Espiritualidade, religiosidade e perdão: recursos simbólicos que ajudam a reorganizar a vida

Espiritualidade, religiosidade e perdão: recursos simbólicos que ajudam a reorganizar a vida

Estudo argentino mostra como a dimensão espiritual pode funcionar como apoio para reorganizar a vida e a identidade de quem enfrenta o luto.


O luto, em qualquer idade, mexe profundamente com a forma como cada pessoa percebe a si mesma, seus vínculos e seu lugar no mundo, mas na velhice, quando as perdas se tornam mais frequentes e a vida já acumula longas trajetórias, esse impacto pode ser ainda mais intenso. É o que trata o artigo Espiritualidad, religiosidad y perdón en la reconstrucción identitaria del duelo en personas mayores, de Franco Morales, publicado na última edição da Revista Kairós-Gerontologia.

O artigo analisa como espiritualidade, religiosidade e perdão se tornam elementos essenciais na reconstrução identitária de pessoas idosas que enfrentam o luto, mostrando que essas dimensões não são apenas crenças abstratas, mas recursos simbólicos que ajudam a reorganizar a vida quando ela parece ruir.

A partir de uma revisão teórica profunda, o artigo destaca que o luto não é apenas uma reação emocional, é um processo que desestabiliza o enredo de vida que a pessoa vinha construindo. Cada um vai costurando lembranças, escolhas, papéis e afetos para formar uma história coerente, constituindo assim a identidade.

Quando alguém importante morre, parte desse enredo se desfaz. É nesse ponto que entram a espiritualidade e a religiosidade, entendidas como linguagens que oferecem sentido, continuação simbólica e amparo emocional em momentos de ruptura.

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Como as pessoas idosas encontram caminhos para reconstruir quem são depois da perda?

As pessoas idosas se apoiam em elementos espirituais para reorganizar internamente aquilo que se rompeu. A espiritualidade mais ampla e não necessariamente ligada a instituições religiosas, permite elaborar a perda dentro de uma visão de continuidade da vida, de transcendência, de propósito. 

Já a religiosidade, quando presente, oferece rituais, comunidade, práticas, encontros e uma estrutura simbólica já conhecida, que ajuda a sustentar o cotidiano em um momento desorientador.

O perdão aparece como um terceiro eixo, ele não se refere apenas a perdoar o outro, mas também a si mesmo, pela culpa, pelos conflitos não resolvidos, pelas conversas que não aconteceram, pelos sentimentos ambíguos que muitas vezes surgem na morte de alguém próximo. 

O artigo traz que o perdão, nessa perspectiva, é um processo libertador que permite que a pessoa reorganize a própria história sem a carga paralisante de mágoas antigas. O perdão ajuda a restaurar a continuidade da narrativa quando ela ficou presa em dores não simbolizadas.

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A velhice costuma intensificar a busca por significados,  não porque as pessoas fiquem “mais religiosas”, mas porque, diante da finitude e das perdas, crescem as perguntas sobre sentido, legado, vínculos e continuidade. A espiritualidade se torna então uma linguagem potente para falar do que não cabe nas palavras, na ausência, na saudade, na memória e na transformação que o luto impõe. 

Para muitas pessoas idosas, rezar, meditar, lembrar, acender uma vela ou simplesmente conversar com quem partiu são formas de manter viva a presença simbólica e, ao mesmo tempo, seguir adiante.

Outro ponto importante do artigo é que a reconstrução identitária não significa “superar o luto”, mas reorganizar a vida com a presença da perda,  nessa  narrativa da velhice, a pessoa idosa não busca apagar o que aconteceu, mas integrar a experiência ao seu percurso, dando-lhe um lugar possível. 

A espiritualidade e o perdão ajudam justamente nisso: permitem que a perda deixe de ser um abismo e se transforme numa travessia. A identidade não volta a ser a mesma, ela se reconfigura, incorpora novas compreensões, reconhece a vulnerabilidade e amplia o sentido do vivido.

O luto na velhice é um processo relacional e simbólico, ele exige tempo, escuta, delicadeza e, muitas vezes, uma abertura para dimensões que não se explicam pela lógica objetiva. A espiritualidade, religiosidade e perdão são, nesse contexto, caminhos possíveis para reconstruir a narrativa de vida quando ela parece ter perdido seu fio. 

E, como destaca o autor, acompanhar esse processo com respeito e sensibilidade é uma forma de cuidado tão importante quanto qualquer intervenção prática, é reconhecer que, mesmo diante da perda, a pessoa idosa continua vivendo e  transformando novos modos de seguir.

Leia o artigo completo, disponível em: https://kairosgerontologia.com.br/index.php/kairos/article/view/155

Morales, F. Espiritualidad, Religiosidad y Perdón en la Reconstrucción Identitaria del Duelo en Personas Mayores. Revista Kairós-Gerontologia, V. 28, N. 2, 6 Nov. 2025.

Foto de Milada Vigerova/pexels.


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