Envelhecer é algo que nos confronta desde o mais íntimo de nosso ser, afinal ele nos convida a repensar nossa história, reavaliar nossas escolhas, redimensionar nossa força, reequilibrar nossa ação, respirar novos ares.
Soraia Dias Ciccone (*)
Diante de uma oportunidade no meu trabalho, decido iniciar os estudos sobre Psicogerontologia e escolho, para alavancar minhas pesquisas, o curso: Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento. Logo na primeira aula, um questionamento: “Como lidar com a velhice que vai habitando nosso corpo?”. Questão incômoda, sutilmente percebida nas dificuldades que surgem no dia a dia, na falta de vitalidade para algumas tarefas antes realizadas com destreza, no cansaço fora de hora, nas dores que teimam em se fazer notar.
Mas, vamos lá, continuemos os estudos: pesquisando sobre as teorias psicológicas do envelhecimento, me informando sobre as políticas nacionais de proteção ao idoso, aprendendo conceitos, a biologia e a fisiologia do envelhecimento… E, vagamente, percebo-me olhando para essa fase da vida do lado de fora, repetindo uma frase várias vezes ouvida: A velhice está no outro!
O mundo está envelhecendo. Há dados estatísticos que nos lembram que esse é um caminho sem volta. Dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – anunciam: “A população brasileira ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, superando a marca dos 30,2 milhões em 2017”. (1)
Um respiro! Ainda não tenho 60 anos, esse é o corte, ou 65 nos países desenvolvidos. Faltam alguns anos para entrar nessa estatística. Essa constatação parece não trazer um grande alívio, afinal quantos sinais meu corpo já apresenta: cabelos brancos – que nada, convivo com eles desde os 40! Rugas… e quem não as tem! Dores, problemas de visão, etc. É melhor não começar a fazer uma lista, senão receio o tamanho que ela terá.
Sim, faltam alguns anos para os sessenta, poucos, eu sei. Ouço que devemos nos preparar… Como assim?! Não nos ensinaram a envelhecer! Ensinaram que deveríamos ser jovens, fortes, vibrantes, cheios de vida, trabalhar, casar, criar família, ganhar dinheiro, viajar, curtir a vida. Não nos ensinaram que o tempo chegaria e junto com ele, alguns dissabores.
Vivemos em um país jovem – isso eu sempre ouvi – agora certas notícias vêm confrontar uma realidade tão impingida em nossas mentes: nosso país está envelhecendo e não estamos preparados para isso. E no fundo de minha alma pareço ouvir: Eu também não estou!
Uma forte inspiração, vamos encarar os fatos! A vida é um longo processo, iniciamos nosso desenvolvimento, chegamos ao ápice de nosso vigor físico, intelectual, social e depois… o declínio.
Olho para isso com certo horror! A vida não é uma montanha, não é uma maratona.
Ao envelhecermos estamos mais próximos do fim, certo, mas o fim pode ocorrer a qualquer momento. Como um dia que amanhece, tem o ápice de sua claridade ao meio dia e depois vem o entardecer e o anoitecer. Nossas vidas têm seus momentos que não são nem melhores e nem piores. Apenas são o que são. Há beleza no amanhecer, assim como são belos o entardecer e a escuridão da noite.
Sim, há beleza no envelhecimento. Como um novo continente, precisa ser desbravado. Há uma grande diversidade e heterogeneidade no envelhecimento, mas há também uma singularidade, uma subjetividade: Como me sinto nesse corpo, que há tanto tempo habito?
É engraçado e ao mesmo tempo triste perceber que só nos damos conta de algo em nós quando dói! Meu joelho dói. Dói ao subir as escadas, quando ando muito, ao dar aulas – porque teimo em ficar em pé o tempo todo – dói e agora o percebo. Ele está comigo há tanto tempo, será que eu cuidei dele o suficiente? Não sei responder.
Um suspiro! Será que eu cuidei do meu corpo o suficiente? Será que no afã da juventude, no vigor dos anos dourados, eu me lembrei que meu corpo é minha casa e precisa ser cuidada para que dure muito, muito, muito tempo.
Uma lágrima corre no meu rosto, um nó se instala na minha garganta. Eu não sabia!
