Pinheiros em São Paulo Memórias e Histórias

Ao iniciarmos a compilação dos relatos dos participantes do projeto Memória Viva – Cidania Ativa e sua apresentação, para o Portal do Envelhecimento, ressaltamos que o trabalho com os diferentes grupos tem as marcas características do próprio grupo e de sua coordenação. Como já abordado, o trabalho das Oficinas Autobiográficas não tem um modelo a ser seguido. Cada grupo constrói e articula de modo próprio suas rememorações e ressignificações. Estimulados pela coordenação, por meio de dinâmicas variadas, os relatos se apresentam. O caderno de memórias é então único, porque reflete esta construção – individual e coletiva – que se (re)articula e cujo resultado apresentamos aos leitores.

Vera Brandão *

 

O grupo de Pinheiros oferece-nos um trabalho em que ao lado dos relatos dos idosos aparecem outros, colhidos apenas oralmente, mas registrados e apresentados pela coordenação, e que os complementam. Assim, é a palavra das coordenadoras que abre o conjunto dos relatos, apresentando o espaço onde os encontros foram realizados.

O espaço CIIPE – Centro de Integração Informação e Preparação para o Envelhecimento – sob a gerência de uma comissão de idosos, possibilitou momentos agradáveis entre árvores e canto de pássaros, um verdadeiro oásis, entre o trânsito da Marginal Pinheiros, Largo de Pinheiros e ruas próximas.

E Jesuina complementa e se apresenta:

São 14h… nos reunimos na casinha da rua Sumidouro, um lugar agradável e bonito, cheio de árvores e plantas… Sou de Bebedouro, terra da laranja e do café… quando criança morava em uma fazenda de café… Quando completei 5 anos de idade, vim para São Paulo para morar com meus patrinhos…

Estas informações são complementadas pelo relato da coordenação:

Tem 68 anos (bem vividos, segundo ela). O pai era viúvo, com 4 filhos e 60 anos, quando casou com a mãe de 19 anos. A família da mãe, de posses, com avô advogado e político, não queria o casamento. Foi criada com leite de cabra. Perdeu o pai aos 5 anos. Não esquece a cena de encontrá-lo morto na cama. A madrinha resolveu criá-la, trouxe-a para São Paulo e colocou-a em uma escola particular. Mora há 32 anos no bairro de Pinheiros.

Jesuína e Waldemar no Museu do Ipiranga

Para Jesuína, um lugar que representa a cidade é o Museu do Ipiranga e lembra também do elegante restaurante Fasano e de como era bom fazer piquenique no parque Ibirapuera. Do bairro relembra que se vendia peixe na rua, limpava-se e jogavam-se as vísceras no chão, ficando tudo sujo! E como não havia geladeira usava-se blocos de gelo, entregues nas portas das casas… estalando no chão. E conta do amolador de facas, com sua gaita típica e do realejo… tirei tanta sorte, acreditava naquilo…

Entre tantas outras lembranças, ela remarca que no tempo de sua mocidade … só namorava de sábado e domingo e durante a semana se viam de longe… Conta que comprou seu vestido de noiva na rua José Paulino para seu casamento com Waldemar, há quase 50 anos.

Waldemar, que participou dos encontros junto com a esposa, nasceu em São Paulo, filho de um italiano da Calábria e de uma espanhola, muito bonita de olhos azuis, de Málaga. Moravam no Brás e tiveram 10 filhos. Conta que trabalhou desde os 14 anos, como office-boy, carteiro e funcionário do Banco de São Paulo. Ele elegeu como um dos pontos prediletos da cidade o parque Ibirapuera, e dos tempos de mocidade lembra que… Os cinemas apresentavam dois filmes, as moças tinham hora para voltar e… acabavam assistindo só uma fita. O Paramount (teatro) apresentava teatro de revistas com moças de pernas de fora, como a Virginia Lane.

Fala de uma comida que muito lhe agrada, e típica no centro da cidade, afirmando… nada como um sanduíche grego e a salsicha do Largo do Café.

Finalizando diz:

Eu senti que passou muito depressa. Não dá tempo nem para você pensar…

Nilce, como Waldemar, tem o sangue espanhol do pai, e italiano da mãe. Ela nasceu em Araraquara há 67 anos, e há 24 reside em Pinheiros. Está casada há 40 anos e tem 3 filhos. Participou de poucos encontros, mas seus comentários também enriqueceram o conjunto das rememorações.

