Vozes do passado traz a história do avô Ricardo, pois desvelei a saga familiar, reconfigurei a trajetória de Ricardo e a minha própria, movimento que me faz retomar o poder de ser narradora e sujeito da minha própria história.
No ano de 1992 recebo um inesperado convite para dar aulas em uma Universidade Aberta à Terceira Idade, localizada na zona sul da cidade de São Paulo. Nunca havia trabalhado com essa faixa etária, mas resolvi ir ao primeiro encontro informal com as alunas que pediam aulas de Antropologia. Mas, a questão era: o que será que elas (a maior parte de mulheres) queriam saber? Por que o interesse em área tão específica das Ciências Humanas?
No primeiro encontro abri espaço para que contassem o que tinham pensado ao escolher este tema. Deixei que se expressassem livremente, fazendo apenas perguntas pontuais, e fui anotando tudo no, ainda, muito utilizado quadro negro. Ao final, circulando as ‘palavras-chave’ mostrei que elas tinham elaborado o curso – memória e cultura – pelo resgate da matriz identitária.
O encontro foi um momento especial, pois elas gostaram de mim e eu delas, e constatei que a estratégia utilizada indicava a metodologia dialógica como o caminho a seguir. Durante dez anos lá permaneci sempre dialogando com os grupos a cada novo curso a ser organizado.
A partir deste encontro me senti desafiada a estudar o processo de envelhecimento e encontrei este espaço no Grupo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (NEPE) da PUC-SP, formado em 1988, sob a coordenação da querida profª Suzana Medeiros.
Nova etapa de vida e profissional se iniciava.
Os estudos realizados no NEPE aliados a prática me impulsionaram, já aos 42 anos, ao mestrado em Ciências Sociais na área da Antropologia. Encontrei terreno fértil e fui me encaminhando para a escuta das vozes internas da cultura – narradores de primeira mão – os velhos. Ao terminar a última leitura do trabalho já concluído percebi, pela primeira vez, que minhas buscas me levavam às minhas próprias raízes de formação, marcada por uma figura ‘silenciada’ – meu avô Ricardo Cipolla – a quem dediquei o mestrado. Ele foi um ítalo-brasileiro anarquista, operário sapateiro, fundador do Centro Libertário Terra Livre nos anos de 1921 e 1922, que em 30 de dezembro de 1922 foi assassinado a tiros no palco do Salão Leal Oberdan enquanto atuava em uma peça teatral com objetivo de angariar recursos para o jornal A Plebe.
Segui com o doutorado, mas esta primeira consciência da força da memória ancestral, suas marcas na saga familiar e na minha própria busca inconsciente passaram a fazer parte das inquietações pessoais e intelectuais.
No período de 2014-2016 realizei o estágio pós-doutoral em Gerontologia Social(1) e escolhi, como apresentação final, a metodologia proposta no Memorial de formação – um gênero acadêmico autobiográfico – considerado tradição da universidade brasileira – uma “escrita de si” – na qual o autor, docente, pesquisador, pós graduando, ou pós doutorando,
[…] narra sua história de vida intelectual e profissional, analisando o que foi significativo na sua formação […] uma forma de dizer o mundo acadêmico [e] por exigir novo pronunciar, o memorial é também um modo de cada autor modificar-se.” (PASSEGGI, 2008, p. 15)
Esse processo revelou a força, por mim desconhecida, das marcas que a voz calada de Ricardo, sua luta pela liberdade e igualdade de direitos, seu interesse na educação como caminho de superação, eram passos do meu caminho.
Estimulada pela prof.ª Beltrina enviei o resumo de um trabalho de pesquisa já iniciada sobre a trajetória de meu avô para do XVI Encontro do Observatório Científico da memória escrita, oral e iconográfica, organizado pela Associação Cultural Mediápolis – Europa, em colaboração com o Instituto Central de bens sonoros e audiovisuais; a biblioteca de História Moderna e Contemporânea e a Casa da Memória e da História, cujo tema era Auto/biografia, polifonia, plurivocalidade – realizado entre 19 a 21 de junho, 2017, em Roma (Itália). Aceito o trabalho lá fui eu, sem conhecer ninguém neste grupo de pesquisadores, rumo à terra de meus ancestrais.
