Vivências e práticas na área do envelhecimento

Vivências e práticas na área do envelhecimento

Relato descreve as vivências e práticas de alguém que sente estar com alma pronta dentro de um corpo que já apresenta sinais de alerta de “Velhice chegando”, haja vista outras novidades… Graças da vida.

Anatilde A. Sousa (*)

 

Sou Anatilde, tenho 63 anos, dois filhos, dois netos. Considero ter uma boa e ativa rede de proteção social (familiar e comunitária), muitos amigos e conhecidos. Tenho formação em Artes, curso básico de Arterapia (Faculdade Metodista), Curso básico em Gerontologia pelo Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia Doutor Ermínio de Moraes (IPGG), cursando atualmente sétimo semestre do curso de Graduação em Serviço Social (Faculdade Cruzeiro do Sul), formação em danças Sênior e danças Circular, e participação em outros cursos, seminários, simpósios, entre outros que trazem conhecimento multidisciplinar.

Bem, cursando Artes imaginava que iria para a área da educação, porém esta licenciatura só me chegou aos 55 anos, e logo percebi que estava com alma pronta dentro de um corpo que já me apresentava sinais de alerta de “Velhice chegando”, haja vista outras novidades… Graças da vida:

– Filhos, casaram-se…. E agora?
– Estado civil, divorciada… E agora?
– Situação financeira regular;
– Saúde estável.

Então fiz uma busca do que ainda havia em mim

– Tenho uma formação;
– Sou boa Artesã;
– Gosto de música;
– Danço e estudo a dança;
– Aprecio uma boa leitura;
– Sou simpática;
– Gosto de boas companhias;
– Tenho dom de liderança.

Feito isso, preparei uma proposta curricular, procurei algumas Instituições e ofereci meu trabalho.

Primeira atuação profissional como voluntária foi no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS). Uma experiência prazerosa, mas tristonha, muitas vezes me questionava o que levava o ser humano a uma situação tão degradante e qual sentido tinha para os usuários as atividades que eu os ofertava e porque os prendia tanto. A própria arte me respondeu, “a arte como possibilidade de definição, pode ser sinônimo de beleza ou uma beleza transcendente”. “O tempo Arte, tem caráter subjetivo e qualquer coisa pode ser chamada de arte, desde que alguém considere assim.”

No CAPS os usuários são assistidos por equipe multidisciplinar, entre os profissionais conheci Larissa, terapeuta ocupacional (T.O), que recém-formada, tinha muita teoria e lhe faltava a prática. Larissa enxergou em mim a destreza das habilidades manuais (arte como expressão do íntimo) e o quanto se tornava um instrumento pacífico em mãos trêmulas e pensamentos desarrumados, dando-lhes resposta não se sabe a que, ou para quem. As oficinas se tornaram mansas e prazerosas, era a arte que zombava de todos ali presentes. A Profissional Larissa se encheu de simpatia pela arte, a convidando para fazer parte do seu procedimento curricular. Hoje segue como uma grande T.O. O trabalho foi realizado por um ano, e lá aprendi muito como também fui estimulada a buscar novos conhecimentos e especialização. Abraços Larissa.

Novo foco: Compreender o que seria bom para mim e um segmento profissional

De posse de bons conhecimentos e práticas, montei um novo projeto e ofereci meu trabalho para ser desempenhado como Oficinas Terapêuticas Temáticas, utilizando de um forma distinta objetivos diversos; entre eles: habilidades manuais, visuais, lúdica, conquista de autonomia, melhora da autoestima, propiciar descontração, concentração, estimular a cognição, desenvolvimento da coordenação motora fina, da criatividade, da memória  – entre outros aspectos importantes – para retirar o idoso do isolamento social e psíquico que muitas vezes se encontra, sobretudo uma forma saudável de conduzi-los ao convívio social.

Bem, de início minha proposta aparentava não ter muita valia, visto que se tratava de um discurso de minhas vivências profissionais e os resultados alcançados; porém não na área do envelhecimento. Até então muitos trabalhos artesanais que eram desenvolvidos com grupos de idosos não havia uma reflexão sobre a prática de um olhar terapêutico: “era o fazer por fazer”.

Em 2012, dei início ao projeto “A arte como influência na vida” no Núcleo de Convivência de Idosos NCI Silva Teles Fonte da Amizade, serviço de convivência e fortalecimento de vínculos, para idosos com idade igual ou superior a 60 anos, em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social. Serviço sendo executado de acordo com os fundamentos do princípio de proteção social básica, assegurando centralidade da Política Pública de Assistência Social pela Secretaria de Assistência Social e Desenvolvimento Social de acordo com a portaria 46/47 da SMADS/2010, sobre a Supervisão Técnica do CRAS Vila Curuçá desenvolvido em Parceria com a ONG MOCA- Movimento de Orientação à Criança e ao Adolescente, tendo como Gerente de Serviço a Assistente Social e Especialista em Gerontologia Geane Teixeira de Souza.

Entendendo a arte, também como processo terapêutico, predominantemente não verbal, por meio das artes plásticas, a dança, a música, que acolhe o ser humano, com toda a sua diversidade, complexidade, dinamicidade, a arte se apresenta auxiliando a encontrar um novo “sentido para a vida”.

