O novembro azul e nossas escolhas

O novembro azul e nossas escolhas

O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum em homens no Brasil. A incidência é maior em homens com mais de 65 anos


O Instituto Nacional do Câncer (INCA), órgão do Ministério da Saúde, estima mais de 70 mil novos casos de câncer de próstata, no Brasil, para o triênio 2023-2025. Este número representa 10,2% do total de novos casos de câncer esperados para o período. Um exagero. O câncer de próstata é o segundo tipo de câncer mais comum em homens no Brasil, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. A incidência é maior em homens com mais de 65 anos, sendo raro antes dos 40 anos. Por isso, os médicos consideram que a prevenção deve ter início nessa faixa etária, em torno dos 40 anos.

O diagnóstico precoce é essencial para o tratamento eficaz do câncer de próstata. O exame de toque retal é o método mais recomendado para a detecção do câncer em estágio inicial. O PSA (antígeno prostático específico) é outro exame que pode ser usado para o diagnóstico, mas não é tão preciso quanto o toque retal.

E por que os homens são tão resistentes ao exame clínico, o famoso toque retal? Meu pai teve uma prostatite aos 50 e poucos anos. A prostatite é uma inflamação na próstata, bacteriana ou não, tratada com medicamentos. Mas isso acendeu a luz amarela para ele. Machão e valentão que era, teve que se render aos cuidados de um urologista.

Pensa que morte
É só choro e sofisma?
Pensa errado!
(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)

Ele se tratou e passou a colocar a atividade física em sua rotina diária. Por sorte não bebia além de sua dose diária, nem fumava. Começou a nadar, lembrando seus tempos de juventude morando em beira de rio, depois descobriu a dança. Frequentava, quase diariamente, as casas de dança com horários dedicados às pessoas idosas. Ele rejuvenesceu alguns anos. Faleceu aos 85, com sequelas de um outro tipo de câncer, o do intestino.

Voltando aos dados do INCA, algumas questões sobre as causas do câncer de próstata nos chamam a atenção. Em primeiro lugar, lógico, a idade. O câncer de próstata aparece mais em homens idosos. Mas, podemos envelhecer sem adoecer. Envelhecer é uma dádiva, com cuidados especiais à nossa própria pessoa fica melhor ainda. Eu, particularmente, não espero novembro chegar para me cuidar. Em fevereiro, mês de meu aniversário, dou-me de presente um checkup completo, incluindo o exame PSA, que se mantém estável há décadas, e o toque retal.

O segundo fator de risco é o histórico familiar. Se entre seus ancestrais, ou parentes mais velhos, há uma incidência de problemas na próstata, não deixe de se cuidar. O terceiro fator é a obesidade. Aquela história de que sua cintura deve ter menos de 1 metro é verdadeira. Na realidade, divida a medida de sua cintura pela medida de seu quadril, se o resultado for maior que 0,9, cuide-se. Sua barriga não pode ser maior que seu traseiro. Pessoas magras tem menos problemas de saúde que as obesas e vivem mais. Nunca vi um centenário obeso.

O quarto fator de risco é a alimentação rica em gorduras e carnes vermelhas. Se você é adepto daquele churrasco de picanha gorda todo fim de semana, atenção. Até pode ser, mas precisa colorir o prato em várias cores durante a semana. Todo prazer tem seu custo. Além do prato colorido, que tal uma caminhada, aqueles 10.000 passos diários? A inatividade física é o quinto fator de risco para esta e outras doenças, não apenas dos homens.

O sexto fator de risco é curioso e um tanto complicado em um país tão racista como o nosso: a cor da pele. Os homens negros (pretos e pardos) correm maior risco (mais de 50% a mais) de contrair câncer de próstata que homens brancos. As causas ainda não são bem conhecidas, mas sabemos bem que as condições de vida da população negra, no Brasil, são bem piores, em média, que as da população branca. Logo, os fatores ambientais superam, no caso, os fatores genéticos. Há ainda um fator hormonal. Os níveis de testosterona são mais altos nos homens negros. E esse hormônio masculino pode estar relacionado ao desenvolvimento de câncer, não só de próstata, segundo pesquisas mais recentes. Logo, homens pardos e pretos, precisamos ser duplamente cuidadosos.

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As escolhas são de duas naturezas: individual e social

O mês de novembro, ainda primavera, mas com temperaturas se elevando aos poucos, tem o céu às vezes azul, às vezes cinza, já que as chuvas são frequentes nesta data. Neste ano as previsões climáticas são turbulentas. No caso de nossa saúde, no entanto, temos escolhas. O novembro pode ser azul para as prevenções necessárias ao diagnóstico e tratamento do câncer de próstata. As escolhas são de duas naturezas: individual e social.

As escolhas individuais são mais óbvias e já muito comentadas no Portal do Envelhecimento. A prevenção individual nos coloca frente a escolhas que fazemos em relação ao nosso modo de vida. Manter um peso saudável, muito embora a obesidade seja também uma questão de saúde pública. Comer comida de verdade, seguindo uma dieta saudável, evitando produtos industrializados, é fundamental. Além de ser um fator importantíssimo na prevenção, ajuda a manter-se magro. Outras escolhas muito importantes são a atividade física regular, uso moderado ou nulo de bebidas alcóolicas e a ausência do fumo em sua rotina.

Já as escolhas coletivas, ou sociais, são as mais importantes e necessárias a serem feitas, e passam pelo poder público. Em artigo publicado recentemente neste Portal, em outubro passado, já colocava a prevenção como importante estratégia de controle do câncer.

Algo que ainda não aprendemos, e precisamos fazê-lo forçosa e rapidamente, é que a prevenção é muito mais barata que os tratamentos contra o câncer. No Brasil, e em vários outros países, o gasto público com o atendimento especializado é muitas vezes maior que o gasto com a prevenção. Especializamo-nos cada vez mais no combate às doenças e menos aos cuidados preventivos da saúde. E a prevenção se faz com informação, com educação, com letramento nas questões de saúde e prevenção, com fácil acesso às unidades básicas de saúde, com melhores condições ambientais de vida e trabalho, principalmente para a população negra e pobre.

Só assim nossos futuros NOVEMBROS serão AZUIS.

O viver, mesmo,
É o aprender a viver.
Isso é mesmo.
(Paulo Cezar S. Ventura – “Haicais do Riobaldo”)

Foto destaque de Barbara Olsen/pexels.


Paulo Cezar S Ventura

Graduado (UFMG) e Mestre (USP) em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e da Informação, pela Université de Bougogne, em Dijon, França. Exerceu a profissão de professor, no CEFET-MG, onde dirigiu o LACTEA – Laboratório Aberto de Ciência, Tecnologia, Educação e Arte. Hoje se dedica à literatura e se identifica como poeta, cronista, contista e editor da Rolimã Editora Ltda. Autor de diversos livros. Participa do Movimento Vidas Idosas Importam e é membro da Academia Novalimense de Letras. [email protected] - @paulocezarsventura

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Paulo Cezar S Ventura

Graduado (UFMG) e Mestre (USP) em Física, e Doutor em Ciências da Comunicação e da Informação, pela Université de Bougogne, em Dijon, França. Exerceu a profissão de professor, no CEFET-MG, onde dirigiu o LACTEA – Laboratório Aberto de Ciência, Tecnologia, Educação e Arte. Hoje se dedica à literatura e se identifica como poeta, cronista, contista e editor da Rolimã Editora Ltda. Autor de diversos livros. Participa do Movimento Vidas Idosas Importam e é membro da Academia Novalimense de Letras. [email protected] - @paulocezarsventura

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