O que é o Natal para você?

O que é o Natal para você?

Vivencias de pessoas idosas moradoras em uma comunidade quilombola. Será que para elas a chegada do Natal ocorre de maneira distinta?

Em colaboração com Marcelo Henrique Alves de Santana (*)


Independente do gênero, idade ou quaisquer outras variáveis, fato é, o clima de Natal chega para todo mundo. As luzem piscando, os enfeites nas paredes e os trajes característicos da estação trazem cor e vida a um dos momentos mais aguardados do ano. Nesse sentido, um questionamento importante que surge é: será que, para as pessoas idosas, a chegada do Natal ocorre de maneira distinta se comparado a outros grupos? Há algum aspecto a ser considerado que torna o processo diferente para essas pessoas? E quando falamos de pessoas idosas que vivem em locais diferentes, há variação? Compreender o que para esse público significa dar boas-vindas à Papai Noel, bem como suas nuances, é essencial para tornar o momento ainda mais mágico do que já é.

É notório o quanto para maioria das pessoas idosas a chegada do Natal tem um cunho fortemente ligado à religiosidade. Isso, pois, a data representa nada mais, nada menos, que o nascimento de Jesus Cristo. Quando se fala de Brasil, um país que tem uma população 74% católica, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tal sentimento é ainda mais perceptível. Assim, é bastante esperado que o momento natalino seja plenamente tomado pela emoção e pela lembrança do surgimento daquele que para muitos representa o maior símbolo de amor.

As experiências do Natal vividas a partir de certa idade passam a tomar uma conotação diferente. O foco das pessoas idosas passa a não ser a bebida ou a festança propriamente dita, como vivenciam o feriado a maioria dos indivíduos mais jovens, mas sim a grandíssima oportunidade de reunir toda família em um ato comemorativo. Os lemas “paz, amor, saúde e prosperidade”, tão costumeiramente falados, passam a ganhar um valor ainda mais significativo e palpável em momentos como esses. Comemorar a vida para a maioria das pessoas idosas passa a ser o cerne do dia natalino.

O Natal em Terras Quilombolas

Há de se considerar, ainda, que até mesmo dentro do público idoso podemos distinguir as experiências com o Natal a partir do local de vida dessas pessoas, seja por aqueles que moram na cidade grande, interior, sertão, entre outros locais. Desse modo, podemos destacar aqueles que vivem em terras históricas, como as Terras Quilombolas ou Terras Remanescentes de Quilombo.

No que diz respeito a essa temática, não é comum falarmos exatamente desse setor da população, haja vista historicamente haver uma perspectiva mais homogeneizadora a partir da suposição de que, por serem pessoas idosas, todos possuem as mesmas minúcias. E não é. Sendo assim, será que as pessoas idosas de terra histórica possuem algo de diferente em relação ao Natal?

Visando apurar tal fato, entrevistamos o senhor Rafael Alves, de 87 anos, nascido e criado no Camucim, terra remanescente de quilombo, a qual fica na cidade de Arez, no interior do Rio Grande de Norte, a aproximadamente 50 km da capital Natal. Questionado sobre como é viver o Natal na sua comunidade, seu Rafael respondeu:

“A gente que tem essa idade, no meu caso eu já tenho 87 anos, já não saio mais para outros cantos, tenho a maioria dos nossos filhos casados, com filhos, com família construída e a maioria mora longe daqui, principalmente porque eu moro em terra distante da capital. Eu tenho 9 filhos e cada um mora em um lugar diferente, alguns até próximos, outros não tanto, outros netos em outro estado. Então o Natal surge como a oportunidade para reencontrar minha família, ver meus filhos, meus netos e estar junto com todo mundo. Ver todo mundo na minha casa, naquela bagunça, falaria, comendo e se divertindo é o que me traz felicidade. Já que eu não tenho como sair, devido os problemas de saúde, então eles vindo até minha casa trazendo essa alegria toda, já me deixa satisfeito”.

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A respeito disso é importante ressaltar que nas comunidades quilombolas, tal como a do Camucim, a data do Natal é cercada por fortes ritos tradicionais característicos da cultura do lugar, vindos de longos anos e que permanecem até os dias atuais. Um deles, por exemplo, consiste no ato de na véspera do Natal reunir a família de manhã e fazer a comida todos juntos, com uma elaboração mútua em que a parentela inteira participa da produção das comidas.  Posteriormente, à noite, se reúnem geralmente na casa dos patriarcas e/ou matriarcas para cear a comida concebida mais cedo. Uma ressalva importante é que todos só podem saborear os pratos a partir da meia noite em diante, isto é, quando de fato o relógio sinalizar que finalmente chegou o dia 25 de dezembro. Ou seja, há uma espera em forma de sacrifício que sempre é respeitada por todos os membros da família.

Assim, fica evidente o quanto a pessoa idosa exerce papel fundamental nessa data, afinal, desde a preparação para a festividade até a celebração dela, no Camucim, tudo ocorre em torno desses senhores e senhoras, pois são eles que mantêm a efetivação e, consequentemente, a transmissão dessa prática histórica.

Convém lembrar, também, que se tratando de um lugar pequeno, onde todos os habitantes ou pelo menos a grande maioria deles se conhecem, o clima de familiaridade é ainda mais intenso. Abraços, sorrisos e felicitações passam a ter um delineamento ainda mais emotivo, até porque o senso de coletividade impera, uma vez que durante uma vida toda dividiram as mesmas ruas, escolas e postos de saúde, de forma que até desconhecidos tornam-se parentes, sobretudo nesses momentos festivos, e o que passa a ser importante é a comemoração às boas novas.

Por fim, compreendemos que certamente não apenas para seu Rafael, mas também para as demais pessoas idosas do Camucim, o Natal representa a vida em sua essência. É a data em que o amor de Cristo pela humanidade é relembrado e traz à tona o verdadeiro sentido da existência. É a ocasião em que os pais, anciões, podem sentar-se à mesa e comer com seus filhos, costumes de antigamente, mas que no do dia a dia vão passando despercebido, todavia o Natal, com todo seu encanto e sutileza, é capaz de proporcionar.

Referencias
FGV: https://www.cps.fgv.br/cps/simulador/site_religioes2/Clippings/jc288.pdf

(*) Marcelo Henrique Alves de Santana- estudante de medicina no Centro Universitário São Camilo SP e morador em Camucim

Foto destaque de Jeswin Thomas/pexels.


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/novo/cursos/cuidador-ilpi/

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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