Já Nair nasceu em Pinheiros há 68 anos, de família humilde com cinco filhos, sendo que sua mãe vendia verduras no Mercado de Pinheiros. Mudaram-se do Largo de Pinheiros para a rua Girassol, na Vila Madalena que… era desabitada. Tinha chácaras onde vendiam verduras… minha mãe ia buscar agrião e vendia…

Entre outras conversas surgidas no grupo sobre os usos e costumes da época de infância e juventude, ela conta sobre os partos, feitos em casa com ajuda de uma parteira:

A gente era inocente, boba. Tinha dez anos e dormia no meio dos meus pais. Minha mãe estava grávida e pediu para buscar a parteira. A mulher veio com o avental… mandou pôr água no fogo… disse: o nenê está aqui. Eu não sabia de nada.

Relembra que o footing do bairro era na rua Teodoro Sampaio…. os homens ficavam parados e as mulheres iam passeando da rua Fradique Coutinho até o Largo de Pinheiros. Assim conheceu seu marido, num dia que ele lhe ofereceu pipoca. Namoraram por 18 anos… queria ter um cantinho para morar. Casou-se somente aos 35 anos, após a construção de sua casa na rua Fradique Coutinho, e teve 2 filhos.

Lindinha, na conversa sobre parto e gravidez conta:

Meu filho perguntava muito, quando eu estava grávida – mãe por que você está barriguda? – eu respondia – A mãe comeu muita polenta. Nunca mais ele comeu polenta, para que a barriga dele não crescesse!

Ela nasceu em São Manuel há 87 anos, veio para São Paulo pela 1ª vez com uma tia em 1926 por um ano, época em que estudou. Esteve novamente na cidade com 14 anos para aprender corte e costura. Mas veio morar definitivamente na cidade, sozinha, após a morte do marido com quem esteve casada por 47 anos e teve 3 filhos.

Em um dos encontros ao recordarem as festas religiosas os participantes do grupo relembraram a procissão do Espírito Santo que saía da Igreja Mont Serrat passava pela rua São João, hoje Paes Leme, e ia até o rio onde o Santo era lavado e seus devotos molhavam os pés. Lindinha complementa: A festa hoje só acontece em bairros mais afastados, com estandartes cheios de fita…

Lindinha é muita ativa e coordena grupos de terceira idade, gosta de nadar, participou do Projeto Pomar, plantando uma árvore às margens do rio Pinheiros e… torce pelo Palmeiras. Sobre sua disposição para tantas atividades, afirma:

Eu fui criada com leite de cabra e conhaque de alcatrão São João da Barra, o melhor fortificante que existia. Por isso tenho tanta energia até hoje!

Michelina, ou Mile como é mais conhecida, a caçula dentre 8 filhas de uma família de italianos, nasceu em São Paulo em 1929. Recorda que ia para a escola no “bonde do Waldemar”. O motorista se responsabilizava por ajudar as crianças… parava em frente a escola e aguardava todas atravessarem a rua e entrarem….

Sobre os namoros da época, comenta:

Antigamente era olho no olho, amor à primeira vista. Hoje será que as meninas e meninos se olham?

Mile casou em 1959. Ficou casada sete anos e separou-se quando a filha tinha um ano e meio. Criou-a, quase sem a ajuda do ex-marido, com seu trabalho e a colaboração das irmãs. Trabalhou nas lojas Garbo e durante 26 anos nas lojas Marie Claire, de moda feminina, conseguindo assim comprar carro e apartamento para si e para a filha.

Há 33 anos Evanyr e o marido foram contemplados em sorteio para morar em um apartamento no bairro de Pinheiros, em um local onde não havia água e nem luz. Conta que teve três filhas que estudaram no Grupo Escolar Godofredo Furtado, que fica até hoje na rua João Moura.

Ela nasceu em Poços de Caldas onde se casou e suas filhas nasceram. Vieram para São Paulo na época da revolução de 64, e após um tempo morando em Vila Prudente e São Caetano conseguiu o apartamento no bairro. Do comércio da cidade lembra-se das Casas Pirani que vendia de tudo e da rua Quintino Bocaiúva, que tinha as melhores lojas de calçados finos.

