Quando olhar para trás, não seja áspera com a jovem Daiane que lhe escreve esta carta, não seja rígida com seus erros ou com suas falhas, talvez um dia essas palavras não façam mais sentido, e caso não faça: desconsidere e se reinvente.
Daiane Miranda Bueno (*)
Na mitologia grega há o tempo de Cronos e o tempo de Kairós. Cronos é o deus do tempo cronológico e Kairós do tempo oportuno, vivido. Cronos temia que um de seus filhos tomasse o poder, passando a devorar seus filhos toda vez que estes nasciam. Você percebeu que Cronos te engoliu, assim como engoliu os seus filhos, espero que nos braços do deus Tempo você também tenha vivenciado e continue vivenciando o tempo Kairós, apesar da sociedade continuar ditando que nada é muito oportuno quando se é velho.
As pressões estéticas só vão aumentar, a sociedade capitalista e patriarcal continuará fazendo dos corpos femininos frutos de mercadoria e permanecerá lucrando com nosso desespero por competição entre mulheres e pressão estética, portanto lembre-se: não tem nada de errado com as suas rugas e com seu cabelo branco, a aceitação é fundamental para o processo de envelhecer, não caia na besteira de esticar seu rosto e se colocar em cirurgias plásticas desnecessárias, provavelmente sua miopia irá aumentar, mas não fique refém do seu corpo, a construção diária de tantas qualidades não pode ser anulada ou trocada por um corpo bonito.
Não meça seu valor baseado em um corpo ativo, as doenças podem se aproximar como visitantes e às vezes como moradores fixos mas não serão elas que irão te definir enquanto pessoa. Talvez você precisará afirmar isso o tempo todo para as pessoas ao redor, grite aos quatro ventos quando necessário, e se cansar, não se culpe. Continue fazendo suas tatuagens, não importa que as pessoas digam, talvez você enjoe e fique mais sensível à dor como eu já estou ficando, mas não desista apenas porque as pessoas não acham adequado um velho ser tatuado.
Espero que esse espírito de liberdade e de revolução continuem com você, mesmo que nas pequenas coisas, o sarcasmo e a acidez de fato só vão se agravar, só não se torne uma pessoa amarga, mas se a vida nesse tempo só te entregar amarguras, se sinta no direito de sentir isso, só não sinta por muito tempo a ponto de não conseguir enxergar mais as coisas belas da vida.
CONFIRA TAMBÉM:
Não seja igual àqueles profissionais de Serviço Social que você sempre repudiou, que estão acomodados na profissão, não se atualizam e não conseguem acrescentar nada ao seu usuário do serviço, saiba a sua hora de parar, tenha autocrítica, nem que você precise voltar para terapia para treinar essa percepção. Aliás, nunca é tarde demais para melhorar e evoluir como ser humano, cuidar da sua saúde mental é algo que não tem limites de idade, isso deixará o mundo mais leve para você e para as pessoas ao redor que gostam de você.
Você não irá se aposentar tão cedo, talvez nem se aposente, espero que tenha guardado dinheiro para a velhice. Apesar de odiar a perspectiva neoliberalista, é agir de cara com a realidade e compreender que o Estado se responsabilizará cada vez menos pela sua velhice digna. Não gaste dinheiro com carro, dirigir, apesar de necessidade nunca foi um prazer, mas se quiser aprender coisas novas, não se prenda.
Sobre aquele sentimento que alguns chamam de solidão e outros de liberdade, talvez você tenha um pouco dos dois, afinal, isso vem de brinde no combo da existência humana, não é?! Que as risadas que vinham das interações mais sinceras das amizades continuem ecoando em todos os espaços possíveis e que sempre haja ombro para chorar quando necessário. Não se feche no seu mundo, mesmo contemplando ótimos momentos desfrutando da sua própria companhia, socialize de forma periódica e prazerosa.
E falando em prazer, se estiver solteira continue praticando sexo casual, por favor. Isso vai melhorar sua qualidade de vida e não deixe a sociedade ou familiares te convencerem que isso é errado ou que você já está morta, que a sua sexualidade nunca seja anulada apenas por estar velha. Se estiver com um parceiro fixo (eu acho que casamento nunca será o nosso forte, né?) e se render à instituição falida do matrimônio, que você possa ser paciente com seu companheiro, leal e divertida.
