Enquanto o Brasil envelhece em ritmo acelerado, a Gerontologia emerge como campo essencial para planejar políticas, qualificar serviços e integrar equipes no cuidado à pessoa idosa.
À medida que o Brasil envelhece em ritmo acelerado, cresce a necessidade de profissionais capazes de atuar sobre os múltiplos aspectos da velhice. Aptos à articular e promover o cuidado, gerir serviços e casos, bem como propor e implementar políticas públicas baseadas em evidência. A Gerontologia, como ciência e como profissão, é uma resposta frente a essa nova realidade.
A Gerontologia é um campo de estudos recente. O precursor da área, Ellie Metchinoff, discípulo de Pasteur, cunhou o termo em 1903. Contudo, apenas após a Segunda Guerra Mundial a área cresce, em função do aumento de pessoas idosas nos países europeus e da ampliação do interesse em investigar o processo de envelhecimento. Na ocasião, teóricos e pesquisadores de outras áreas do conhecimento passaram a estudar as pessoas idosas.
No Brasil a área teve início durante a década de 1960, tendo como marco a criação da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e o pioneirismo do SESC ao desenvolver atividades voltadas às pessoas idosas. Posteriormente, na década de 1980 são criadas as primeiras Universidades Abertas para Terceira Idade (UnATI) e o programa de pós-graduação em Gerontologia social pelo Instituto Sedes Sapientiae.
Contudo, apenas ao final da década de 1990 são criados os primeiros programas de pós-graduação em Gerontologia no Brasil. A criação dos primeiros cursos de bacharelado no país marcou um passo decisivo nessa trajetória. Em 2005, a Universidade de São Paulo (USP) inaugurou o bacharelado em Gerontologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). Em 2009, foi a vez da Universidade Federal de São Carlos abrir a primeira turma em Gerontologia. Desde então, inclusive instituições privadas vêm ampliando a oferta de cursos na área em resposta às novas demandas impulsionadas pelo envelhecimento populacional.
Esse movimento encontra respaldo em marcos legais importantes. O Estatuto da Pessoa Idosa, por exemplo, atualizado pela Lei 14.423/2022, estabelece como diretriz a capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de geriatria e gerontologia. A Política Nacional de Cuidados, cujo público prioritário engloba a pessoa idosa, defende a formação continuada e permanente, bem como o reconhecimento e a valorização do trabalho de quem cuida. A legislação sinaliza que não basta ampliar serviços: é preciso qualificar equipes e reconhecer a complexidade do envelhecimento.
Quem é o gerontólogo?
CONFIRA TAMBÉM:
O profissional bacharel em Gerontologia, denominado de gerontólogo, nasce da necessidade de termos um profissional generalista, capaz de integrar as dimensões biopsicossociais do envelhecimento de forma a qualificar o atendimento às pessoas idosas e à sociedade que envelhece. Na prática os gerontólogos atuam na promoção de uma velhice mais saudável, digna e integrada à sociedade.
Tipificado pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 1312-20), cujo código foi construído a partir da atuação de 10 profissionais bacharéis em gerontologia avaliados pelo Ministério do Trabalho entre 2013 e 2014, o gerontólogo atua de forma interdisciplinar, articulando conhecimentos das áreas da saúde, ciências sociais, humanidades e gestão.
Segundo a CBO 1312-20, o bacharel em Gerontologia possui como atribuições principais:
a) Planejar, coordenar e avaliar programas e serviços voltados à pessoa idosa em diferentes contextos, como instituições de longa permanência, serviços de atenção domiciliar, centros de convivência, hospitais, secretarias públicas e organizações da sociedade civil;
b) Realizar avaliação global multidimensional da pessoa idosa e a gestão de caso, considerando aspectos biomédicos, funcionais, emocionais, sociais e ambientais, propondo intervenções integradas e contextualizadas à rede socioassistencial e de saúde dos territórios;
c) Promover ações de educação em saúde e de prevenção, com foco no envelhecimento ativo, saudável e sustentável;
d) Orientar pessoas idosas, famílias e cuidadores, apoiando processos de tomada de decisão, manejo do cuidado e acesso a direitos;
e) Gerenciar equipes, articulando profissionais e recursos em prol de projetos terapêuticos singulares e humanizados às pessoas idosas e em processo de envelhecimento;
f) Desenvolver e implementar projetos de pesquisa, contribuindo para o avanço científico e para a qualificação das políticas públicas de envelhecimento;
g) Promover defesa de direitos, combatendo o idadismo por meio de ações educacionais à sociedade e fortalecendo os dispositivos de participação e controle social.
Essas competências tornam o gerontólogo um profissional singular: é capaz de compreender o envelhecimento em sua complexidade e de propor soluções interdisciplinares, voltadas à promoção da autonomia e do bem-estar dos atores envolvidos.
Desafios para consolidação da profissão
Apesar dos diferenciais apresentados, há muitos desafios para consolidação da profissão. O primeiro deles é a regulamentação. O Projeto de Lei que tipifica e regulamenta a atuação profissional no Brasil tramita desde 2013 em Brasília, passando de 2013 e 2017 no Senado (antigo PL 334/2013); e a partir de 2017 na Câmara dos Deputados, atual PL 9003/2017. Em outros países da América Latina a profissão já foi regulamentada na Argentina pela Lei 5671 de 2016; na Colômbia pela Lei 1655 de 2013; no Panamá pela Lei 52 de 2009. O México, o maior país em termos de centros de formação de bacharelados em Gerontologia, possui um projeto para integrar a profissão à lei de profissionais da saúde, o que lhes asseguraria as prerrogativas legais para exercício da profissão.
