O tema do ENEM 2025 é um reconhecimento da urgência e da complexidade dessa questão para a construção de um Brasil que saiba valorizar e integrar todas as idades.
O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, revela uma escolha extremamente pertinente e fundamental para o debate público no Brasil. Estava mais do que na hora. Repetimos aqui o que Marcia Monteiro escreveu em seu LinkedIn:
“Que bom acender os HOLOFOTES sobre questões como as transformações e a inclusão no mercado de trabalho, a valorização da experiência e do conhecimento, a intergeracionalidade em todos os campos, políticas públicas de saúde, adaptação da infraestrutura das cidades e moradias, inovação na economia prateada, quebra de estereótipos de comportamento e o combate ao idadismo em todas as suas formas!”.
Assim como ela, adoraria ler algumas centenas dessas redações. O que será que escreveram? O que pensam sobre seu futuro, sua velhice?
Longe de ser apenas um exercício acadêmico, a abordagem desse tema na prova de maior abrangência educacional do país é um convite urgente à reflexão sobre um dos fenômenos demográficos mais transformadores e complexos que a nação enfrenta: o rápido envelhecimento de sua população.
Diante da relevância incontestável do tema do ENEM 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, e os textos motivadores, torna-se urgente que nossos políticos, imersos no período de campanha eleitoral, aprofundem-se nesta discussão. Que não apenas a compreendam em sua complexidade, como se espera que façam a própria redação, mas que, sobretudo, elevem o envelhecimento a uma pauta central e inegociável em suas agendas políticas. Mais do que isso, é crucial que garantam a destinação de recursos orçamentários suficientes para que as políticas públicas destinadas às pessoas idosas não permaneçam como letra morta, mas se concretizem em ações eficazes e transformadoras para o futuro do país.
A relevância desse assunto para o futuro do país é multifacetada, tocando em pilares econômicos, sociais, de saúde, infraestrutura e, intrinsecamente, na própria cultura e na forma como nos relacionamos com as diferentes gerações e encaramos as nossas velhices.

O portal G1, por exemplo, publicou uma matéria em formato de painel abordando o acelerado processo de envelhecimento populacional no Brasil e seus impactos. Embora reconheça que esse fenômeno é perceptível desde a década de 1960, o artigo destaca a necessidade de profissionais qualificados para atender a essa demanda crescente. Contudo, a matéria omite ou não aborda a negligência governamental em relação à população idosa ao longo desses 60 anos, apesar da legislação existente.
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Ou seja, apesar da existência de legislações como a Política Nacional do Idoso, o Estatuto da Pessoa Idosa e a Política Nacional de Cuidados, o país carece de serviços essenciais, como centros de convivência, centros-dia, Instituições de Longa Permanência e repúblicas para idosos. Além disso, não há políticas eficazes de formação e qualificação de profissionais, nem financiamento público adequado para esses serviços. As instituições filantrópicas enfrentam altos custos operacionais, tornando difícil o equilíbrio financeiro, enquanto os serviços privados são inacessíveis para a maioria dos idosos e suas famílias.
A estrutura familiar também sofreu mudanças significativas: famílias menores, ausência de parentes solteiros que tradicionalmente assumiam o papel de cuidadores e a redução no número de filhos dispostos ou capazes de cuidar dos pais idosos. Esses fatores contribuem para um cenário preocupante, que exige atenção imediata para evitar consequências ainda mais graves para toda a sociedade.
Mas entre as principais matérias publicadas na grande mídia que falaram do tema, assinalamos a seguir os principais aspectos que foram levantados, sugerindo também algumas leituras a fim de contribuir para uma maior compreensão do tema que é extremamente importante para o país:
A transição demográfica
O envelhecimento em números foi destaque comum em todas as manchetes dos grandes jornais do país. Ou seja, não dá mais para não olhar para esse grande fenômeno chamado envelhecimento. Nosso colaborador, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves vem apontando isso nestes últimos anos aqui no Portal do Envelhecimento. Inclusive, no II Congresso Internacional Envelhecer com Futuro, realizado no final de outubro dentro do Fórum São Paulo da Longevidade, ele palestrou a respeito. Segundo ele, sem dúvida essa é a maior mudança da dinâmica demográfica brasileira no século XXI e pode ser analisada de inúmeras maneiras. Ele, inclusive, postou na sua rede do Linkedin alguns de seus artigos publicados no Portal sobre o tema e um gráfico(que reproduzimos abaixo) mostrando a virada demográfica. Esse gráfico, por si só, é um alerta que exige a atenção de todos os setores da sociedade.

