“A juventude é um estado de espírito. És tão jovem quanto o teu ideal, tão velho quanto o teu desânimo”. Assim começou uma ordem-do-dia com o título: Ser Jovem, assinada pelo general Douglas MacArtur, e com a qual se dirigiu a seus subordinados, concitando a luta, sem tréguas, aos inimigos. E prossegue, lapidarmente acrescentando: “Os anos enrugam a pele, a perda do ideal enruga a alma”. Atrevidamente, junto-me a esta modelar concitação, adicionando-lhe “e que o Deus que cada um de nós acredita, mantenha a tua alma lisa”.
Luis Faro *
Uso esta referência à guisa de introdução porque tenho lido e meditado sobre o avançar dos anos, mas esta ordem do dia é um estilo de soldado autêntico: preciso, conciso, inconfundível e irrecusável.
Outra frase sobre a terceira idade que induz ao enfrentar a aporia de cada dia, é: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”. E, se tal se dá, por que não usarmos toda a nossa inteligência e transformar – este resto de vida – em amenidades e conseqüentemente felicidade? Há outros pensamentos que ajudam a esse desiderato, por exemplo: Se o destino lhe dá um limão, faça uma limonada“.
Existem os que num requinte, substituem o limão por uma caipirinha. Outros, como os da escola filosófica Epicuro, ditam: “O passado passou, o futuro virá, viva o presente”. De meu turno, uso-os para suavizar os impactos e, quando os sofro, penso: podia ser pior “eu imagino uma catástrofe ainda maior e meu sistema nervoso e espírito se acalmam e propiciam a cicatrização da ferida”.
Abraham Lincoln – o ídolo do presidente Jânio da Silva Quadros, a quem tive a honra de secretariar, quando prefeito de São Paulo – produziu um pensamento que o grande General Mac Artur eternizou em um quadro que o acompanhava em cada sede de comando que exerceu: “…faço tudo do melhor possível, dou tudo que posso. Se o fim for favorável a minha causa, o que se disse de mim não terá valor algum. Se o fim me for contrário, dez anjos jurando que procedi direito não farão a mínima diferença”.
Os exemplos da história são inúmeros e edificantes. Mas permitam-me, queridos leitores, que lhes transmita um exemplo da terceira idade que me legou a minha adorada mãe e que jamais deixei de imitar.
Esposa de um tenente (meu pai) até general, sua companheira leal “na alegria e na dor” prestava-se sem lamúrias aos serviços caseiros, porque era desprovida de servidores. Lembro-me, ainda na infância, morando em diminuta casa, geminada, minha mãe lavava o chão (naquele tempo – 1924- ainda não se usava encerar). Vi muitas provas de desprendimento no cuidado dos seus misteres de mulher de militar no início de carreira.
Quando, depois das alegrias das bodas de ouro, ficou viúva e, eu, seu único filho vivo, novo chefe de família, decidi que o resto da sua vida seriam os mais amenos que estivessem ao meu alcance, tirando-lhe “as pedras do caminho”. Conversávamos com freqüência e, às suas perguntas, respondia-lhe com a melhor resposta.
Elucido a razão desta inserção nesta modesta crônica sobre terceira idade: Certo dia ela me disse: “Meu filho, há em Copacabana um curso de “Altos Estudos Femininos”, estou com vontade de me matricular (ela já com 73 anos!). Respondi-lhe: acho excelente idéia. Justificando-se, disse: “É, a gente precisa se atualizar!”
Terminou o seu curso, foi líder e primeira classificada em Psicologia. Faleceu. No féretro, cercada pelas colegas – todas também da terceira Idade – cada uma delas, ao me cumprimentar, dizia quase a mesma coisa: “sua mãe vai nos fazer muita falta”. Esta é uma maneira acertada de viver a terceira idade: Produzindo, ajudando, sendo útil até o último alento!
Procuro, na medida das minhas forças, seguir o exemplo mencionado. Não por orgulho, mas pelo meu eterno desejo de colaborar para o progresso de cada um que nos honra com a sua companhia. Poderia, egoisticamente, ater-me a ler o que gosto, evitando enfrentar críticas inevitáveis a quem tem coragem de escrever. Faço-o como devida homenagem póstuma à minha querida progenitora. Cada crônica é a síntese do estudo e assimilação com as quais desejo reverenciar os queridos leitores, poupando-lhes trabalho da pesquisa sem precisar, como a quem se aventura escrever, arrostar possíveis críticas nem sempre justificáveis.
Basta a quem se expõe enfrentar as incompreensões e, mais que isso: o papel em branco no qual se escreverá o que planejado, lembrando sempre uma frase que aprendi: ”só se atira pedra em árvore que dá fruto”.
*O Sr. Luis Faro já foi tema da coluna Voz do Idoso. Clique aqui para ler sua história de vida.