Muitas vezes uma situação limite, aparentemente sem solução, pode levar os sistemas a pensar em inúmeras oportunidades de desenvolver soluções com criatividade que possibilitem um ganho de aprendizado e, acima de tudo, em princípios de solidariedade.

Esse é o caso, falamos do aumento de criminosos perigosos, condenados à prisão perpétua nos Estados Unidos, que envelhecem na cadeia e desenvolvem demência. O que fazer? A total falta de opção está fazendo com que outros prisioneiros, tão perigosos quanto os colegas de cárcere, tenham de fazer o papel de enfermeiros – entre outras maneiras de lidar com essa nova situação.
Um exemplo que a reportagem publicada no Estadão sob o “título “Demência nas prisões dos EUA gera desafio” traz é o de Secel Montgomery Sr., que esfaqueou uma mulher no estômago, no peito e na garganta com tanta fúria que perdeu a conta de quantos golpes desferiu. Nos quase 25 anos em que está preso na Colônia para Homens da Califórnia, envolveu-se em brigas, ameaçou um agente penitenciário e foi pego com maconha. Apesar disso, recebeu a incumbência de cuidar de colegas com Alzheimer e outros tipos de demência, dando-lhes banhos e até trocando fraldas.
Seria esse o melhor exercício para se refletir sobre todos os atos praticados pela vida? Se é o ideal ou a melhor solução, não sabemos, mas não deixa de ser uma forma de lidar com desafios e neste caso humanitários. Cuidar do outro, na maior parte das vezes, é olhar para dentro de nós mesmos, encarar as nossas próprias mazelas e desventuras acumuladas. A nossa imagem refletida naquele que sofre.
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Conforme menciona a reportagem, não é comum ouvir qualquer coisa que seja sobre demência nas prisões, entretanto os números crescem – e muitas das prisões do país não estão preparadas para lidar com ele. É uma consequência não prevista das políticas de “tolerância zero” com a criminalidade. Cerca de 10% dos 1,6 milhão de presidiários nos EUA cumprem prisão perpétua, enquanto outros 11% receberam penas de mais de 20 anos. Corrige-se de um lado e acumula o problema do outro.
E não para por aí; mais idosos estão sendo mandados para a cadeia. Segundo a ONG Human Rights Watch, em 2010, 9.560 pessoas de 55 anos ou mais foram condenadas, mais que o dobro do número relativo a 1995. Nesses 15 anos, o número de presidiários com pelo menos 55 anos quase quadruplicou, chegando a cerca de 125 mil. É demais para o sistema carcerário.
Para os especialistas o cenário se agrava na medida em que a população carcerária parece ser mais suscetível a sofrer de demência que a população em geral, por normalmente possuírem alguns fatores de risco, como baixo nível educacional, hipertensão, diabete, fumo, depressão, uso de drogas e até mesmo ferimentos na cabeça causados por brigas e outros tipos de violência.
E as despesas crescem…
Vale ressaltar que presidiários com demência são caros. Os gastos médicos para os idosos são de três a nove vezes maiores que os dos prisioneiros mais jovens. Como se isto não bastasse, eles precisam ser protegidos contra outros condenados, que se aproveitam de sua fragilidade para abusar deles. O agravamento da demência os torna paranoicos ou confusos com um histórico de sentimentos já exacerbados pela vida na cadeia.
Como a situação só tende a ficar cada vez mais séria, algumas prisões estão buscando soluções para o problema. O ideal seria transferir os presos demenciados para as casas de saúde, mas a violência de seus crimes normalmente gera uma grande relutância do Estado em conceder-lhes liberdade condicional – assim como muitas instituições de saúde temem recebê-los.
Exemplos de Soluções
- O Estado de Nova York tomou o caminho mais caro, criando unidades separadas para presidiários com demência e contratando profissionais para cuidar deles. Enquanto cada preso comum gera um gasto de US$ 41 mil por ano, aqueles com demência custam mais que o dobro, US$ 93 mil.
- O Estado da Pensilvânia optou pelo treinamento especial para profissionais da saúde.
- Já a Califórnia e a Louisiana, estão adotando uma solução mais barata, mas potencialmente mais arriscada: estão treinando prisioneiros para lidar com necessidades diárias de seus colegas idosos e doentes.
Pagamento
Na Colônia para Homens da Califórnia, os presos que ajudam os colegas com demência ganharam o apelido de “casacos dourados”, por causa do uniforme especial que recebem ao assumir a função – a cor normal é a azul. A psicóloga da unidade, Cheryl Steed afirma: “Sem eles, não seríamos capazes de cuidar muito bem de nossos pacientes com demência”.
Os chamados “casacos dourados” recebem um pagamento mensal de US$ 50 e, por causa do treinamento que recebem de uma associação especializada em Alzheimer – com direito a distribuição de manuais bastante extensos -, têm muito mais conhecimento sobre a doença que os guardas.
“Eles desenvolvem diferentes truques e estratégias para fazer com que os doentes façam o que tenham de fazer”, diz Cheryl.
Bettina Hodel, outra psicóloga do local relata à imprensa internacional que antes do programa ter início, em 2009, os prisioneiros com demência frequentemente causavam brigas: “A atmosfera era muito mais hostil”. Atualmente, a unidade conta com seis casacos dourados, que cuidam de um grupo de 40 presidiários que sofrem de doenças como Alzheimer.
Exemplos como o da Califórnia, podem ser desenvolvidos: basta treinamento, formação continuada e conscientização. Basta querer!
Referências
ESTADÃO (2012). Demência nas prisões dos EUA gera desafio. Disponível Aqui. Acesso em 28/03/2012.