Dona Celina e Sr.Ivan, 60 anos de casados

Nesta edição, a Voz do Idoso registra o depoimento de Juliana Bustamante. Ela é aluna do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), leitora do Portal do Envelhecimentoe entusiasta da coluna ´Voz do Idoso’. Juliana me mandou uma mensagem que achei conveniente publicar, pois acredito que o convívio intergeracional é um bom jeito de envelhecer.

 

 

Na prática do cotidiano, fica evidente o conflito entre os papéis atribuídos aos idosos e aos mais jovens. A prática de convívio intergeracional é importante para incorporar novos saberes e modificar atitudes comunicacionais, objetivando a modificação de papéis e valores conflitantes, por meio das parcerias entre as gerações mais jovens e as mais velhas. Ambos aprendem; uns amadurecem, outros rejuvenescem.

Marisa Feriancic – pesquisadora mentora

Mensagem para as Bodas de Diamante: vovó Celinha e vovô Ivan

De sua neta: Juliana da Motta Bustamante

Porque se valorizam os diamantes?

Pensei em falar em amores, na construção da vida a dois, nas fases e obstáculos que um casal deve passar para chegar a tantos anos juntos.

Pensei em falar sobre a família e de como ela é importante na vida de qualquer pessoa.

Pensei em falar em tantas coisas, que de tanto pensar não pensei em mais nada e comecei a sentir.

Afinal, do que adianta falar em amor se quem o vive é que sabe do amor que sente.

Então vou falar de sentidos:

Primeiro “Sentir”:

Quero falar em sentimentos daquilo que percebo como mais fascinante e exemplar nesse casal que com muito orgulho posso chamar de meus avós.

Quando eu nasci ele já tinha cabelo branco e ela estava chegando ao que hoje chamamos de Terceira Idade. Chamo de Terceira Idade porque atualmente ninguém gosta de ser chamado de “velho”, apesar do que dizem: que “panela velha é que se faz comida boa”.

Nessa contradição entre ser jovem, mesmo que aparentando ser velho, eles sempre viveram o amadurecimento como um processo que se inicia desde o nascimento e não apenas a partir de uns tantos anos.

Segundo “Ver”:

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Vi que apesar das rugas, dos sinais e das doenças, existe uma força que leva a superação de tudo isso. Uma força que se traduz na vontade de viver cada dia sem pensar nas dores e pesares, sem deixar que o medo os intimide, mas encarando esse medo como um obstáculo a mais que só está lá para ser vencido. Percebo assim uma nova maneira de viver a velhice, que não se reduz a um cabelo branco, mas se manifesta numa questão de escolhas, de querer e de fazer.

Terceiro : “Ouvir”:

Ah! Como eu gosto de ouvir a vovó contar suas histórias!

Histórias essas das mais variadas possíveis e sobre as mais incríveis viagens e acontecimentos inéditos para mim. Contadas com tanto entusiasmo, clareza e detalhes que nos transportam aos fatos daquele momento, naquele lugar. São contadas com uma capacidade de articulação e detalhes que me recordam Machado de Assis que, por coincidência ou não, soube que vovó admirava muito.

Já em vovô observo as características de um bom ouvinte. Aquele paciente para ouvir que usa seus sorrisos para acompanhar o raciocínio do outro de forma harmoniosa. Foram tão poucas vezes que ouvi sua voz… Mas todas ouvidas com atenção! É nestes momentos que meus sentidos devem ficar mais aguçados, não se pode perder o instante da fala, senão já passou…

Quarto “Cheirar”:

Hum ! Como é bom o cheirinho dos seus perfumes! Vovó sempre vaidosa não sai de casa sem passar um bom perfume e ajeitar o cabelo.

Vovô também, talvez por influência dela, mas está sempre com o cabelo penteadíssimo, camisa engomada e pochete na cintura.

Cheiros, há também os da casa, dos papéis de presente guardados de anos atrás e dos armários que escondem coisas inimagináveis que são verdadeiros documentos históricos.

Quinto “Saborear”:

A fome deles é insaciável. Um pedacinho sempre fica lá guardado para depois. É preciso apreciar com calma, aos poucos… Na busca pelo desconhecido não adianta o saciar completo.

Outro sentido que está meio esquecido nessa correria da atualidade, na qual apenas trocamos olhares e uma conversa se resume num “Oi” e num “Bom Dia”, é o:

Tato!

O carinho, o tocar, o cafuné, o abraço, o beijo, o aperto de mão. Quando se tem o tocar daquela pessoa que se ama sempre presente, 25, 50, ou 60 anos de casados não fazem muita diferença.

Eu sei que para eles anos a mais só fazem diferença porque novas comemorações serão realizadas e para isso precisa-se de preparo. Porque afinal eles continuam fazendo de tudo!

Vovô ainda dirige seu carro sem nem mesmo precisar usar óculos, comprou um notebook aos 86 anos, paga contas na internet, e usa o “skype” pra falar com a família. Eles viajam o mundo todo, (ele mesmo com 40 graus de febre!)

Vovó fez faculdade depois dos 40 e nunca parou de estudar, tem memória melhor do que a minha, que nem lembro o que comi ontem, faz academia nos seus 70 e tantos anos, entre outras coisas… E depois de tudo isso ainda vem dizer para a minha mãe que agora não vai mais pintar o cabelo porque já esta na hora de assumir seus 80 anos! Até parece piada!

Gostaria de terminar minha mensagem dizendo que sempre pude perceber uma energia, uma luz e uma força que irradiava da presença de vovó Celinha e vovô Ivan. Coisa quase que inexplicável e que me faz sentir muito bem.

Essa energia para viver é a herança que mais me orgulho de ter adquirido desses dois. Sobre uma maneira de se viver a vida com a cabeça e o corpo sempre em atividade, e assim como os diamantes que não importam o quão velho sejam, nunca perdem seu brilho.

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