Por mais meditação e oração, que tranquilizam, tem um quê no ar que não nos deixa em paz. Sentimentos que oscilam. O futuro é agora?
Ione Almeida (*)
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Mais uma semana de isolamento social. Nessa altura as redes sociais já cansaram. Assistimos a uma pandemia de informações e, sobretudo, de fakenews. A casa já foi toda arrumada e desarrumada, a rotina estabelecida: exercícios físicos, meditação, banho de sol, limpar, lavar, cozinhar, ler, assistir filmes, comer, rezar e dormir.
Os sentimentos são incongruentes: vem a calma e logo em seguida bate a insegurança; medo de pegar o vírus; medo pelos filhos; família; amigos. Há uma interrogação no ar, que não quer calar: por mais meditação e oração, que tranquilizam, tem um quê no ar que não nos deixa em paz. Posso até estar passando bem pelo isolamento social, e as demais pessoas? As que estão doentes; as que perderam seus entes queridos; os que estão cuidando dos doentes; as lideranças que precisam tomar decisões dificílimas… como está toda essa gente?
Então vejo minha calma envolvida por uma sombra. Se espanto a sombra e ela vai embora, basta um descuido e já está de volta. Às vezes demora um pouco a voltar, porque de repente nos concentramos em afazeres mil, mas ela volta quando nos pegamos desprevenidos. É um vaivém de sentimentos, um esforço constante para se harmonizar, se acalmar e pensar no futuro com fé e esperança.
Fé e esperança porque sei que tudo vai passar, mas não sabemos quando. E essa incerteza é que acaba com todos nós. Porque passamos anos acreditando que temos o controle das coisas, da vida. Aí surge um novo vírus e deixa tudo de ponta cabeça. O mundo se curva e nos damos conta que não controlamos nada. Muito menos a vida.

Essa fragilidade, escancarada, nos deixa muito inseguros, apreensivos. Por mais que façamos tudo para nos acalmar e até conseguimos, por um tempo, a dúvida volta de novo e de novo. Penso que o antídoto é viver o agora. Li sobre essa questão e considero que é a uma boa maneira de ficar mais tranquilo. Vivenciar o momento, o que estamos falando, fazendo, o que nos faz rir e chorar e tirar o máximo das relações próximas e das que conseguimos estabelecer mesmo à distância.
Isso nos preenche, nos alimenta, nos dá vida e, sobretudo, esperança. Isso o vírus não nos tirou e não vai tirar. Podemos não saber muito sobre o futuro, mas podemos, sim, viver plenamente o presente.
(*) Ione Lucia Florêncio de Almeida, 70 anos, mestre em Administração de Empresas, lecionou na FGV, FIA e ESPM, executiva por mais de 25 anos na área de marketing, consultora em Marketing de Relacionamento, Marketing de Serviço, Inteligência de Mercado e Comportamento do Consumidor.
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