Nesse plano apresento “Arte como influência na saúde”, quando me refiro a influência logo digo: novidade, perspectiva e estímulo, pois tudo isso se reporta para a saúde englobando um todo, seja cultural ou educacional.

O Projeto

Ministrar Oficinas na área de Arterapia, tendo como estímulo o Artesanato, Pintura, Patchwork, Arte em reciclagem, Argila, estimular a leitura, Poesia e Dança e Dança sênior e circular.

O projeto tinha como objetivos: Trabalhar a arte como expressão da vida; Promover sensação de bem-estar e de emoções saudáveis; Propiciar reflexão sobre velhice como face natural da vida, com suas possibilidades e particularidades; Fortalecer os vínculos de convivência; Promover superação, autonomia e melhora de autoestima; Estimular a cognição, memória, concentração e criatividade; Desenvolver da coordenação motora fina; e Melhorar as relações interpessoais.

Em relação à metodologia, as oficinas são ministradas no NCI, com duas horas de duração, ambiente acolhedor e clima agradável, espaço sempre organizado, com música ao fundo, em que as pessoas são estimuladas a se cumprimentarem de forma afetiva (beijo e/ou abraço), mantendo interação, no decorrer das oficinas isso já acontece naturalmente.

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Durante o desenvolvimento das atividades sempre fico alerta aos movimentos e expressões corporais dos usuários, com escuta ativa e boa acolhida.

Os temas trabalhados nas atividades artesanais variam de acordo com expectativas e interesses dos usuários, tudo é discutido e analisado pelo gerente do serviço que disponibiliza o material pedagógico.

As Danças Circulares, além de serem desenvolvidas no NCI, também são apresentadas em outros espaços para públicos diversificados. Por meio da dança a equipe Técnica do NCI também realiza atividades intergeracionais.

Resultados Esperados

A Arte e a Dança facilitam a expressão, tanto na auto-expressão quanto na elaboração de conteúdos internos e alívio de tensão, permitindo ainda que o criador possa explorar seu sentimento, encontrar novo “sentido” para sua vida, objetivando a reinserção e inclusão social.

Também se coloca os diversos aspectos dos usuários, como os afetivos culturais, cognitivos, motores, sociais, entre outros aspectos tão importantes na saúde física e mental.

Tanto na arte, quanto na arterapia, os conteúdos dos inconscientes são registrados pela produção simbólica “Imagem” pela cor, formas, movimentos, ocupação no suporte e padrão expressivos, e quais elementos compõem o processo de transformação obtendo consistência a partir da criação plástica.

As oficinas se desenvolvem de forma positiva, prazerosa, com grande fortalecimento de vínculos e mudanças no âmbito emocional, evidenciadas por meio de relatos verbalizados e registrados. “E assim sendo, aconteceu o que eu previa um queijo por um quindim”.

A atuação profissional requer constante atualização na busca por aperfeiçoamento profissional. Em 2018 tive oportunidade de participar do curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento (1), pelo qual me propiciou qualificação profissional com instrumentos e referenciais, mostrando novas possibilidades de atuação.

Na disciplina de Cuidados Paliativos, ministrada pela Professora Mônica Estuque, senti-me compensada, no sentido de compreender melhor esta fase, que é a “finitude”. Somos frágeis diante da doença que ameaça a vida, no entanto surge o Cuidado Paliativo como uma filosofia humanitária para cuidar de pacientes em estado terminal, aliviando a sua dor e sofrimento. Saber que existe profissionais capacitados para esse atendimento é de grande valia.

Conforto, que é a mão amiga, o toque;
Conforto social, não fiquei só;
Conforto Psíquico, ser amado, aceito e respeitado;
Conforto Espiritual, sensação de missão cumprida.

Verifico a importância de trabalhar esta temática em grupos de idosos e famílias.

Lendo o livro “Tentativas de fazer algo da vida” de Hendrik Groen, observo que as tentativas nos trazem respostas que exigem reflexões, limites e podem gerar mudanças. Hendrik Groen fez tudo isso com destreza, prazerosamente teceu antenas de escape, fortalecendo e dando sentido a sua vida e suporte aos que estavam ao seu redor. Foi “raposa” com seu faro de velho ajeitado, no anonimato paquerador de Eefje, ficava sempre à espreita com as constantes mudanças, leis, direitos e informação referente aos idosos, querendo saber o que lhes era seguro ou ameaçador.

Carregava como escape a droga final “eutanásia”. Foi um grande mediador de seu próprio confronto. Narrou com naturalidade a velhice e suas nuances, deixando uma reflexão que a qualquer tempo podemos reinventar algo para nossa vida.

Estudar sobre a velhice para mim é como passar a se vestir cada dia com uma roupa nova, chamada de gratidão, compaixão e perdão… amar, sempre amar… seguir e seguir….

Gratidão, Anatilde.

Notas

(1) O curso, de 40 horas, está com inscrições abertas para o primeiro semestre de 2019. Confira clicando aqui.

(*)  Anatilde A. Sousa (*) – Formação em Artes, curso de Gerontologia  (IPGG),  Serviço Social (EAD), curso de extensão Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento (COGESE/PUC-SP), Arterapia Básico (Metodista), Arterapia Básico (IPED). Texto escrito para o curso de Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. E-mail: [email protected].

 

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