra percepção, fazendo com que eles possam se ver nas situações de forma mais pertencente, deixou o trabalho mais humanizado.

​​Portanto, a dependência, em si, não é um problema, mas sim uma parte da jornada humana. O desafio está em mudar a percepção que temos sobre ela, transformando-a de um tabu ou de uma fonte de vergonha para uma oportunidade de conexão, cuidado e amor. Ao invés de fugir da dependência, devemos nos preparar para ela, cultivando redes de apoio, fortalecendo laços familiares e buscando informações sobre como envelhecer com dignidade e autonomia.

Algumas considerações: o valor da contribuição mútua

É comum associarmos a velhice à dependência, mas existe um conceito mais rico e humanizado que merece ser aprofundado: a interdependência. Enquanto a dependência sugere uma via de mão única (embora não seja), onde a pessoa idosa apenas recebe cuidados, a interdependência reconhece que as relações são de troca mútua, mesmo quando a capacidade física diminui, e foi isso que o grupo percebeu.

A interdependência é a chave para um envelhecimento ativo e com dignidade. Ela nos lembra que, embora uma pessoa idosa possa precisar de auxílio para tarefas como ir ao mercado ou se vestir, ela continua a ser um pilar importante na família e na comunidade. Essa pessoa não apenas recebe, mas também oferece.

A interdependência na velhice vai muito além do simples cuidado físico. Ela engloba a troca de apoio emocional, de conhecimento e de experiência. Esse tipo de troca é crucial porque mantém a autoestima do idoso: sentir-se útil e valorizado, em vez de ser um “fardo”, é fundamental para a saúde mental e emocional. A interdependência combate a sensação de impotência e o isolamento.

A interdependência transforma o cuidado em uma oportunidade para aprofundar os vínculos familiares. Em vez de uma relação de cuidador e cuidado, a família se envolve em uma rede de apoio mútuo, onde todos se beneficiam.

As pessoas idosas carregam uma vasta bagagem de conhecimento e sabedoria. Ao reconhecermos a interdependência, criamos espaços para que essa experiência seja compartilhada e valorizada, enriquecendo a vida das novas gerações.

O termo dependência muitas vezes carrega uma conotação de passividade, onde o idoso é visto como um receptor passivo de ajuda. Já a interdependência promove a participação ativa. Mesmo com limitações, a pessoa idosa é incentivada a manter sua autonomia e a contribuir da forma que lhe for possível.

A interdependência nos convida a criar ambientes e redes de apoio que permitam essa participação, em vez de focar apenas nas limitações.

Em suma, a interdependência na velhice é um convite para abandonarmos a visão estereotipada e limitante da dependência. É um chamado para enxergar a pessoa idosa como parte de uma rede de apoio e troca mútua, onde a dignidade e a utilidade não se perdem com o tempo, mas se transformam e se fortalecem com o cuidado compartilhado.

(*) Thaina Vargas Costa, atua no Sesc Alegrete-RS, Programa Maturidade Ativa. Este texto faz parte do trabalho apresentado no curso “O envelhecimento na perspectiva da Gerontologia Social [online ao vivo]”, ministrado pelo Espaço Longeviver/Portal do Envelhecimento no segundo semestre de 2024. E-mail: TVCOSTA@sesc-rs.com.br

Foto de Kindel Media/pexels.


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