Cuidar de vidas exige disponibilidade, solidariedade, amor. Mas exige também conhecimento, técnica, profissionalismo. Com ideias como essas na cabeça, familiares de moradores da instituição de longa permanência para idosos da Sociedade Beneficente Alemã (SBA), localizada no bairro do Butantã, São Paulo, perceberam a necessidade de organizar um curso para os cuidadores. Afinal, são eles que acompanham seus idosos no dia-a-dia, que estão por perto para, auxiliar nos cuidados pessoais, nas atividades de vida diária, fazer companhia, conversar.
A SBA buscou então o programa Cuidar é Viver, idealizado pelo Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE) e, com apoio da Support – empresa do grupo Danone especializada em alimentação para situações de fragilidade – e dos familiares dos moradores, deu início às aulas.
As duas primeiras turmas concluíram, em meados de junho, o Curso de Atualização para Acompanhante de Idosos, com 40 horas de aula, ministrado em 10 encontros. O curso, vale lembrar, integra o projeto Cuidar é Viver, criado pelo OLHE com a Support.
Marília Berzins, assistente social, coordenadora do curso e membro do OLHE, explicou que as aulas foram pensadas de forma a dar informação suficiente para a formação de acompanhantes. “O curso de cuidador tem uma carga horária maior e nós aprofundamos o que foi visto aqui.”
A entrega dos certificados teve lugar no auditório da instituição, numa festa marcada pela emoção, alegria, sensação de dever cumprido e a certeza de que ainda há muito a ser feito pelos idosos e seus acompanhantes.
As aulas foram momentos de muito prazer, troca de experiências, euforia, aprendizado e também de importantes desafios. Afinal, manter-se acordado durante quatro horas de aula depois de 24 horas de trabalho não é exatamente uma tarefa fácil para ninguém. E essa era a rotina dos 78 alunos que participaram das atividades ministradas por professores do OLHE e convidados.
O curso conta com partes práticas e teóricas. “Nossa ênfase sempre foi em um curso dinâmico, movimentado, até porque sabemos da dificuldade dos alunos, que vêm de 24 horas de trabalho, sem dormir direito, sem descansar”, observou Marília.
Nélio Tavares, gerente geral da SBA, cuja instituição para idosos existe há 147 anos, fundada por alemães, disse que o curso nasceu de uma reivindicação dos familiares dos idosos e dos próprios acompanhantes.
Oficialmente, cuidador ou acompanhante de idoso é uma ocupação – ainda não é uma profissão reconhecida. Reportagem publicada no dia 3 de julho no jornal O Estado de S. Paulo mostrou que há uma demanda crescente por estes profissionais – embora, repetindo, a profissão de cuidador de idosos não esteja ainda formalizada.
Há um projeto na Câmara tramitando neste sentido, em função do envelhecimento da população brasileira.
Por conta disso, talvez, os cursos que oferecem formação para quem deseja trilhar este caminho profissional ainda são escassos. Entre os cuidadores ouvidos na SBA, a maioria estava fazendo um curso pela primeira vez. Alguns já tinham experiência prática na área, mas confessaram ressentir-se de mais informação.
Além disso, o curso oferecido pelo OLHE e pela Support enfatizou alguns temas que muitos nunca haviam travado contato em outras aulas.
Alexandre Natalício Thomaz (foto), de 39 anos, afirmou, por exemplo, que aprendeu muito mais do que poderia imaginar no curso. “Ouvi coisas aqui que nunca havia ouvido em toda minha vida”, disse. Segundo ele, o curso derrubou alguns mitos importantes sobre o envelhecimento. “Serviu para diminuir o preconceito que todos temos; também aprendi muito sobre amor e compaixão. Coisas que nunca ouvi de outras pessoas, de pai, de mãe, eu ouvi aqui”, afirmou. Alexandre disse ainda que cuidar do idoso, para ele, é um aprendizado constante.
