Alzheimer, socialização como ferramenta terapêutica e qualidade de vida

Alzheimer, socialização como ferramenta terapêutica e qualidade de vida

A socialização não cura a doença de Alzheimer, mas ameniza o avanço da doença, fortalecendo e trazendo significado para o cotidiano.


Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. (Carl Jung)

“Já tem dias que, perto da janela, ele abre um sorriso, como se quisesse estar lá fora, entre as pessoas. Combino com a cuidadora de fazermos um passeio na praça para melhorar o humor de quem estamos cuidando, uma pessoa acometida pela doença de Alzheimer. O convite foi feito, algumas vezes, é claro, até que ele entendesse.

De repente um sorriso cruza seu rosto, e os braços se estendem para ajudá-lo a levantar-se. Caminha em direção à porta que dá saída para a rua, dá um passo para fora, e ali… naquele instante… um novo mundo se instala sob seus olhos, como se fosse a primeira vez que enxergasse, as cores…as pessoas, as árvores.

Sol e vento batendo em seu rosto, um novo ânimo escancarado surge… pede para segurar em nossas mãos e sai caminhando, como fez boa parte da vida… seguro e confiante… lá vamos nós!”

Socialização… uma quebra do estigma de que pessoas acometidas por Alzheimer devem isolar-se ou serem isoladas de outras pessoas, da vida, que corre veloz e impiedosamente, do lado de fora dos olhos de quem, aos poucos, vai deixando de compreender o que acontece… deixando de registrar novas memórias, de vivenciar as experiências que são ofertadas todos os dias.

Os vínculos sociais, longe de significarem apenas ‘estar no meio de pessoas’, têm um papel fundamental no contexto de cuidado. Eles auxiliam a amenizar o avanço da doença, promovendo sentimento de pertencimento, bem-estar físico e emocional, humor, qualidade de vida, estimulando autonomia e independência, enquanto for possível. Além disso, favorecem o estímulo de funções mentais e reduzem sintomas de apatia, agitação, agressividade, fatores estes tão significativos no decorrer do cuidado.

Ampliar o horizonte de oportunidades através de conversas, olhares, gestos simples de afeto, de convivência diária, frequentar locais que fora a vida toda, reencontrar pessoas conhecidas, funcionam como estímulos que mantém o cérebro alerta, responsivo e ativo, além do mais, favorece autoestima e a comunicação. Quanto mais essas pessoas estão inseridas em um contexto amplo de cuidado, mais acessível o cuidado se torna.

Socializar-se não é só estar em meio a outras pessoas, é também um cuidado terapêutico importante e necessário para quem tem Alzheimer, já que interfere diretamente no comportamento e no emocional.

Na prática clínica, é observável o desempenho de pessoas reclusas em seus lares, daqueles que continuam tendo acesso à vida lá fora, seja através de terapias complementares, ou em atividades do dia-a-dia como frequentar um mercado ou uma caminhada. A disposição física, a orientação temporal e espacial, a comunicação, e o brilho nos olhos, reacendem quando sua própria rotina se entrelaça com o mundo, dando continuidade à sua própria história.

Muitas vezes, precisamos apenas é dar o primeiro passo, e entender que a vida continua lá fora, com ou sem Alzheimer.

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Algumas sugestões práticas para iniciar momentos de socialização podem ser:

– Criar rotina de convívio com atividades simples, pode ser um familiar, um vizinho, convidar para um café, uma conversa, assistir TV juntos;

– Leve a pessoa em locais conhecidos por ela, como, parques, igreja, padaria, banca de jornal, feiras, museus, um passeio na própria rua onde mora, no espaço comum do prédio, no jardim, locais onde ela estará inserida de alguma forma;

– Incentive atividades em grupo, caminhadas no parque, frequência em centros-dia, são uma ótima oportunidade de convívio com pessoas diferentes, desde que estas tenham condições para isso;

– Converse… converse muito, sobre o passado, sobre família, sobre acontecimentos gerais, situe a pessoa na realidade atual; utilize músicas, fotos que possam promover estímulos na comunicação;

– Adapte uma rotina de socialização para pessoas cadeirantes ou com maior dificuldade para andar, se comunicar, lembrando que é possível socialização dentro de qualquer espaço e contexto;

– Evite locais com muitos estímulos, sons, pessoas, para que um ato de prazer não vire de irritabilidade.

Socializar-se é uma receita efetiva de preservar aquilo que ainda resiste: a presença, o afeto, a dignidade, a necessidade de conexão com outras pessoas. A socialização não cura… mas ameniza o avanço da doença, fortalecendo e trazendo significado para o cotidiano. Cada momento compartilhado, cada oportunidade, cada pessoa que cruza o caminho, cada conversa, é como um fio que os mantém ligados à nossa realidade, e ao que ainda vive dentro deles, e só de se sentir pertencente, já é uma forma profunda de cuidado.

Foto: Freepik, imagem gerada por inteligência artificial.


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jovem de cabelo longo, preto, e de roupa preta, sorri
Simone de Cássia Freitas Manzaro

Simone de Cássia Freitas Manzaro – Psicóloga formada pela Universidade Nove de Julho, Pós-graduada em Gerontologia. Aperfeiçoamento em Atenção Domiciliar. Capacitação em Saúde da Pessoa Idosa. Atua como psicóloga no Centro-dia Angels 4U. Realiza atendimento psicológico de adultos e idosos e de familiares e cuidadores de pessoas com Doença de Alzheimer e similares. Atuação voltada para o contexto do envelhecimento frágil. Possui experiência em Estimulação Cognitiva/Psicoestimulação para pessoas com Doença de Alzheimer e similares e, Estimulação Cognitiva/Psicoestimulação preventiva para grupos 50+. Realiza consultoria em Psicogerontologia; orientação e treinamento de familiares e cuidadores formais sobre o contexto da doença bem como, os manejos psicológicos, emocionais e comportamentais necessários, auxiliando-os a criar estratégias e atividades para lidar com a pessoa doente no cuidado diário, supervisionando treinamento prático. É membro colaborador dos sites Portal do Envelhecimento, Blog Recorda-me e Alzheimer- Minha Mãe tem. E-mail: simonemanzaro@gmail.com

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Simone de Cássia Freitas Manzaro – Psicóloga formada pela Universidade Nove de Julho, Pós-graduada em Gerontologia. Aperfeiçoamento em Atenção Domiciliar. Capacitação em Saúde da Pessoa Idosa. Atua como psicóloga no Centro-dia Angels 4U. Realiza atendimento psicológico de adultos e idosos e de familiares e cuidadores de pessoas com Doença de Alzheimer e similares. Atuação voltada para o contexto do envelhecimento frágil. Possui experiência em Estimulação Cognitiva/Psicoestimulação para pessoas com Doença de Alzheimer e similares e, Estimulação Cognitiva/Psicoestimulação preventiva para grupos 50+. Realiza consultoria em Psicogerontologia; orientação e treinamento de familiares e cuidadores formais sobre o contexto da doença bem como, os manejos psicológicos, emocionais e comportamentais necessários, auxiliando-os a criar estratégias e atividades para lidar com a pessoa doente no cuidado diário, supervisionando treinamento prático. É membro colaborador dos sites Portal do Envelhecimento, Blog Recorda-me e Alzheimer- Minha Mãe tem. E-mail: simonemanzaro@gmail.com

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