A alfabetização de adultos ainda depende de políticas contínuas e específicas

A alfabetização de adultos ainda depende de políticas contínuas e específicas

Aprender a ler e escrever na idade adulta pode aumentar a renda média em 23,3% entre pessoas de 46 a 60 anos.


Por Hugo Carcci (*)

O Brasil tem avançado nos indicadores de alfabetização, especialmente entre crianças. De acordo com o Indicador Criança Alfabetizada, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), 59,2% dos alunos das redes públicas estavam alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental em 2024. Quando o foco se desloca para a população adulta, o cenário muda: o desafio permanece grande, mas os benefícios de superá-lo são significativos. O estudo encomendado pelo MEC em parceria com a Unesco A Educação que Transforma Vidas Adultas: Um Estudo sobre o Retorno Econômico da Educação de Jovens e Adultos no Brasil revela que aprender a ler e escrever na idade adulta pode aumentar a renda média em 16,3% entre pessoas de 18 a 60 anos. Entre aquelas de 46 a 60 anos, o impacto é ainda mais expressivo, chegando a 23,3%.

Apesar dos avanços entre crianças, a alfabetização de adultos ainda depende de políticas contínuas e específicas. A professora Soraya Pacífico, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, destaca que o progresso nessa área só ocorre quando há iniciativas públicas que reconhecem as particularidades dessa população e garantem sua participação nas práticas sociais mediadas pela escrita. “São fundamentais as políticas públicas que reconheçam a importância da alfabetização de adultos e promovam a inserção dessas pessoas nas práticas sociais mediadas pela escrita”, afirma.

Ela também comenta os impactos sociais e econômicos desse processo. “Logicamente, uma sociedade com adultos alfabetizados terá melhores condições de trabalho. Saber ler e escrever, compreender os textos escritos que circulam na sociedade, na empresa, saber ler as instruções do manuseio de equipamentos, as leis trabalhistas e outras mantém a pessoa atualizada”, explica. Para ela, acima de tudo, quando se fala de alfabetização, não se pode pensar apenas na questão objetiva de ler e escrever, mas também no sentimento de inclusão social e de pertencimento que abraça o sujeito que se torna independente do outro para ler.

Desafios na EJA

Mesmo com a importância comprovada da alfabetização na vida adulta, muitos obstáculos persistem no acesso e na permanência desses estudantes. “Depois de tantos programas de alfabetização que não tiveram êxito, temos hoje a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mas há muitas questões em relação a essa modalidade, pois grande parte das atividades desenvolvidas para jovens, adultos e idosos ainda se baseia no ensino regular voltado às crianças.” Em 2022, Soraya orientou na FFCLRP a dissertação de mestrado de Cátia Alves, que investigou os discursos produzidos por alunos da EJA. A pesquisa mostrou que o adulto que sai do trabalho cansado e vai à escola à noite muitas vezes é silenciado em sua singularidade. “Eles realizam as mesmas atividades que as crianças. Se sobra merenda do período diurno, têm o que comer; caso contrário, não”, relata. 

Dessa forma, Soraya afirma que é necessário lutar para uma escola com infraestrutura apropriada para receber pessoas adultas. “Muitas delas são idosas que têm outras necessidades e outros objetivos para buscarem aprender a ler e escrever. Todos têm uma longa história de vida construída a despeito da escrita, mas essa história dificilmente é considerada, o que torna a alfabetização desses sujeitos desvinculada de suas práticas sociais.”

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Dever político

A professora afirma que o analfabetismo é um problema essencialmente político. Segundo ela, um grande erro é dizer que o governo gasta com educação, quando, na verdade, ele investe. “O aumento do grau de letramento impulsiona o desenvolvimento econômico e transforma gerações: os filhos de adultos que aprendem a ler e escrever passam a ter outro modelo de aprendizagem, pois deixam de encarar como natural aquilo que a ideologia faz parecer natural”, explica. “Muitos acabam se culpando por não terem conseguido permanecer na escola. Mas, quando o acesso à educação se amplia, aceitar qualquer emprego ou viver sem escolarização deixa de ser uma condição natural. Para mim, essa é uma questão política e precisa ser tratada como tal”, conclui.

Por fim, Soraya afirma que a educação deve ser tratada como prioridade pelo Estado. “É dever do Estado garantir que os erros do passado possam ser reparados e que quem não pôde estudar tenha esse direito garantido agora. Isso requer que a educação seja colocada em destaque. Ela não é um apêndice, ela é o cerne da sociedade.” A professora afirma que a responsabilidade do Estado pela educação esbarra nos projetos que a iniciativa privada faz para tentar amenizar esse problema histórico. “Sabemos que dificilmente a iniciativa privada faz qualquer intervenção social, se não vislumbrar alguma forma de lucro. Por isso não podemos ser ingênuos ao considerar que delegar a alfabetização para empresas, ONGs e outros meios fará do Brasil um país livre e alfabetizado. Essa questão, acima de tudo, antes de ser pedagógica ou linguística, é de política pública.”

(*) Hugo Carcci, estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares, do  Jornal da USP no Ar – Edição regional

Foto de Jessika Arraes/pexels.


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