Reflexões sobre um grupo de psicoterapia que trabalha o envelhecer

O objetivo desse trabalho é a possibilidade de compreendermos a psicoterapia de grupo com pacientes com mais de 55 anos. Meu desejo de trabalhar com pessoas que estivessem vivendo essa fase de sua vida, na qual muitas oportunidades já haviam se esgotado, ocorreu há três anos. A partir deste momento, desenvolvi um projeto para ser realizado na Psicoterapia da Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.

Dorli Kamkhagi *

 

Recebi todo o apoio do Dr. Luiz Cuschnir que, como supervisor e diretor do Gender – Group, aceitou que esse trabalho pudesse ser efetivado. Dessa maneira, nasceu o Gender – Group do Amadurecimento. Meu vínculo com a instituição é de psicóloga voluntária.

Julguei importante formar grupos de pessoas que, de uma forma ou de outra, sentiam-se excluídas socialmente. Ou tinham dificuldades financeiras que as levava muitas vezes a desenvolver quadros depressivos, um sentimento de inadequação e baixa auto-estima.

Este grupo passou a acontecer a partir de fevereiro de 2004, tendo duração prevista até a segunda semana de dezembro deste mesmo ano.

Nosso processo de triagem inicia-se em dezembro, após uma entrevista comigo, e ocorrem outras entrevistas com os demais membros da equipe. Desenvolvemos alguns testes que são efetuados no início do processo, sendo repetidos no final da terapia.

Julgamos adequado esse procedimento, pois ele é mais um dado na nossa pesquisa na busca pela compreensão da singularidade do envelhecer.

Este trabalho está no seu terceiro ano e tem ajudado a população que nos procura seja através da mídia ou por encaminhamento de pessoas que utilizam os serviços que são desenvolvidos na Psicoterapia da Psiquiatria (IPQ) do HC.

Temos tido um aumento muito grande de pessoas que vêm buscando este tratamento. O que nos leva a pensar numa possibilidade de criarmos mais um grupo voltado às questões do amadurecimento.

Um dado bastante importante nessa pesquisa é percebermos o número de pacientes homens, que tem tido um aumento considerável. Fato esse que nos leva a supor que existe uma mudança no comportamento social, levando a uma diminuição do pré-conceito de que os homens não fazem terapia (principalmente no envelhecer).

Esse novo dado tem sido interpretado por nós como um passo a mais nas questões que envolvem homens e mulheres no envelhecer.

A abordagem que utilizamos é a psicoterapia de base analítica, embora outras técnicas e ferramentas sejam também usadas no sentido de uma maior compreensão e auxílio das pessoas que fazem parte deste grupo.

Atualmente temos um grupo de 19 pessoas: 12 mulheres e 7 homens.

A equipe é formada por mim, que sou psicóloga, psicanalista, mestre em gerontologia e doutoranda em Psicologia Clínica. Os outros 4 membros da equipe são psicólogos, sendo que dois estão fazendo pós-graduação.

Esta breve introdução de como se passa esse trabalho me parece ser adequada para uma maior reflexão da estrutura do grupo.

Meu interesse em estudar e compreender a clínica que denominei “Clínica do Envelhecimento” está diretamente ligado à dificuldade experimentada pelo indivíduo, tanto no que se refere ao seu sentimento de finitude quanto aos processos que envolvem o confronto com o envelhecer.

“Síndrome do envelhecer”

O envelhecimento é percebido pelo próprio indivíduo como um movimento em que todos os passos o levam a sentir-se vivendo um estado de não pertencimento. Os sinais concretos disso são visíveis: algumas de suas antigas referências vão desaparecendo aos poucos. O sujeito passa a não poder pertencer a um certo grupo ou lhe é exigido que deixe de exercer uma determinada função social ou familiar; as próprias transformações vividas pelo indivíduo confirmam essa sensação permanente de vivenciar perdas. Para algumas pessoas, o processo de envelhecimento provoca fortes sentimentos de não fazer mais parte de um universo que o reconheça como um indivíduo que tenha valor. A própria vivência de ser aposentado destitui o indivíduo de um certo grau de dignidade.

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Nesse momento, o indivíduo se vê ora pertencendo a uma vida, a uma historicidade, ora sentindo-se excluído, pois começa a fazer parte dos denominados “indivíduos portadores da síndrome do envelhecer” (expressão designada por mim, na necessidade de expressar esse movimento de exclusão).

A noção de síndrome, um estado mórbido caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas e que pode ser produzido por mais de uma causa, passa a ser utilizado de uma forma às vezes camuflada e sutil pela sociedade para se referir a indivíduos em processos de envelhecimento.

A síndrome do envelhecer vai se instalando e culmina com o tempo cronológico, passando a determinar uma cruel sentença de afastamento do indivíduo da sociedade e muitas vezes de seus próprios desejos. Os sinais desse envelhecer, que nem sempre podem ser evitados, passam a transformar-se num parâmetro de quem é o portador de tal síndrome. Na Idade Média, os “leprosos” eram abandonados em ilhas ou lugares distantes. Hoje, nossa sociedade não pode aceitar a pessoa que envelhece.