Não fui ensinada a envelhecer. Disseram que deveríamos ter corpos lindos, pernas bem torneadas, cabelos sedosos, brilho no olhar, pele macia. Mas, agora, olhando para meu corpo, vejo quantas mudanças, quantas transformações. Como aprender a lidar com algo que não nos foi ensinado?
Lembro de um poema: Erótica é a alma (2) de Adélia Prado. Ela diz que todos iremos envelhecer, que nossa imagem irá se alterar, junto com nossa estatura, lábios e cabelos e que o segredo para toda essa transformação não são as cirurgias plásticas, mas a reforma interior, uma reforma para fortalecer nossa alma, afinal:
Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história. Que usa a espontaneidade para ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo. Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.
Aceitar as dores, abusar do bom humor, se divertir com as dificuldades, ser espontânea, natural, verdadeira, despida dos preconceitos de mim mesma e dos outros – quem sabe agora, iniciando esta nova fase da vida, eu consiga fazer as pazes comigo mesma e ver em cada ruga, uma experiência, em cada cabelo branco, uma batalha bem lutada, em cada dor a vivência, a respiração e a grandeza de ser quem eu sou.
Sim, há muitas fragilidades, no corpo e na alma, há a vivência de muitas perdas, há o confronto com muitas dores, mas há também a serenidade de que o tempo existe e que, apesar de ser inexorável, é também um grande sábio, um grande aliado para aqueles que se permitem aprender com ele, experimentar seus segundos, inspirar seus minutos e viver suas horas.
Olho hoje para mim, olho para o tempo que vivi, olho para tudo que fiz e que não fiz e posso me abraçar porque posso me aceitar, não mais com a crítica ferrenha da juventude, mas com a força da velhice e com a resistência que deve haver no envelhecer. Sim, envelhecer é algo que nos confronta desde o mais íntimo de nosso ser, afinal ele nos convida a repensar nossa história, reavaliar nossas escolhas, redimensionar nossa força, reequilibrar nossa ação.
Lembro-me de D. W. Winnicott que afirma que “para poder ser, e para ter o sentimento que é, deve-se ter uma predominância do fazer-pelo-impulso sobre o fazer reativo” (1970, p. 23). Quando jovens, muitas vezes o que fazemos vem em resposta ao sentimento de pertencimento ou de rebeldia, uma ação reativa porque precisa se provar, reações contra as imposições da família, da sociedade, da cultura. Aos poucos, quando nos damos esse tempo, a vida nos mostra que a saúde, mental e física está no viver criativo, no viver que faz a vida valer a pena, no viver que abarca o ser como um todo. E, na busca pelo self, Winnicott nos convida a brincar, porque “é no brincar e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto (e eu acrescento velho), pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral; e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (1971, p. 80).
Nesse brincar e nesse fluir de ser pude sentir, aprender e perceber esse tema que decidi estudar e vê-lo em mim e, ao estudar algo que faz parte da minha vivência diária, percebo um novo sentido para o existir que traz outros tantos recursos para agregar e abraçar em um viver mais pleno. Consigo agora expor esse aprendizado junto aos meus alunos e mostrar-lhes que há muito para ser compreendido com o tempo, com cada idade e suas especificidades, com cada etapa de vida, com seus ganhos e perdas, com cada fase da existência, com suas dores e seus sabores, com cada indivíduo, na sua singularidade e complexidade, com cada momento, com sua beleza e sua estranheza.
Notas
(1) Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br acesso em 23/06/2018
(2) Disponível em http://www.vemqueagenteexplica.com.br/blog/2017/01/06/erotica-e-alma-by-adelia-prado acesso 23/06/2016.
Referências
WINNICOTT, D. W. O Brincar: A atitude criativa e a busca do eu (self). In: O brincar e a realidade. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, (1975) [Obra original publicada em 1971]
WINNICOTT, D. W. Vivendo de modo criativo. In: Tudo começa em casa. Tradução Paulo Sandler, 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, (1999) [Obra original publicada em 1970]
Foto de destaque de Chris Lawton
(*)Soraia Dias Ciccone é psicóloga, formada pela Universidade São Marcos há 18 anos, com especialização em Psicoterapia Psicodinâmica Breve e Psicoterapia Winnicottiana, Mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atua como psicóloga clínica em consultório particular há 16 anos e como professora e supervisora clínica no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas há 5 anos. E-mail: [email protected]