Poderíamos afirmar que a vida corrida que levamos, as relações efêmeras que estabelecemos e a preservação da individualidade obsessiva nos levaria ao vazio da solidão? Para o escritor japonês Soseki Natsume (1867 – 1916): “A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo”.

Parece que criamos e nos alimentamos desse tipo de solidão contemporânea, marcada pelo isolamento, pela inspiração criativa e por alguma escuridão. Clarice Lispector tem a mesma opinião. Ela diz: “Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”.
É, tiramos proveito dela. Às vezes a solidão tem lá seus aspectos positivos. Será por isso que a solidão virou epidemia? Bem, segundo a matéria do jornal Folha de S.Paulo, “Solidão é doença e vivemos epidemia”: “Há mais casas habitadas por uma única pessoa e estamos confiando menos uns nos outros, dizem as pesquisas”.
Mas será que o “clique” do computador, na direção das redes sociais, nos faz menos solitários? Há quem pense que isto basta: amigos pela rede, sexo pela rede, trabalho pela rede; enfim, tudo mesmo, realizado pela telinha.
O psicólogo americano John T. Cacioppo, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago (EUA) afirma que “estar imerso na internet ou ser rodeado de parentes não muda o quadro ‘epidêmico’”.
Ele é autor de “Solidão – A Natureza Humana e a Necessidade de Vínculo Social” (Ed. Record). Resultado de quase 20 anos de pesquisas sobre o tema, o livro explora os efeitos dessa experiência exclusivamente humana, dando uma outra visão sobre a importância dos vínculos sociais e sobre como o ser humano pode resgatar-se da dor do isolamento. A tese é que a espécie humana evoluiu graças às relações entre os indivíduos e ao apoio mútuo ao longo do tempo. A solidão vai na direção contrária à da evolução.
Cacioppo afirma: “Ela é como a dor ou a fome. É sinal de que algo não vai bem e que precisamos reforçar os vínculos sociais”.
CONFIRA TAMBÉM:
Pesquisa
Estudos realizados com estudantes da Universidade do Estado de Ohio (EUA) e um grupo de adultos mais velhos apontaram que os solitários têm uma qualidade de sono pior do que os demais e estão mais propensos a doenças cardiovasculares e infecciosas.
Tendo como base a teoria de Charles Darwin, o pesquisador esclarece: “A solidão crônica coloca a pessoa em estado de alerta constante, porque ela tem que se defender sozinha”. O que quer dizer que a solidão ameaça, inquieta e nos torna seres amedrontados.
O psicoterapeuta Roberto Golgkorn, autor do livro ‘Solidão Nunca Mais’ (Ed. Bertrand Brasil) afirma que numa sociedade sem troca de afetos não há condições de evolução: “Deve haver um fio que costure a identidade de todos, como em um formigueiro, que mais parece um organismo, enquanto as formigas são as células”.
Solidão em plena multidão
A matéria do jornal a Folha de S.Paulo traz ainda alguns exemplos da pior das solidões, aquela vivida em plena multidão, aquela que se sente na companhia do outro.
- A atriz Maristela Vanini, 39, diz que sabe o que é ser solitária na companhia dos outros. Desde os cinco anos, quando ouvia discos do Carpenters em seu quarto, ela afirma se sentir só. Ela mora com os pais, que a apoiam. “Mas me sinto incompreendida. Em casa não se fala sobre sentimentos”. Seus pais não viram a primeira vez em que ela subiu em um palco como profissional, dez anos atrás: “Eu cheguei toda animada para contar aquela emoção, mas estavam todos dormindo. Solidão não é opção”.
O psiquiatra Geraldo Massaro afirma que nem toda solidão é negativa: “A pessoa pode sair enriquecida da solidão, mesmo com sofrimento. Ela pode refletir sobre a própria vida, amadurecer”.
- Para o vendedor de livros Leonardo Minduri, 35, a solidão é “nobre”. Ele se diz um eremita urbano: “Estou na sociedade por obrigação. Se eu tivesse outra opção, estaria na montanha, isolado”. Há cerca de dois anos, Minduri juntou dinheiro, colocou barraca e fogareiro na mochila e caiu na estrada. Ele diz preferir a companhia das obras de Rimbaud, Nietzsche, Schopenhauer e Fernando Pessoa do que a das pessoas.
- Orlando Colacioppo, 45, mora há duas décadas sozinho no centro de São Paulo. Ele diz não sentir falta de ter alguém com quem desabafar em casa; “Para discutir os problemas, existem os amigos e os botecos”.