Nesse trabalho com grupos, ficou clara a necessidade e a importância para os pacientes de refletir e recriar certos eventos de seu passado. Aos poucos, pude compreender que havia uma necessidade de se recordar alguns fatos, assim como de tentar uma outra nova compreensão dos mesmos.

Quando no envelhecer ocorre uma percepção de que muitas das antigas representações de suas vidas estão se desconstruindo, o sujeito pode viver uma forte sensação de angústia. A perda de um cônjuge, a aposentadoria, o corpo que já não responde prontamente às antigas solicitações. Esse sentimento pode ser vivido como um momento de muita dor acompanhado de desejos de morte.

Nesses grupos, percebo o quanto de dor vivencia o indivíduo que se percebe perdendo lugares que o ajudaram a constituir sua identidade, podendo vir a ocorrer um sentimento de desestruturação, muitas vezes acompanhado de um desejo de tudo esquecer. Podemos pensar que certas falhas que se observam nos indivíduos que envelhecem, assim como processos degenerativos, podem estar ligadas à necessidade de não sentirem mais dor. Essa é uma forma de afastamento da realidade que pode levar a mecanismos de demenciação.

Segundo a teoria psicanalítica, os indivíduos fazem investimentos libidinais durante toda sua vida. Por meio das primeiras relações de objeto (mãe, pai), a criança vai constituindo um mundo interno. Nessas identificações com os objetos, a criança passa a internalizar imagens que terão uma representação psíquica inconsciente do traço investido desse outro objeto, que vem se sobrepor a um traço já existente, correspondente aos primeiros objetos de amor.

Podemos perceber que à medida que as pessoas envelhecem muitos de seus antigos investimentos começam a desaparecer. Mas essa história psíquica dos indivíduos que estão vivendo esse momento de solidão está também diretamente ligada à maneira como essas pessoas tiveram suas internalizações de objetos (relações mais antigas).

O fato de alguns pacientes terem vivido perdas (status social, carreira, filhos, cônjuges) os leva também a uma dolorosa vivência de luto. Eles passam a sentir uma falência de sua própria pessoa.

Para alguns deles havia a necessidade da recriação de um passado glorioso. Pude perceber ser essa também uma condição necessária e humana no resgate de suas histórias que estavam soterradas. Poderia fazer inúmeras considerações sobre esse trabalho, porém vou me ater somente um pouco mais para finalizar.

O processo de envelhecer não é único

Ao longo das incursões entre a clínica e o pensamento psicanalítico, podemos pensar que a percepção do envelhecer se dá muitas vezes por meio de algo significativo. Muitas vezes é aquela olhada no espelho, a visão que num relance, mostra que algo se passou. Outras vezes a morte súbita de alguém muito amado pode ser o detonador desse sentimento de finitude.

Porém podemos pensar que o processo de envelhecer é único, pois cada indivíduo, em sua trajetória de vida terá diferentes formas de lidar com as perdas e mudanças. As internalizações e as formas de se viver esse envelhecer para alguns podem significar um luto pessoal. Para outros, um momento de novas percepções de si mesmo.

O poeta e psicanalista Rubem Alves, em As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer, nos auxilia a compreender a magia deste tempo que repentinamente se instala em cada um de nós:

O crepúsculo é o dia chegando ao fim. O tempo se acelera como se transformam rapidamente as cores das nuvens, no seu mergulho na noite. E paradoxalmente, o tempo fica imóvel, paralisado num momento eterno. Por isso que o crepúsculo é um momento sagrado, de oração, quando o eterno se oferece a nós numa taça efêmera. Por isso cessa o trabalho. È momento de oração: ângelus. Somente os sentidos atentos em contemplação (…).

O outono é o crepúsculo do ano. A colheita terminou. Tudo fica frágil, à espera. As árvores começam a se queimar em cores vermelhas e amarelas, um grito de orgasmo, não se sabe direito de beleza ou de morte. E o tempo se imobiliza na espera do inverno. Sim imóvel como a folha de outono. A espera do próximo vento. Como ela é bela na eternidade daquele momento efêmero (…).

A beleza é assim, a coincidência entre a eternidade e despedida: aquilo que o amor deseja que exista eternamente lhe escapa por entre os dedos, é água, e ele só fica com o vazio. (2002:27-28)

________________________

* Dorli Kamkhagi – Psicóloga, psicanalista. Cursou o mestrado em Gerontologia (PUC-SP). Desenvolve atividade clínica em consultório com pacientes individuais, Grupos. Trabalha com grupos no IPQ do HC. Especialização em terapia de casais. Doutoranda em Psicologia Clínica, na PUC-SP, onde desenvolve a pesquisa intitulada “O envelhecimento como metáfora de morte.

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