Numa das reuniões comentou-se um texto que dizia que em 1934, na vila Madalena… audaciosas mulheres, com suas saias nada confortáveis, faziam a bola correr difundindo-se a União Operária Futebol Clube, um dos primeiros times femininos de futebol de São Paulo. Todos ficam admirados e Evanyr comenta: Até hoje não aceitamos mulheres jogando futebol. Se uma neta minha resolve jogar futebol não vamos achar certo.

Sobre o progresso acelerado de nossos dias ela afirma: A modernidade trouxe o seguinte: não se pode acomodar. A cada minuto tem uma coisa nova. Até na costura fiquei defasada. Não sei pregar zíper invisível!

Angela nasceu em São Paulo há 71 anos, mas foi morar com a família em Santos onde residiu até o seu casamento. Seu pai era engenheiro, formado pela Escola Politécnica, e trabalhou na construção da Usina de Cubatão. O casal teve 5 filhas criadas de modo enérgico pelos pais. Ela estudou piano, fez Magistério e queria dar aulas, mas o pai dizia: – Filha minha não precisa e não vai trabalhar.

Mas, persistente, prestou vestibular para pedagogia escondida do pai que ao saber de sua aprovação demonstrou grande alegria e orgulho da filha. Após o término do curso ela se casou, e lembra que brigou muito para que seu vestido de noiva ficasse… do jeito dela, e veio morar em São Paulo. Aqui teve seus 4 filhos, criados no bairro onde moram até hoje..

Família de Dona Angela no carnaval

No caderno de memórias, elaborado pelo grupo, são marcantes algumas fotos da época de Carnaval em que Angela e suas irmãs aparecem fantasiadas com lindos vestidos. Comenta:

O carnaval era familiar com corso em carros abertos, e pessoas fantasiadas. Quem não tinha carro pegava um “carro de aluguel”. Jogavam serpentina e até lança-perfume, em seu frasco dourado, era permitido.

Angela também recorda a dificuldade para chegar à casa de uma tia, onde hoje é o valorizado bairro do Itaim:

Uma das irmãs de minha mãe morava numa chácara entre a Pedroso Alvarenga e a João Cachoeira. Era tudo terra. Nós pegávamos o bonde e depois íamos a pé, com os sapatos na mão, pois atravessávamos até um rio.

Lembra também que na rua Inácio Pereira da Rocha, em Pinheiros… tinha uma farmácia onde trabalhava o Sr. Rui. Qualquer coisa recorria-se a ele que ajudou a cuidar das crianças e, até hoje, é amigo da família.

As coordenadoras do grupo completam o retrato de Angela:

Sempre interessada e participante, trabalhou pela comunidade de Pinheiros, foi presidente do Conselho Estadual do Idoso, e continua lutando por seus direitos participando de movimentos sociais e políticos. Com sua personalidade marcante é chamada para representar e falar em nome dos idosos.

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Ao finalizar sua participação ela reflete:

São tantos anos de vida… mas parecem que passaram depressa. Não sinto a idade que tenho. Quando lembro que já tenho mais de 70 anos eu não acredito!

Da Ilha da Madeira, Portugal, veio Dora que tem 71 anos. Conta que seu pai vinha de uma família de posses, mas foi deserdado ao casar com sua mãe, uma moça pobre. O avô só foi ajudá-lo quando ficou doente. A mãe, bordadeira, sempre trabalhou muito e era ajudada pela filha. Dora casou-se e em seguida seu marido viajou para o Brasil. Ela veio juntar-se a ele 8 meses depois. Moraram sempre na região e aqui tiveram um casal de filhos.

No encontro em que relembraram cheiros e sabores ela deu uma aula sobre o cozido à portuguesa, com ingredientes selecionados: carne, lingüiça, paio, repolho e batata. Um prato requintado e forte.

Falando sobre o bairro, Dora comenta que fez sua casa com muito sacrifício, em 4 anos, e só depois tiveram água, luz e esgoto. Foi a segunda moradora da rua a ter telefone. Morava no Alto de Pinheiros e ia a pé até a Pompéia.

Dizem, as coordenadoras, que ela continua bastante ativa e participa de vários movimentos sociais. As fotos antigas trazidas por ela, de sua família em Portugal, mostram pessoas bem vestidas e sérias, e no verso de uma delas está a mensagem de uma prima: – O que importa é sentir que estamos vivos e somos aquilo que Deus quis e os nossos antepassados executaram.