Ele conta que sai do curso com “muito mais paciência, não só para o meu dia-a-dia de trabalho, mas também para meus familiares, para o próximo. Saio muito mais ciente da necessidade de respeitar o outro e de amar o próximo”, afirmou. Ele já havia feito um curso fora – está há 5 meses na SBA e cuidou do pai, paraplégico, durante 15 anos.
Alexandre Barbosa Aparecido (foto), de 40 anos, está há 6 meses na SBA. É técnico em enfermagem, mas disse que sentia a necessidade de fazer parte de um curso como o realizado pelo OLHE.
“Essas aulas tiveram um impacto muito grande na minha vida. Ajudou até a melhorar o relacionamento com minha vizinhança, meus familiares. Acho que estou conseguindo até mudar a cabeça dos meus sobrinhos em relação à velhice, quebrando alguns preconceitos”, garantiu.
O desejo de se aprimorar é grande entre todos os cuidadores ouvidos na SBA. O curso oferecido pelo OLHE é, na opinião deles, o começo de vários.
“Esse curso mudou minha vida. Sou outra mulher, me valorizo mais, aprendi a me cuidar também, a gostar mais de mim”, afirmou Maria Aparecida Barbosa (foto), de 55 anos. Com apenas 2 meses de trabalho na SBA, ela declarou que está muito feliz com a atividade que desenvolve.
Na prática, disse que passou a ter um outro olhar para o idoso. “Agora domino melhor as técnicas de colocar e tirar da cama, por exemplo. Mas também aprendi que não devemos infantilizar a pessoa idosa, o que fazemos com frequência”.
Para Lindalva Brasilina de Lima (foto), de 55 anos, o curso a ajudou a lidar com uma dificuldade que tem: não poder suprir todas as necessidades dos idosos. “Tenho muita angústia quando vejo que esperam por um familiar que não vem visitá-los”, disse. “Essa questão é muito delicada, mas é preciso enfrentá-la junto com o idoso. Assim como também é preciso saber enfrentar a perda, a morte. Nunca vi um curso tão completo como esse, que fala desses assuntos, de sexualidade, de tudo”, enfatizou Lindalva.
Em comum, os cuidadores da SBA têm paixão pelo o que fazem. A maioria deles disse que sempre sonhou em ter essa ocupação. Outro ponto em comum: a maior dificuldade que dizem enfrentar é no relacionamento com outros colegas, especialmente aqueles com quem dividem a atenção ao mesmo idoso.
“O curso tocou nessas questões também, é muito importante a gente trocar experiências”, disse Zenilda Almeida de Jesus (foto), de 46 anos, há cinco meses na função. “Aprendemos que o morador não é da gente, é de todos, e deve ser respeitado em sua individualidade”. Ela também contou que o curso tem um diferencial importante: “Não ensina só a gente a cuidar do outro, mas também nos ensina a cuidar de nós mesmas. Afinal, para cuidar bem é preciso também estar satisfeito consigo próprio, feliz”, resumiu.
Uma das mais jovens acompanhantes da SBA, Daiana Famprattis (foto), de 24 anos, está há um ano na função. “Gosto muito dessa área, tenho muita paciência, gosto de conversar”, explicou. “Aqui aprendi muito, ainda não sabia direito coisas sobre Alzheimer, sobre morte.
Agora também penso mais no futuro, nos meus pais, no meu próprio envelhecimento”, disse.
Maria Inácia dos Santos (foto), de 41 anos, conta que está na SBA há seis anos. “Tenho aprendido muito neste trabalho. Mas este foi o primeiro curso que eu fiz. Já acompanhei muitos familiares que envelheceram, adoeceram e morreram, não foi fácil.
Agora acho que estou aqui para cumprir uma missão, sinto-me muito realizada com o que eu faço”, declarou Inácia, emocionada.
Quem cuida do acompanhante de idosos?
Maria da Glória Gonçalves (foto), supervisora administrativa dos acompanhantes de idosos da SBA, disse que, após o curso oferecido pelo OLHE, é possível afirmar que a instituição conta com pessoas bem preparadas para a função. “Os profissionais que ministraram as aulas são muito qualificados, de altíssimo nível. Nossos acompanhantes têm, em geral, preparo nato para o cargo, mas precisam de mais formação”, observou.
