Falei antes, que um dos fatores propícios à implantação de um modelo de democracia empresarial no Banespa teria sido, além da presença de Bresser Pereira, o bom nível de politização dos funcionários.
Waldir Bíscaro *
No Banespa, era possível identificar algumas das diversas tendências políticas entre a maioria dos funcionários. É claro que depois de tantos anos de privação do debate político, seria previsível a prevalência da alienação como forma de adaptação ao emprego em uma estatal. Foi a presença de líderes sindicais e de alguns líderes estudantis ingressados via concurso que fizeram a diferença no cenário do banco. O PCB, o PCdoB e o PT eram os partidos que apareciam como os preferidos pelos funcionários que se definiam politicamente.
A ocasião de maior envolvimento político dos funcionários se deu quando o presidente do banco estimulou a formação de um comitê interno para atuar como coordenador da campanha pelas “Diretas Já”, junto aos funcionários. Apresentei-me para compor esse comitê, representando a Corretora.
Até então, não tivera nenhum contato com os funcionários do banco, onde ninguém me conhecia e nem eu sabia das posições políticas dos outros membros do comitê.
O grupo que melhor se organizou foi o formado por filiados ao PT, partido ao qual eu me filiara em 1981, ainda na Cosipa, mas, como disse antes, ninguém sabia de minha filiação política. No entanto, alguns companheiros que haviam participado do comitê pelas diretas logo perceberam minha identidade e me procuraram.
As atividades que precederam as eleições tiveram tudo de uma campanha eleitoral, em um ambiente aquecido, porém sem atritos. As eleições ocorreram em clima saudável e o primeiro diretor eleito fazia parte do grupo petista e tinha sido presidente do sindicato dos bancários. Tendo eu concorrido com outros cinco candidatos das empresas coligadas, fui eleito com um escore folgado.
O que se poderia esperar de um grupo de pessoas que mal se conheciam, jejunos, em sua maioria, em questões de uma possível democracia empresarial? Cada eleito sabia que representava uma unidade da organização que se espalhava por todo o território nacional.
Partimos do pressuposto que os eleitos teriam, ao menos, a aceitação e a confiança dos que os elegeram. Era o mínimo. Quanto a saber se tinham ou não condições para levar adiante algum projeto político e profissional, seria difícil afirmar, mesmo porque as bases pouco sabiam dos reais objetivos daquela forma de representação.
O único modelo disponível era o sindicalista, foi então esse o modelo que prevaleceu. Essa prevalência não seria de todo má, desde que evoluísse para uma posição mais madura. O lado inadequado do modelo sindicalista é que ele sofreria dependência do sindicato da categoria e teria uma atuação de tipo reivindicatória e mais voltada para as questões salariais e, por conta disso, pouco ou nada participativa.
Estava previsto que esse início de atuação não seria mesmo o que haveria de mais esplêndido. Ainda assim, apontaríamos alguns avanços nas questões de relacionamento interno como diminuição de queixas e até a melhoria do clima geral dentro do banco. Mais adiante, foi permitida a representação de funcionários no debate sobre o sempre famoso plano de carreira e salários.
Convenhamos que, diante da grandeza da proposta de uma democracia participativa, esses avanços eram modestos.
São Paulo – junho de 2012
* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC-SP. E-mail: [email protected]