Nos últimos 20 anos, segundo o IBGE, o número de casas habitadas por uma única pessoa passou de 7% para 12% no Brasil. “Quanto mais convivência, mais atrito. Eu quero é curtir meu isolamento, no meu canto sagrado”.
Outra matéria publicada desta vez no G1 São Paulo, apontou que 61% dos idosos que vão até o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) da cidade de São Paulo em busca de tratamento apresentam quadros de transtorno de ansiedade e depressão. Segundo o levantamento divulgado recentemente, a maior parte dos casos é causada por sentimentos de solidão. O estado de saúde pode ter diversas origens, dentre elas a morte do cônjuge, de amigos, familiares, do medo de morrer e de dificuldades financeiras.
O estudo assinala que “em agosto deste ano, 960 idosos foram atendidos na unidade. No ambulatório, os idosos em tratamento participam de atividades de terapia ocupacional, grupos de reabilitação cognitiva, grupos de contadores de histórias e atividades manuais. A matéria assinala que a secretaria também realiza um trabalho específico com os cuidadores dos pacientes, que possuem um alto risco de apresentar os mesmos problemas no futuro.
Quando as redes sociais não resolvem
Para o psicólogo Cacioppo, compensar solidão física com centenas de amigos no Facebook não resolve: “É como tentar matar a fome com aperitivo. A interação ali é eletrônica, a pessoa não é parte da vivência do amigo”.
Para Sherry Turkle, psicóloga e professora do Massachusetts Institute of Technology (EUA), muitos optam pelos relacionamentos na rede por medo de contato íntimo: “Estar conectado dá a ilusão de termos companhia sem as demandas de uma amizade”, disse ela à Folha.
Autora do livro “Alone Together”, Turkle afirma que a tecnologia mudou a nossa experiência de solidão: “Para fazer uma reflexão, precisamos ‘postar’ nosso pensamento. Assim, não cultivamos a capacidade de ficar sozinhos, de refletir por nós mesmos”.
Jelson Oliveira, professor de filosofia da PUC do Paraná, tem a mesma opinião: “Não sabemos mais ficar sozinhos e buscamos nos ocupar a toda hora, como se ficar sozinho fosse perda de tempo. Ocupamos o silêncio com o barulho”.
Como tudo na vida, até a solidão têm seus dois lados. Podemos viver muito bem com nosso “eu” solitário, como também podemos padecer por ele. Alguns, como o americano Jeff Ragsdale, encontraram seu próprio jeito de driblar a solidão, com criatividade e um certo humor.
Depois de passar por um fim de relacionamento considerado “devastador”, em 2011, o morador de Nova York disse que se sentia triste e isolado. Como fazer então para simplesmente conversar com alguém? Ele responde: “Resolvi ser ousado e colocar meu telefone em panfletos de rua dizendo apenas: liguem para mim”.
Como já era de se esperar, a resposta foi imediata: Jeff recebeu milhares de ligações, de todo o mundo. Um mês depois, ele pediu ajuda para um amigo em Seattle, para transformar o conteúdo dessas ligações em um livro, chamado Jeff, One Lonely Guy (Jeff, um cara solitário, em tradução livre).
Até com a solidão pode se lucrar e inclusive, ganhar notoriedade. São os tempos modernos: morte ao vivo, direto pelo youtube, solidão lucrativa, intimidade compartilhada: nossa vida não mais nos pertence.
Jeff aproveitando a fama, conta que seu telefone virou um verdadeiro confessionário e até mesmo um canal para aconselhamento amoroso. Para ele, as pessoas às vezes preferem desabafar com algum desconhecido, para não sentirem que estão sendo julgadas.
Agora, quando alguém liga para Jeff dizendo que está solitário, ele responde: você tem que ir atrás das pessoas.
De solitário a alguém que aconselha, Jeff acabou encontrando seu lugar no mundo e se viu diante das duas faces da solidão. Bom, mal? Quem poderá julgá-lo?
Referências
VÍDEO (2012). Novaiorquino ‘cura’ solidão ao espalhar número de telefone pelas ruas. Disponível Aqui. Acesso em 14/07/2012.
GENESTRETI, G. (2011). Solidão é doença e vivemos epidemia; teste a sua. Disponível Aqui. Acesso em 30/07/2012.
BBC BRASIL (2009). Solidão pode ser contagiosa como resfriado, diz estudo. Disponível Aqui. Acesso em 30/07/2012.
G1 SP. Em SP, 61% dos idosos que buscam psiquiatra têm depressão e ansiedade. Disponível Aqui. Acesso em 10 de setembro de 2012.