A música tem a capacidade singular de despertar emoções e trazer de volta experiências que pareciam guardadas em algum lugar distante da memória.
Por Blog do Gerontólogo (*)
Você já ouviu uma música e, de repente, se viu transportado para outro momento da vida? Talvez uma festa de família, um baile da juventude, uma viagem especial ou até mesmo um amor que deixou lembranças marcantes. A música tem essa capacidade singular de despertar emoções e trazer de volta experiências que pareciam guardadas em algum lugar distante da memória.
CONFIRA TAMBÉM:
Ao longo da vida, construímos nossa própria trilha sonora. Algumas canções nos acompanham na infância, embaladas por vozes familiares ou pelas brincadeiras da época. Outras se tornam símbolos da adolescência e da juventude, período em que vivemos descobertas, fortalecemos amizades e construímos parte de nossa identidade. Há ainda aquelas músicas que nos lembram momentos importantes da vida adulta, como casamentos, o nascimento dos filhos, encontros, despedidas e celebrações.
A relação entre música e memória vai além da simples recordação de uma canção. Quando ouvimos uma melodia significativa, muitas vezes somos capazes de reviver sensações, sentimentos e detalhes de situações vividas. É como se a música abrisse uma porta para a nossa história pessoal, permitindo revisitar acontecimentos que ajudaram a moldar quem somos.
Pesquisas têm mostrado que a música é um dos estímulos mais poderosos para evocar memórias autobiográficas, aquelas relacionadas às experiências que vivemos ao longo da vida. Isso acontece porque as lembranças associadas à música costumam estar carregadas de significado emocional. Assim, uma canção não traz apenas uma recordação, mas também os sentimentos que a acompanharam.
No envelhecimento, esse fenômeno ganha ainda mais importância. O contato com músicas conhecidas pode favorecer o resgate de lembranças, estimular conversas sobre o passado e fortalecer a percepção da própria trajetória. Ao compartilhar histórias despertadas por uma canção, as pessoas reafirmam sua identidade, valorizam suas experiências e encontram oportunidades para criar novas conexões com familiares, amigos e outras gerações.
Além disso, estudos recentes sugerem que o envolvimento frequente com atividades musicais pode estar associado à manutenção de habilidades cognitivas importantes, incluindo aspectos relacionados à memória. Cantar, ouvir músicas significativas, participar de rodas musicais ou simplesmente recordar canções que marcaram diferentes fases da vida pode representar uma forma prazerosa de estimular a mente e promover bem-estar.
A música também tem o poder de aproximar pessoas. Quantas vezes uma conversa começa quando alguém pergunta: “Você lembra dessa música?” A partir daí surgem histórias, risadas, emoções e lembranças compartilhadas. Muitas vezes, uma única canção é capaz de conectar diferentes gerações, revelando semelhanças, costumes e experiências que atravessam o tempo.
Assim como os aromas de uma receita especial ou as fotografias guardadas em um álbum, as músicas fazem parte do nosso patrimônio afetivo. Elas registram momentos, preservam emoções e ajudam a contar a história de nossas vidas. Talvez por isso algumas canções nunca sejam apenas músicas: elas se transformam em lembranças que continuam nos acompanhando, mesmo quando o tempo passa.
Afinal, cada pessoa carrega consigo uma trilha sonora única, composta por músicas que marcaram encontros, despedidas, conquistas e sonhos. E, ao ouvi-las novamente, temos a oportunidade de revisitar não apenas o passado, mas também a riqueza da nossa própria história.
Em um mundo cada vez mais acelerado, reservar alguns minutos para ouvir uma música que fez parte da nossa trajetória pode ser um convite ao encontro com nossas próprias memórias. Mais do que entretenimento, a música pode ser uma poderosa ferramenta de conexão com nossa história, nossas emoções e as pessoas que fazem parte dela.
Talvez valha a pena refletir: quais canções compõem a trilha sonora da sua vida? Ao revisitá-las, você poderá redescobrir capítulos importantes da sua trajetória e perceber que, muitas vezes, as lembranças mais valiosas permanecem vivas em cada melodia.
Referências
BELFI, A. M.; JAKUBOWSKI, K. Music and autobiographical memory. Music & Science, v. 4, 2021.
ROUSE, H. J. et al. Association Between Music Engagement and Episodic Memory Among Middle-Aged and Older Adults: A National Cross-Sectional Analysis. The Journals of Gerontology: Series B, v. 77, n. 3, p. 558-566, 2022.
ROUSE, H. J. et al. Music Engagement and Episodic Memory Among Middle-Aged and Older Adults: A National Longitudinal Analysis. The Journals of Gerontology: Series B, v. 78, n. 9, p. 1484-1493, 2023.
(*) Assinam este texto os seguintes autores:
Eloá Silva Lira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora voluntária do projeto Oficina Revivendo Memórias através das paixões e também da oficina Mentes Ativas, ambas da USP 60+ da EACH-USP, coordenadas pela Profa. Dra. Thais Bento. E atua como estagiária no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, orientada pelo Prof° Dr. Luciano Pontes. E-mail: eloaslira@usp.br | LinkedIn: https://br.linkedin.com/in/elo%C3%A1-lira-952133274.
Larissa Januário de Oliveira – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora do projeto Oficina Revivendo Memórias através das paixões da USP 60+ da EACH-USP, coordenado pela Profa. Dra. Thais Bento. E atua como coordenadora da Jornada Universitária da Saúde da Universidade de São Paulo.
Vanessa Di Gregório Morais – Graduanda do curso de Bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Atua como monitora do projeto Oficina Revivendo Memórias através das paixões da USP 60+ da EACH-USP, coordenado pela Profa. Dra. Thais Bento. E-mail: vanessadigmorais@usp.br | Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9236425386726430
Thais Bento Lima da Silva – Gerontóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP). Mestra e Doutora em Ciências com ênfase em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Docente do curso de Bacharelado e de Pós-Graduação em Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH- USP), pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretora científica da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). Coordena Grupos de Apoio para cuidadores da Associação Brasileira de Alzheimer- Regional São Paulo. É parceira científica do Método Supera com a condução de ensaios clínicos. Coordenadora do Grupo de Estudos em Treino Cognitivo da Universidade de São Paulo. E-mail: thaisbento@usp.br.
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