Destaca-se, desse modo, que o Brasil está atrasado na regulamentação da profissão de gerontólogo. Nesses mais de 12 anos foram promovidas mais de 10 audiências públicas e encontros de grupos de trabalho, incluindo diálogos com a SBGG, conselhos de classe de outras profissões, organizações da sociedade civil, representantes do poder público e demais órgãos que atuam na área do envelhecimento. Atualmente o PL está na Comissão do Trabalho cujo entrave está no diálogo com representantes da categoria dos tecnólogos em Gerontologia.
Nesse caso alguns tecnólogos querem ter as mesmas atribuições do bacharel, o que é sem fundamento e sem respaldo jurídico-institucional, pois os cursos possuem carga horária inferior a metade dos cursos de bacharelado. Além disso, grande parcela dos cursos não possui estágios presenciais supervisionados, estes fundamentais para garantir a segurança do paciente, mediante treinamento prático das habilidades e competências, na relação direta com a pessoa a ser atendida. O desafio posto, aqui, é o lobby dos grandes grupos privados de educação, cujos lucros são consideráveis com a oferta do Ensino à Distância. Na contramão dessa lógica, profissões da saúde como medicina, odontologia e psicologia já proibiram cursos on-line, argumentando que suas atividades fins não permitem profissionais sem práticas, o que é justo em função de envolver a atuação direta com vidas humanas.
Outros desafios incluem o desconhecimento sobre o papel do gerontólogo, o que limita sua inserção plena no mercado de trabalho; a necessidade de reconhecimento formal em editais, políticas públicas e serviços de saúde, garantindo espaço adequado nas equipes interprofissionais; e o Subfinanciamento e fragilidade das políticas de cuidado e proteção à pessoa idosa, que impactam diretamente a atuação profissional. Governos e gestores públicos sub investem em projetos às pessoas idosas, negligenciando às necessidades emergentes da população que envelhece. Há, portanto, um conjunto de barreiras institucionais e culturais que devem ser quebradas para o exercício pleno da profissão de gerontólogo no país.
Contudo, o cenário é mais promissor do que no passado, o que torna a profissão essencial para enfrentar os desafios do porvir. No Brasil a transição demográfica exige respostas antecipatórias às próximas décadas. Em 2050, 1 em cada quatro habitantes terão 60 anos ou mais. A população com 80 anos ou mais é a que mais cresce, e também a que mais necessita de cuidados de longo prazo. O momento ideal para criar serviços e estratégias de cuidados é agora.
O gerontólogo, desse modo, é vital para apoiar o poder público na execução de políticas e na qualificação do atendimento às pessoas idosas. No terceiro setor e no setor de serviços privados o gerontólogo tem sido um grande diferencial nas equipes, com atuação em grandes franquias de atendimento às pessoas idosas, operadoras de saúde, serviços de atenção domiciliar e empresas relacionadas ao ecossistema dos cuidados de longa duração. No campo da pesquisa profissionais gerontólogos se debruçam em desenvolver estudos com impacto na inovação dos cuidados e no desenvolvimento de políticas públicas.
Chamado à Mobilização: por mais cursos de Bacharelado em Gerontologia no Brasil
O envelhecimento populacional é um fenômeno crescente, e a Gerontologia é peça-chave para transformar diretrizes legais e avanços acadêmicos em práticas que garantam dignidade e qualidade de vida. Consolidar essa profissão significa preparar o Brasil para um futuro que já chegou. Diante desse cenário, é urgente ampliar a formação de novos profissionais. A sociedade brasileira necessita e merece serviços qualificados, humanizados e cientificamente fundamentados para acompanhar o envelhecimento populacional. Por isso, convidamos toda a sociedade civil, profissionais da área, gestores, pesquisadores, familiares e pessoas idosas a assinar o abaixo-assinado pela abertura de novos cursos de bacharelado em Gerontologia no Brasil.
A expansão dessa formação é um passo essencial para garantir um futuro de cuidado, dignidade e respeito à população idosa. Junte-se a nós. Apoie a Gerontologia. Apoie o envelhecimento digno para todos.
Assine: https://www.change.org/p/pela-cria%C3%A7%C3%A3o-de-cursos-de-bacharelado-em-gerontologia-no-brasil
(*) ABG – Associação Brasileira de Gerontologia:
Henrique Salmazo da Silva – Presidente ABG (2025-2027). Prof. Dr. do Bacharelado e Programa de Pós-graduação em Gerontologia da USP.
Aline Viana – Diretora de Suporte à Profissão da ABG (2025-2027). Profa. Dra. do Programa de Pós-graduação em Gerontologia da USP.
Sandy Nonaka – bacharelanda em Gerontologia da EACH/USP, assistente da presidência ABG (2025-2027)
Bruna Cristina Pestana – bacharelanda em Gerontologia da EACH/USP, assistente da diretoria de comunicação ABG (2025-2027)
Foto de RDNE Stock project/pexels.

Promoção válida até dia 15 de janeiro de 2026