O envelhecimento populacional não é um problema a ser resolvido, até porque envelhecer não é um problemas, mas uma realidade repleta de problemas e que deve ser compreendida e gerida, com seus desafios e suas oportunidades. Ignorar essa tendência é comprometer o desenvolvimento sustentável e a coesão social do país nas próximas décadas.
A importância de discutir o envelhecimento começa na compreensão de que ele afeta a todos, não apenas as pessoas idosas de hoje. As crianças de hoje serão os idosos de amanhã, e a forma como a sociedade se prepara para esse futuro que será velho impactará diretamente a qualidade de vida de futuras gerações. Portanto, o tema do ENEM 2025 coloca em evidência a necessidade de um olhar prospectivo e estratégico para a construção de um Brasil que saiba valorizar e integrar todas as faixas etárias.
O combate ao etarismo
Outro destaque abordado pela mídia a partir do tema da redação foi a necessidade de combater o idadismo, ou seja, o preconceito contra pessoas idosas. Este tipo de discriminação se manifesta de diversas formas, desde piadas depreciativas até a exclusão social e a negação de oportunidades. O idadismo não apenas prejudica a autoestima e a saúde mental das pessoas idosas, mas também impede que a sociedade se beneficie plenamente de sua sabedoria, experiência e capacidade de contribuição.
É fundamental promover uma mudança cultural que valorize a velhice como uma etapa natural da vida, rica em potenciais e significado. Campanhas educativas e políticas públicas têm um papel crucial nesse processo, desafiando estereótipos negativos e celebrando a diversidade das experiências de vida nessa etapa da existência humana. A dignidade na velhice deve ser um direito inalienável, e o Brasil precisa garantir que seus cidadãos mais velhos sejam tratados com respeito, tenham acesso a direitos e possam participar ativamente da vida social, política e cultural.
Propomos aqui algumas leituras úteis que contribuem para o combate ao idadismo, a partir de informações qualificadas sobre o processo de envelhecimento. No site do Portal do Envelhecimento e do Itaú Viver Mais o leitor pode baixar gratuitamente esses e outros materiais:
1) Cartilha: O QUE É – conceitos básicos para entender o envelhecimento – Como o envelhecimento é um processo natural que faz parte de nossa vida, é preciso saber os termos básicos, inclusive algumas siglas, para que possamos falar a respeito sem ofender, excluir e/ou marginalizar as pessoas que já passaram dos 60 anos. Procurar saber, compreender e se atualizar é fundamental para combater o autoidadismo.
2) Pequeno Manual Anti-idadista – reúne a contribuição de diversos especialistas que exploram o idadismo em suas múltiplas dimensões — desde suas manifestações cotidianas até os impactos no mercado de trabalho, na saúde, na comunicação e nos direitos das pessoas idosas. Com linguagem acessível e exemplos práticos, a obra propõe reflexões e caminhos para enfrentar o preconceito etário e fortalecer uma postura ativa em prol da dignidade em todas as fases da vida.
Infraestrutura, acessibilidade e a construção de cidades amigáveis
A forma como nossas cidades são planejadas e construídas foi também destacado em algumas matérias jornalísticas, pois entra em xeque com o tema do envelhecimento. Muitas metrópoles brasileiras, senão a maioria, são hostis às pessoas idosas, carecendo de transporte público adaptado, calçadas seguras e acessíveis, e espaços de convivência que promovam a inclusão social e o exercício da cidadania. A falta de acessibilidade urbana não apenas limita a mobilidade e a autonomia das pessoas idosas, mas também as isola, privando a sociedade de sua experiência e contribuição.
A discussão sobre “perspectivas acerca do envelhecimento” nos força a imaginar e a projetar cidades mais inclusivas e amigáveis para todas as idades. Isso significa investir em urbanismo que considere as necessidades dos mais velhos, desde a iluminação pública até a disponibilidade de bancos em praças e parques e, claro, segurança. A acessibilidade não é apenas uma questão de rampa, mas de uma mentalidade de design universal que beneficie a todos, de crianças a idosos, de pessoas com mobilidade reduzida a pais com carrinhos de bebê.