Continue lembrando que o lazer é importante na sua vida, talvez as coisas se adaptem e se transformem, o corpo não será mais o mesmo, nem a disposição, mas a vida é cíclica, não dá para fugir disso, você terá que se reinventar para se sentir viva e não apenas sobreviver. Com o passar dos anos vai parecer mais difícil, mas a vida em seu eterno movimento incansável nos presenteará todos os dias com um milhão de possibilidades, e puder agarrar pelo menos uma por dia e se sentir agraciada com isso, você será feliz no seu momento presente e oportuno.
Espero que você ainda sinta aquele sentimento bom quando escutar Caetano cantando “Na Asa do Vento”.
Deu meia noite, a lua faz o claro
Eu assubo nos aro, vou brincar no vento lest
A aranha tece puxando o fio da teia
A ciência da abeia, da aranha e a minha
Muita gente desconhece
Que a música e os livros permaneçam te tocando e encantando, que a arte possa aliviar o peso das mazelas da nossa existência e possa colorir tudo aquilo que estiver escuro ou pesado demais. Se entregue à arte do ócio, sua ansiedade nunca te permitiu negligenciar nenhum compromisso, deixe que o ócio te encontre e não se sinta na obrigação de ser útil o tempo todo. Esta é uma pressão do capitalismo, só somos úteis quando produzimos, deixe que essa voz se cale na mente e desfrute a grande contemplação do vazio e do silêncio.
A essa altura porventura, espero que você não tenha mais medo da morte. O som das suas asas não mais te apavora, existem coisas piores que morrer, perder a sua autonomia é uma delas. Que as suas diretivas antecipativas estejam claras para sua família e para você própria, mesmo que haja a possibilidade de mudança posteriormente. Morrer em um hospital não seria o melhor jeito de morrer mas pode ser que a sua família não esteja pronta para o morrer em casa, que isso não te gere angústia, isso diz mais a respeito a eles do que de você mesma. À essa altura o item qualidade de morte já será um pensamento constante, ele vem para garantir sua dignidade até o último suspiro. Pense no que gostaria de deixar quando partir desse mundo. Afinal, por que estou escrevendo nesta carta sobre morte? A morte é fator inerente da vida, que poderá me tomar até mesmo no momento que terminar estas páginas.
Possivelmente você continuará ateia, mas procure preservar a sua espiritualidade, será ela que te manterá no trilho até o final dos seus dias. Não seja indisciplinada com a meditação e com o seu contato com a natureza, essa energia não poderá ser substituída facilmente por qualquer outra coisa.
Os seus pais, à essa altura, já terão partido, lembre-se com carinho deles e olhe com alegria para toda trajetória que passaram juntos, e caso tenha mudado de ideia sobre ter filhos, não cobre de filhos ou netos aquilo que eles não consigam oferecer, por mais injusto e dolorido que pareça.
Tente manter um pouco de alegria e doçura, por mais que as condições sejam adversas, o tempo pode parecer seu inimigo, mas ele é o maestro de todos os ritmos, se trabalhar a aceitação não passiva, sentirá mais felicidade em relação a ele.
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Que nessa viagem louca do deus tempo, você também possa ter usufruído para viajar ao mundo e conhecer países, culturas, comidas e pessoas. Caso nada mais desperte alegria, que o motivador seja desbravar novos caminhos pelo mundo.
Quando olhar para trás, não seja áspera com a jovem Daiane que lhe escreve, não seja rígida com seus erros ou com suas falhas, talvez um dia essas palavras não façam mais sentido, e caso não faça: desconsidere e se reinvente. Como diria Gal Costa:
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte
Com carinho,
A Daiane de 28 anos de idade.
(*) Daiane Miranda Bueno é formada em Serviço Social pela Unip – Sorocaba (2015), Especialista em Atenção Oncológica pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP (2018). Atuou como Assistente Social na atenção hospitalar no Hospital Evangélico de Sorocaba e atualmente atua como Assistente Social em uma EMAD – Equipe Multidisciplinar de Atenção Domiciliar em São Paulo pela SPDM. Este texto foi escrito para o curso de extensão de Fragilidades da Velhice e Gerontologia Social e Atendimento. E-mail: [email protected]
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