As despedidas são difíceis, mas sempre necessárias. É impossível fechar um ciclo para dar início a novos caminhos, sem dizer adeus ao que ficará no passado.
Quase três meses se passaram e Yuri segue escutando Black Sabbath numa tentativa de se agarrar com força à sonoridade que ele bem sabe que não se findará.
A arte e a imortalidade são grandes amigas. Difícil é dar adeus ao que ainda poderia vir, se não fosse findado pela despedida.
Em 5 de julho deste ano, vimos o mais tocante show de encerramento do mundo da música.
O estádio Villa Park, em Birmingham, Inglaterra, estava lotado de fãs de Ozzy Osbourne, metaleiro do Black Sabbath que viveu uma vida turbulenta, repleta de vibrações audaciosas e perigosas.
Cerca de 42 mil pessoas estavam presentes para ver o músico se despedir dos palcos, sem falar nos milhões de espectadores que acompanhavam o show via livestream.
As despedidas são difíceis, mas sempre necessárias. É impossível fechar um ciclo — qualquer que seja ele — para dar início a novos caminhos, muitas vezes incertos, sem dizer adeus ao que ficará no passado.
O mais tocante dessa história é a grandeza desse artista, que foi capaz de fazer uso de uma absoluta verdade para viver o término de uma vida em que o palco sempre foi o seu chão.
Conhecido como “Príncipe das Trevas”, Ozzy termina sua carreira artística com muita luz — aliás, muito mais iluminado do que aqueles tantos que se dizem seres do bem sem o ser.

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Mais do que um adeus, a sua despedida foi uma ação solidária, cuja renda foi destinada às instituições Cure Parkinson’s, Birmingham Children’s Hospital e Acorn Children’s Hospice. Ozzy arrecadou muito dinheiro e encantou os fãs com uma força sobre-humana que venceu as dificuldades impostas pelo Parkinson e por todos os seus problemas de saúde.
Com a voz comprometida e com movimentos limitados, vimos um príncipe virar rei, tamanha dignidade e respeito ao seu público.
A emoção era visível e a carga emocional, devastadora, o que fez desse espetáculo um show histórico e emocionante.
Entre solos, clássicos imortais, aplausos e fogos de artifício, o legado de Ozzy Osbourne torna-se imortal.
O que não se imaginava é que a despedida dos palcos seria apenas o começo da maior delas.
Em 22 de junho deste mesmo ano, 17 dias após o show, Ozzy veio a falecer aos 76 anos de idade, em sua residência, cercado do amor da família.
A causa da morte demorou a ser divulgada, o que gerou estranhamento, já que o roqueiro se dizia a favor da morte assistida.
O atestado de óbito aponta como causa principal um infarto agudo do miocárdio e, mais uma vez, seu imenso público se reúne para prestar as últimas homenagens ao grande nome do rock, que fez nesta vida muito mais do que morder um morcego vivo.
Pensar em toda essa história nos faz entender a importância de encerrar etapas com dignidade.
Quando ciclos da vida se encerram, somos obrigados a dar adeus ao que é tão difícil abandonar
Aquele senhor não me sai da cabeça.
Triste saber que ele se despediu da vida mesmo antes de morrer. Cabisbaixo, está sempre olhando para o chão e a falta de cuidado com a higiene pessoal exala tristeza além do cheiro de descuido.
A arteterapia é uma maneira preciosa de entregar existência a ele, que sabe que tudo faz sentido quando desenhado. Ao desenhar, ele troca o chão — onde nada se vê — pelo papel, que se torna um portal que acolhe tudo o que ele quiser imaginar.
Também penso na senhora que vivia cantando samba e que precisou se despedir da mobilidade que um dia sambou na avenida. Não aguentou a imóvel tristeza e, como por piedade, a vida disse adeus.
Velhos e velhas parecem estar calejados pela dor da despedida.
Recebem a velhice com a dor de quem precisa sair do lugar em que sempre estiveram.
Aposentam-se por meio do descarte e, perdidos, seguem à procura de si mesmos.
Não se acham mais naquele molde, não cabem mais naquela vida. Difícil a despedida de quem não mais se encontra.
É preciso buscar um milagroso consolo: Deus sabe o que faz.
Seguem vivendo, sabendo que logo ali na frente terão outro motivo para dar adeus.

A vida é assim: cheia de despedidas
A morte da melhor amiga, do adeus de quem esteve sempre ao lado, do corpo com perdas, das pernas que se arrastam, do quadril que não mais ginga, da flexibilidade que endurece, enfim.
Adeus, adeus, adeus.
A arteterapia ajuda a elaborar tantos adeuses, já que a expressão artística, quando bem conduzida, alivia a dor das perdas, dilui nas tintas o que sufoca e clarifica o entendimento — tanto sobre o ciclo que se finda como para a compreensão da nova fase que se inicia.
A vida segue, apesar das despedidas. E elas são muitas.
Tem adeus que acompanha uma lágrima e tem os que arrancam nossas vísceras.
Tem quem se despede com frieza e tem quem dá adeus soluçando.
Yuri segue ouvindo Ozzy para se despedir do que não quer que acabe.
No fundo, ele sabe que não acabará. Jamais vai acabar.
A intensidade garante o infinito.
Por favor, pare de olhar para o chão!
Foto destaque: Ozzy Osbourne no show de despedida do Black Sabbath. Instagram / Ozzy Osbourne