Gerente de marketing da Support, Eric Salviano, também esteve presente à cerimônia de entrega dos certificados. “Dou meus parabéns ao OLHE por esta iniciativa tão importante. Cuidar é uma arte e admiro o trabalho que vocês realizam”, disse ao público.
Segundo Salviano, fala-se muito em cuidar, mas quem cuida do cuidador, do acompanhante? Quem fortalece esse profissional, quem o capacita? “Encontramos o OLHE, que tem um pensamento próximo ao nosso – cuidar é parte do nosso objetivo e do objetivo de vocês também. E igualmente sabemos que é importante fortalecer o cuidador, observou, agradecendo à SBA por ter uma atitude de vanguarda em relação ao envelhecimento. “O perfil demográfico do Brasil está em transição, o futuro é de um país com mais velhos do que jovens, temos de nos preparar para esta nova etapa”, admitiu.
“Vejo uma vibração positiva muito grande nesses acompanhantes. Os alunos participaram muito das aulas, foi muito bom. E eles nos deram subsídios para aperfeiçoar nosso trabalho”, afirmou Regina Pilar, pedagoga, membro do OLHE e uma das professoras do curso. Segundo ela, valorizar a função do cuidador/acompanhante foi uma das preocupações constantes que permearam as aulas.
Outra professora, Maria Ianarelli, assistente social, também reconheceu o valor da ocupação e disse que os alunos mostraram muita necessidade de se informar, aprender. “Essa capacitação que o OLHE está promovendo é uma referência importante na área, que tem de se multiplicar em muitas”, observou.
Maureen Gregson, gerente de serviços de apoio da SBA, disse que o curso oferece uma padronização no atendimento. “Isso garante um serviço melhor ao morador”, concluiu. “Com o envelhecimento da população, precisamos ter cada vez mais pessoas preparadas para esta função de cuidador”, afirmou Maureen.
“O conteúdo é muito importante. Mas quem dá vida a este conteúdo é mais importante ainda”, disse Alessandra de Oliveira Arraiz, gerente de produto da Support. Segundo ela, chamou a atenção a forma como o curso foi conduzido. “Houve uma troca de experiências muito grande. Os professores deram muitos exemplos concretos, baseando-se na realidade dos acompanhantes. As turmas também se sobressaiam por seu empenho, fiquei admirada”, constatou. Alessandra disse ainda considerar uma honra ser parceira do OLHE neste projeto tão importante.
A coordenadora do curso, Marília Berzins, afirmou que as aulas oferecidas são uma construção da equipe. “Elegemos os temas que consideramos mais importantes e nos orientamos por uma linguagem bem prática, uma conversa de sujeito para sujeito, pensando no caminho que nossa sociedade ainda tem que trilhar em relação ao envelhecimento”, observou.
Para a presidente do OLHE, Ingrid Mazeto, a cerimônia de entrega dos certificados, realizada em dois dias no auditório da SBA, foi um momento de muita alegria, celebração. “É um momento de conquista. Em nome do OLHE, parabenizo a SBA por reconhecer a importância dessa iniciativa e agradeço à Support pela parceria. Estamos fazendo parte de uma nova história, construindo um novo olhar sobre o envelhecimento”, afirmou.
Em sua mensagem, Ingrid ressaltou ainda a importância de refletir sobre o que é ser cuidador, o que é acompanhar um idoso em seu dia-a-dia. “Nós só estamos aqui porque um dia alguém cuidou de nós, nos alimentou, nos aqueceu. A vida só é possível porque existe o cuidado”, finalizou.
Na foto, da esquerda para a direita: Marília Berzins, Maureen Gregson, Marta Balbino Prates, Nélio Tavares, Maria da Glória Gonçalves, Alessandra Arraiz, Regina Pila Arantes, Ingrid Mazeto.