Volta por cima

Acho que minha vida foi marcada, desde cedo, por um lema: “levanta sacode a poeira e dá a voltapor cima”. Se não, vamos conferir.

Waldir Bíscaro *

 

De criança, tinha clareza da fragilidade física que limitava meu desempenho em esportes e,principalmente, em refregas que por acaso tivesse de enfrentar com outros garotos. Evitavaao máximo os confrontos, mas quando se tornavam inevitáveis, sabia me defender e atacar;ameaçava com os punhos e, por baixo, mandava um pontapé nas partes baixas do adversário queacabava chorando. Era a única tática que aprendera.

Logo vi, porém, que não seria pela força dos braços que iria me impor. Então fui obrigado adescobrir em mim alguma outra força que não a física. Se quisesse hoje resumir em uma sópalavra qual seria essa força, é ela mesma: a palavra.

Aprendi a declamar, a cantar e até passei, aos oito anos, em uma espécie de teste para teatro. Foia palavra que me libertou de qualquer sentimento de inferioridade, alimentou minha autoestima einspirou minhas escolhas profissionais.

Os anos se passaram e quase sempre sem necessidade de grandes recuos, fui avançando econstruindo minha vida, às vezes com discrição, outras até com alguma exuberância, em postosde destaque, quase sempre. Mas é claro que pessoas em posições de certa visibilidade estãofrequentemente sujeitas a diversas intempéries e assim as quedas se tornam inevitáveis.

Uma dessas quedas ocorreu quando trabalhava em uma empresa onde encontrei um colega – daárea de marketing – que se dispôs a me fazer guerra usando métodos pouco leais. Ele venceu. Fuiafastado do meu posto e colocado “no desvio”, longe de minhas funções.

O que fazer? Primeiro, verifiquei em que poderia contribuir ao departamento para ondefora “deportado” e logo percebi a necessidade que o gerente da área de Crédito Rural tinha paraalavancar o produto sob sua responsabilidade.

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Ele não dispunha de um manual para orientar a linha de frente, na venda e colocação do produto.As normas de serviço eram dispersas e às vezes contraditórias, quando não, ausentes. O fato éque me pus a vasculhar tudo o que havia sobre o assunto e, como aquilo não era minha praia, fuiespiar o que outros concorrentes faziam a respeito. Quem procura acha, eu achei.

Resultado: montei um manual de Crédito Agrícola baseado no da concorrência, com as devidasadaptações às normas do departamento aonde me exilaram. Meio sem querer, pratiquei o que osamericanos chamam de: benchmarking.

Mas não parei aí.

Como tinha algum tempo livre, comecei a esboçar um Curso de Especialização em Psicologia Organizacional. Há muito, eu percebera que a Psicologia Organizacional estava estagnada em umpapel muito restrito, era hora de avançar. As organizações estavam doentes e era preciso colocá-las no “divã”.

Juntamente com outro professor da PUC, o Sigmar Malvezzi, montamos todo o esquema curriculare contratação de professores.

O diferencial do curso era o seguinte: profissionais com sucesso no mercado – não necessariamente professores ou psicólogos – repassariam a jovens psicólogos suas experiências.Outra característica do curso era seu conteúdo muito voltado à formação política dos psicólogosque iriam trabalhar em empresas. Matérias como “Economia Política”, “Sociologia Industrial”e “Desenvolvimento Organizacional” não faziam parte de currículos tradicionais. O curso funcionoudurante três anos e formou cerca de cinco turmas.

A respeito do cidadão que conseguiu me derrubar naquela empresa, tive a oportunidade, anosmais tarde, de humilhá-lo publicamente, mas não o fiz. Participava eu de uma greve de bancários,dirigindo um piquete em frente a um banco, quando esse cara passou pela rua onde estavam osgrevistas. Bastaria eu apontá-lo como puxa-saco de banqueiro para que o meu pessoal caíssematando. Olhei bem na cara dele, mas não falei nada. Ele baixou a cabeça e se afastou. Tivepena.

*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP.

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