Filha de portugueses, nascida em Pinheiros há 89 anos, Celeste também teve uma educação rígida e seguindo as orientações religiosas por medo, para evitar o pecado.

Conta que seus pais vieram para o Brasil porque os amigos, que já estavam por aqui, diziam: Aqui dinheiro dava em árvore de pataca, era só sacudi-la que as moedas caiam no chão. Seu pai veio primeiro, mas sua mãe não queria vir. A avó disse: – Casou deve acompanhar o marido.

Este mesmo conselho ouviu da mãe quando o seu marido quis ir morar em Cotia, para montar uma padaria e construir uma casa. Celeste foi, mas ficou pouco tempo, logo voltando para Pinheiros.

Como em Dora, a origem portuguesa de Celeste aparece fortemente marcada quando o assunto é culinária. Ela lembra do caldo verde, da batata com bacalhau e do doce de abóbora, cultivada no próprio quintal.

Celeste tem muitas lembranças do bairro e da cidade. Diz ela: São Paulo sempre foi chique. As pessoas andavam de luva e chapéu, nos anos 35 e 36. A segurança era grande, São Paulo era uma cidade pacata.

Lembra que em 1929 teve uma enchente muito forte em Pinheiros que inundou até a rua Francisco Leitão. As pessoas desciam do bonde e vinham a pé para casa.

Minha mãe falava que era o fim do mundo… 15 dias de chuva… Antigamente não tinha esse calçamento e a água era melhor absorvida.

Conta que os trilhos do bonde chegavam até o rio, transportando areia… era um bonde de carga. Do rio Pinheiros tiravam areia usada nas construções. Tinha cachoeira. A água era uma maravilha… um compadre tinha um barco, às vezes me levava para passear… o rio foi retificado e transformou-se num esgoto a céu aberto. Esse pedaço daqui ainda era limpo, mas logo ali na frente a gente via o esgoto caindo no rio.

Na conversa sobre parto e gravidez ela diz que … a natureza era outra, minha mãe tinha filho a cada três anos. Era tudo natural.

As coordenadoras assim apresentam Ana:

Tem 82 anos, nasceu em Carmo do Rio Claro, Minas Gerais. As famílias paterna e materna eram brasileiras e de políticos. Estudou em colégio do interior, de freiras, até os 15 anos… Casou e teve três filhas. Após quatro anos de casada o marido foi embora, deixando-a com as crianças bem pequenas…

Dos tempos de infância e juventude ela lembra do colchão de palha… antes de dormir tinha que ajeitá-lo para ficar mais confortável… do arroz e feijão que sua mãe fazia e do sabor do arroz doce…do sabor tradicional da pizza e frango, e também dos blocos de gelo deixados na calçada, quando ainda não havia geladeira.

Ana sempre costurou, mas hoje, ela, como também Angela, “aposentaram” as máquinas de costura. As fotos antigas de sua família mostram pessoas alegres, muitas mulheres – filhas, sobrinha, irmãs – e Ana, sempre bonita e sorridente.

Luiz nasceu em São Paulo, há 82 anos, filho de mãe mineira e pai português. Compareceu ao grupo apenas uma vez e neste dia, de terno e gravata e muito bem preparado, relatou fatos de sua vida e da história do bairro Alto de Pinheiros.

As coordenadoras assinalam que, pela proximidade, os limites geográficos se mesclam e tornam difusas as lembranças dos narradores que vivem e circulam entre os bairros de Pinheiros, Vila Madalena e Alto de Pinheiros.

Há 50 anos Luiz, casado com Nelly há 57 anos e com quem teve quatro filhos, mudou-se para o Alto de Pinheiros. Ainda lembra da festa de comemoração do IV Centenário, com espetáculo piroténico, que atraiu visitantes de outras regiões para os altos da avenida São Gualter.

Ele relata que o bairro foi planejado pela Companhia City tendo começado na parte mais alta, daí seu nome, expandindo-se com o tempo até às margens do rio Pinheiros. Conta também que havia na região criação de cabras nas chácaras. João Leiteiro tinha vacas e touros e, como não tinha pasto, ele soltava os animais para pastar nos terrenos vazios e os animais acabavam comendo os jardins das casas.

