Finalmente um jornal de importante circulação, Folha de S.Paulo, na reportagem de Trajano Pontes, dá destaque ao que ele chama “Vovôs do stand-up”. Quem seriam os tais senhores? Nada mais, nada menos que Ary Toledo, 75, Juca Chaves, 74, Carlos Drummond, 93 e Sergio Rabello, 33 de carreira (não revela a idade).
Mas antes de falarmos das diferenças e semelhanças entre a velha e a jovem guarda do humor, é importante esclarecer o termo que, diga-se de passagem, é muito usado atualmente para todo e qualquer tipo de comédia.
Definição: Stand-up
Comédia “stand-up”, vindo do inglês “stand-up comedy” é um termo que designa um espetáculo de humor executado por apenas um comediante, que se apresenta geralmente em pé (daí o termo “stand-up”), sem acessórios, cenários, caracterização, personagem ou o recurso teatral da quarta parede, diferenciando o stand-up de um monólogo tradicional. O próprio material tem uma metodologia própria de organização, em tópicos, não obstante sendo bastante factual. O estilo é também chamado de “humor de cara limpa”, termo usado por alguns comediantes.
Entretanto, ainda há grande confusão na diferenciação do “humorista stand-up” e de outros estilos, como o contador de piadas, o monólogo de humor, o “one man show”, gênero semelhante, mas que permite outras abordagens (interpretação de personagens, músicas, cenas).
O “humorista stand-up” não conta piadas conhecidas do público (anedotas). O texto é sempre original, normalmente construído a partir de observações do dia a dia e do cotidiano. Ainda, as habilidades necessárias para ser um “stand-up comedian” são diversas. É comum que se assuma de forma solitária os papéis de escritor, editor, artista, promotor, produtor, e técnico simultaneamente. É verdade, não existem muitas regras sobre os assuntos e abordagens, o que permite uma constante evolução. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9dia_stand-up)
O que dizem os “Senhores do Stand-up”
Ary Toledo: “Não existe piada velha, mas gente velha que a conhece. Meu consolo é esse: para as pessoas que vão nascer, minhas piadas são novíssimas”.
Ativo, 50 anos de carreira, Ary circula fazendo shows e participações no programa de Silvio Santos, no SBT. Sempre com seu estilo irreverente e trabalhando no improviso, algo bem difícil, o humorista de 75 anos acontece e surpreende tanto “gente velha” e mais do que nunca, “gente nova”.
Hoje é o poder da telinha e a invasão da internet que produzem instantaneamente estrelas, do anonimato dos bares ao olimpo da TV. Claro, não podemos esquecer o talento, mega reforçado pela mídia.
E os nomes do passado que, como dissemos, que hoje estão na ativa? Como lembra Trajano, “Alguns desses pioneiros clamam para si e antecessores seus a primazia nesse tipo de humor”.
Ary destaca José Vasconcelos (1926-2011), “o primeiro showman’ brasileiro”. O humorista de Rio Branco, no Acre (“O quê?! Nasce gente lá?!”, brincava em seus shows, na vanguarda dos que duvidam gaiatos da existência do Estado), seria o precursor do estilo no Brasil, nos anos 1950.
Trajano conta que “durante mais de uma hora de conversa animada e fluida, Ary cita amigos saudosos que, segundo ele, ajudaram a construir o gênero, tais como Golias (1929-2005), Costinha (1923-2005) e Chico Anysio (1932-2012).
Em tom sarcástico, Ary esclarece: “O stand-up não é americano. Os da nova geração que pensam assim não fazem por mal, mas por desinformação. Respondo com as palavras de Cristo na cruz: Pai, perdoai-os! Eles não sabem o que fazem”.
Já Sergio Rabello, mesmo reconhecendo alguns novos talentos, define o cenário assim: “Um humorista fazendo humor em pé, sem caracterização, sem sonoplastia, sem figurino, sem cenografia (e, na maioria das vezes, sem graça)”.
Trazendo os pioneiros do stand-up, Rabello diz: “Sempre existiu sem um termo que definisse. Juca Chaves já fazia há mais de 50 anos, até sem sapato. Vasconcelos fazia de cara limpa e também Jô Soares, Chico, Agildo Ribeiro e Paulo Silvino”.
A irreverência de Ary impera quando fala dos mais jovens, alguns já famosos como Rafinha Bastos (aliás, um dos mais comentados, para o bem e para o mal), Danilo Gentili e Marcelo Medici. Ary critica: ele vê muita quantidade para pouca qualidade. “No meu tempo, dava para contar os humoristas nos dedos… do Lula! Hoje, dá para contar nos dedos dos pés… da centopeia!”.
O passado e sua graça eterna
Segundo Ary, a longevidade do seu show está na mistura de piada, mímica, efeitos especiais e música: “Os stand-upeiros’ não têm esses ingredientes; fazem uma coisa só”.
Com 58 anos de carreira, Juca Chaves, 74, destaca a polivalência: “A Ana Carolina disse na capa da ‘Veja’ que era bi[ssexual], e daí?. Eu sou tri: faço sátiras, modinhas e humor”.
Crítico, Juca não deixa por menos: usa e abusa da acidez de seu humor elegante quando fala dos stand-ups jovens: “É o karaokê do humor. Eles põem umas calças jeans, falam uns palavrões e acham que são o novo. O pior é que o público ri”.
Orlando Drummond, 93, famoso pelo personagem “Seu Peru”, lembra da parceria com Ivon Curi (1928-1995). “Durou três anos. Já tinha feito alguma coisa antes, com o Chico Anysio, mas foi com Curi que dei continuidade”. Comenta Trajano que o humorista diz sentir falta de bons roteiros de humor, especialmente na TV. “Para fazer rir é preciso um bom texto; só uma cara engraçada não resiste ao tempo”.
Quanto a renovação, os experts do humor são unânimes: “Se não, nossos netos vão rir de quem?”, pergunta Toledo.
Stand-up, segundo os jovens humoristas
– Fabio Porchat, 29, do coletivo Porta dos Fundos, diz ser muito fã de Ary Toledo e da capacidade dele de ganhar o público com piadas já conhecidas. Mas diz que, “no stand-up, não se usa nenhum tipo de personagem; além disso, o texto tem que ser original”.
– Rafinha Bastos, 36, diz importar-se menos hoje em dia com definições ou regras que seu grupo estabeleceu quando começou a fazer shows há dez anos. “No começo, trilha sonora e efeitos de luz eram vetados. Hoje, ninguém é mais tão rígido assim”.
Rafinha diz admirar os criadores de uma cultura de humor muito antiga no país, sem os quais não haveria um mercado de humor.
“Carlos Alberto de Nóbrega, Juca, Rabello, Chico, TV Pirata. Respeito muito o Ary, que faz shows pelo Brasil inteiro com um humor que, talvez, não exija tanta referência quanto um stand-up. Talvez o conteúdo e a maneira de se colocar sejam diferentes, mas foram precursores”.
Referências
PONTES, T. (2013). Velha guarda do humor reivindica primazia. Disponível Aqui. Acesso em 28/04/2013.
PONTES, T. (2013). Vovôs do stand-up. Disponível Aqui. Acesso em 28/04/2013.
PONTES, T. (2013). Jovem guarda monopoliza palco na Virada. Disponível Aqui. Acesso em 28/04/2013.