Fui muito bem acolhida e o trabalho suscitou interesse. Senti que tinha dado um passo importante no encontro com os sentidos-significados da minha história de vida e formação. Mesmo convidada não publiquei o trabalho, pois deixaria de ser inédito, e por acreditar que deveria apresentá-lo no Brasil, país pelo qual Ricardo lutou e morreu.
A ocasião surge no VIII Congresso Internacional de Pesquisa (Auto) Biográfica – cuja linha de pesquisa e metodologia docente estudo desde 2006 – realizado na UNICID- SP, no período de 17 a 20 de setembro pp. Apresento o resumo aceito e apresentado no eixo Desvelamento, Reconfiguração, Empoderamento. O texto completo será publicado nos Anais do Congresso a ser disponibilizado em breve.
A pesquisa sobre a história do avô Ricardo ainda está a meio caminho, mas cheguei a uma etapa importante na minha trajetória pessoal e profissional, pois desvelei a saga familiar, reconfigurei a trajetória de Ricardo e a minha própria, movimento que me faz retomar o poder de ser narradora e sujeito da minha própria história – o percurso reconhecimento no caminho do empoderamento conquistado.
Abaixo o resumo que desvela as trajetórias entrelaçadas, e não mais caladas.
Vozes do Passado – Desvelamento, Reconfiguração, Empoderamento
O processo de escrita do memorial acadêmico de estágio pós-doutoral (Passeggi, 2013), buscou exercitar a ‘biografização’ da trajetória profissional, reconfiguração que desvelou a história calada, parte da ‘saga familiar’, no entrelaçamento da dimensão pessoal e social da busca de sentido do meu trajeto, da qual deriva a presente pesquisa (Momberger-Delory, 2012). Objetivou desvelar a figura do trabalhador anarquista Ricardo Cipolla, meu avô, assassinado em São Paulo (1922), na sede do grupo social Centro Libertário Terra Livre – nos primórdios da luta da classe operária brasileira (Dulles, 1977). A metodologia utilizada, de cunho antropológico, faz da etnologia instrumento de avaliação crítica do material colhido na perspectiva dialógica – indivíduo e cultura (Auge; Colleyn, 2004). No processo de imersão na pesquisa e escrita pessoal se superpõe a resistência de Ricardo frente à injustiça social, de sua filha (minha mãe) no enfrentamento de preconceitos derivados de sua filiação e da pesquisadora no desvelamento dos não-ditos, cujas marcas inconscientes surgiram na análise das escolhas dos caminhos de formação. A pesquisa de campo envolveu levantamento bibliográfico sobre Ricardo e o contexto sócio-político em jornais brasileiros e italianos que circulavam à época, em documentos originais e depoimentos de familiares e admiradores. Trazemos ao presente a verdade possível da experiência de biografar o processo de redescoberta dos sentidos nos tempos, tecendo os fios das memórias pessoais e sociais, buscando iluminar caminhos futuros na construção de um espaço biográfico, pela reflexibilidade na validação da história pessoal. A força dessa ‘construção biográfica’ configura-se como resistência ao esquecimento, ao poder-dizer da força do silêncio no espaço sócio histórico de formação e no entrelaçamento de existências singulares, instâncias que confrontam a desumanização, característica da modernidade avançada.
Palavras-chave: biografização, resistência e empoderamento.
Notas
(1) Realizado no Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia Social da PUC/SP com supervisão da Prof.ª Dra. Beltrina Côrte. Apoio CAPES
Referências
PASSEGGI, M.C Memoriais Auto-Bio-Gráficos: a arte profissional de tecer uma figura publica de si. In Passeggi, M. C. e Barbosa, T. M.N (orgs). Memórias, memoriais: pesquisa e formação docente. Natal RN: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2008. Disponível em: http://mediapoliseuropa.com/index.php/symposium/past-symposium/symposium-2017it
Foto de destaque: alljos