Conta do entregador de jornal, que trabalhava de bicicleta, e ainda ajudava a recuperar alguns animais que fugiam das casas, como saguis e até seriemas. Nesta época a rua Teodoro Sampaio era de terra e a avenida Francisco Morato era chamada de avenida do Sabão. Lembra das casas comerciais: Casas Pequena, Bazar 13, Casa São Jorge, Lavanderia Cisne…

As coordenadoras estimularam os participantes do grupo a pesquisarem nos antigos jornais, livros e revistas um pouco mais sobre a história do bairro, considerado o mais antigo de São Paulo, e hoje com a maior concentração de moradores com mais de 60 anos, em relação com sua população total. Nesse trabalho, feito em conjunto, os fatos históricos mesclam-se às vozes, muitas vezes não identificadas, dos narradores da história viva.

O bairro teve início, em 1560, com um povoado indígena às margens do rio Jurubatuba, que vinha da região de Santo Amaro. Havia na região muitos pinheiros, sendo o bosque mais denso na região da atual rua Fernão Dias. Foi construída uma capela – Capela de Pinheiros – incendiada, em 1580, num ataque dos índios Tupiniquins. Só em 1640, nova igreja, em devoção a Nossa Senhora do Rosário foi construída. Com as descobertas de ouro no interior do Brasil e o início das Bandeiras quase 800 índios foram levados da vila. A imagem de Nossa Senhora de Mont Serrat veio da Espanha na época em que os espanhóis dominaram Portugal.

Em 1722, moravam na vila 17 famílias no total de 80 pessoas. A região, entre 1740 e 70, virou ponto de encontro de negros fugidos que aqui formaram quilombos. Os famosos bandeirantes Fernão Dias e Fernão Dias Pais tinham grande extensão de terras que se estendiam até Caaguaçu, hoje avenida Paulista. No Parque Trianon há ainda remanescentes da mata nativa.

Aos poucos o bairro foi se transformando e crescendo, a partir de 1904 já tinha transporte público e em 1911 inicia-se a iluminação pública. A linha de bonde Araçá saía do Largo de São Bento, passava pela av. Municipal, hoje Dr. Arnaldo, sendo depois estendida até a Capote Valente e depois Largo de Pinheiros.

Relembram os narradores, sobre o bairro:

Os caminhos dos bois que vinham de Santo Amaro, daí o nome de Estrada da Boiada, se estendiam até a Lapa.

Que saudades das quermesses da Igreja do Largo de Pinheiros, do correio elegante, das barracas, dos flertes…

Era tudo diferente. As festas eram grandes. Tinha a Capela de Santa Cruz com barracas e comidas variadas.

O bonde … camarão, que era fechado e o cara-dura, mais barato, aberto e tinha esse nome porque, às vezes, as pessoas não pagavam.

Lembram de uma propaganda famosa, que se via em todos os bondes:

Veja ilustre passageiro

O belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado,

Acredite quase morreu de bronquite

Salvou-o o Rum Creosatado.

A Hípica Paulista, fundada em 1911, ocupava espaço entre a Teodoro Sampaio, Arthur de Azevedo e Pedroso de Morais.

A boate Tangará, foco de imoralidade, brigas e palavrões, no coração do bairro, rua Butantã, onde hoje funciona o prédio da Secretaria da Receita Federal.

A rua Ferreira de Araújo, com seus taquarais e seringais, chamava-se rua das Esmeraldas e tinha um lamaçal que dava medo.

As coordenadoras encerraram o trabalho sobre as lembranças do bairro de Pinheiros com uma frase de Eclea Bosi, que reflete, adequadamente, os sentimentos despertados em todos no processo de resgate e ressignificação destas histórias vividas, que complementam e enriquece a história oficial do bairro, parte importante da grande metrópole que hoje é São Paulo.

Há nos habitantes do bairro o sentimento de pertencer a uma tradição, a uma maneira de ser que anima a vida das ruas e das praças, dos mercados e das esquinas. A paisagem do bairro tem uma história conquistada numa longa adaptação2.

1. Projeto: Memória Viva – Cidadania Ativa realizado em parceria pela SMS/ COGest – área temática do idoso e NEPE-PUC/SP com patrocínio da Novartis Biociências, no período de outubro de 2003 a junho de 2004.

2. Trecho extraído do livro de Eclea Bosi – O Tempo Vivo da Memória – Ensaios de Psicologia Social. Ateliê Editorial, São Paulo, 2003 (p.76).

Ana Maria M. Pinto – fonoaudióloga
Rosana Burguez Diaz – enfermeira, da
Coordenadoria de Saúde de Pinheiros

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