Mercado de trabalho, educação e a valorização da experiência
Outro ponto crucial destacado é o mercado de trabalho. O preconceito etário, ou idadismo, muitas vezes leva à marginalização de profissionais mais velhos, que são vistos como menos produtivos ou adaptáveis. No entanto, a experiência e o conhecimento acumulados por esses indivíduos são ativos valiosos que o país não pode se dar ao luxo de desperdiçar. O tema do ENEM 2025 nos convida a repensar a lógica do ciclo de vida profissional, promovendo ambientes de trabalho que valorizem a diversidade etária e que adaptem suas estruturas para integrar profissionais mais velhos.
Programas de educação continuada e requalificação profissional se tornam essenciais para manter esses indivíduos ativos e produtivos, permitindo-lhes atualizar suas habilidades e permanecer relevantes em um mercado de trabalho em constante evolução. A troca intergeracional no ambiente de trabalho é uma fonte rica de inovação e aprendizado mútuo, quebrando estereótipos e construindo pontes entre diferentes visões de mundo.
Os desafios socioeconômicos
Um dos aspectos mais levantados e destacados na grande mídia pelo tema é o impacto do envelhecimento nos sistemas socioeconômicos do país. Por exemplo, a sustentabilidade da Previdência Social exige reformas profundas e soluções inovadoras, pois não dá para seguir com a mesma lógica quando temos hoje uma base contributiva potencialmente menor – devido à redução da população economicamente ativa – e um número crescente de “beneficiários”. É fundamental, portanto, debater como garantir a aposentadoria e a segurança financeira das pessoas idosas sem sobrecarregar as gerações futuras ou comprometer o crescimento econômico. Isso implica em repensar modelos de contribuição, incentivar a permanência no mercado de trabalho de forma flexível e promover a educação financeira ao longo da vida, entre outros.
Paralelamente, o sistema de saúde brasileiro foi outro tema destacado, pois enfrentará demandas sem precedentes. O envelhecimento da população está intrinsecamente ligado ao aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e neurodegenerativas. O Sistema Único de Saúde (SUS), que já lida com gargalos significativos, precisará de investimentos massivos em infraestrutura, recursos humanos especializados em geriatria e gerontologia, e, principalmente, em políticas de prevenção e promoção da saúde que visem uma longevidade com qualidade de vida. A discussão sobre a telemedicina, o cuidado domiciliar e a integração de diferentes níveis de atenção à saúde se torna ainda mais vital neste cenário.
Um futuro a ser construído juntos
Enfim, a escolha do tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” para a redação do ENEM 2025 é um reconhecimento da urgência e da complexidade dessa questão para o Brasil. É um convite para que milhões de jovens estudantes, futuros líderes, gestores e cidadãos ativos, reflitam criticamente sobre como desejamos construir uma sociedade mais justa, equitativa e preparada para o desafio que a longevidade nos impõe.
O futuro do Brasil dependerá, em grande parte, de sua capacidade de integrar e valorizar sua população idosa, garantindo que o envelhecimento seja sinônimo de qualidade de vida, dignidade e participação ativa. Este tema é sobre o futuro de todos os brasileiros, sobre a forma como concebemos a solidariedade intergeracional e sobre a resiliência e adaptabilidade de nossas instituições frente às transformações demográficas. É uma pauta para o presente, com impacto direto no legado que deixaremos para as próximas gerações.
A discussão sobre o envelhecimento populacional, como visto no tema do ENEM 2025, leva-nos naturalmente a pensar em quais políticas públicas podem e devem ser implementadas para garantir dignidade, saúde e participação social à população idosa.
Serviço
O Portal do Envelhecimento tem muitos livros gratuitos e não gratuitos que estão totalmente disponíveis, além de cursos (inclusive gratuitos), matérias diárias e artigos mais reflexivos (Revista Longeviver e Kairós-Gerontologia) que contribuem para o letramento a respeito do processo de envelhecimento: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/novo/
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Em tempo
Nos dias que precederam a prova, as redes do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), instituição governamental responsável pela aplicação do exame, publicaram spoilers sutis do tema da redação: imagens (ver a seguir) e vídeos com estética ‘idosos na web’, mas os spoilers não foram percebidos.



Atualizado às 17h33

Inscrições: www.even3.com.br/sib-603415